Saudade de Paris!
Foto: AVianna, 2009.
Nova espécie de primata é descoberta na Amazônia, é a manchete do artigo de Cassandra Carla Silva Castro para a Agência Cenarium (7 ago 2021).
Informa Cassandra Castro: “A espécie de mico descoberta pelo biólogo Rodrigo Araújo, que só é encontrada na Região Norte do Estado do Mato Grosso, recebeu o nome de sagui-de-Schneider (M. schneideri) em homenagem ao professor Horacio Schneider, que é reconhecido pelo pioneirismo e grande contribuição para a pesquisa da diversidade e evolução dos macacos. A descoberta realizada por Rodrigo Araújo é a terceira desde 2019 e integra a pesquisa realizada por ele para a defesa do doutorado em Biologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Antes do micoSchneideri, agora em 2021, o cientista já havia descoberto as espécies Plecturocebus grovesi e o mico Munduruku, ambas em 2019.”
“O pesquisador explica que o mico é um gênero composto por 16 espécies diferentes e que são encontradas na região do arco do desmatamento, que compreende áreas que vão do Oeste do Maranhão e Sul do Pará, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre. Durante os trabalhos de campo que realizou, Rodrigo viu regiões bastante degradadas, uma realidade que altera o equilíbrio da floresta e, consequentemente, de seus habitantes.”
“No caso do mico Schneideri, a área onde foi encontrada a espécie está localizada no Rio Teles Pires, onde existem várias hidrelétricas que impactaram o habitat do animal, mas os responsáveis pelos empreendimentos não sabiam da existência dos macacos, o que poderia ter evitado consequências nocivas aos primatas.”
Há muito ainda por descobrir na Amazônia, antes que acabem com ela.
“Rio de Janeiro, 2 de março de 1869.
Minha querida Carolina,
Recebi ontem duas cartas tuas, depois de dois dias de espera. Calcula o prazer que tive, como as li, reli e beijei! A minha tristeza converteu-se em súbita alegria. Eu estava tão aflito por ter notícias tuas que saí do Diário à 1 hora para ir a casa, e com efeito encontrei as duas cartas, uma das quais devera ter vindo antes, mas que, sem dúvida, por causa do correio foi demorada. Também ontem deves ter recebido duas cartas minhas; uma delas, a que foi escrita no sábado, levei-a no domingo às 8 horas ao correio, sem lembrar-me (perdoa-me!) que ao domingo a barca sai às 6 horas da manhã. Às quatro horas levei a outra carta e ambas devem ter seguido ontem na barca das duas horas da tarde. Deste modo, não fui eu só quem sofreu com demora de cartas. Calculo a tua aflição pela minha, e estou que será a última.
Eu já tinha ouvido cá que o Miguel alugara a casa das Laranjeiras...”
Este fragmento de carta, endereçada à Sta. Carolina Xavier de Novais, por Machado de Assis, encontra-se no quinto volume de Machado de Assis – Correspondência, em cinco volumes, editada pela Global Ed. e pela Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2019. A coordenação da obra é de Sergio Paulo Rouanet, com organização e comentários de Irene Moutinho e Sílvia Eleutério.
O projeto que resulta nesta publicação é monumental, com mais de sete anos de trabalho minuciosíssimo, cada texto repleto de notas explicativas que nos remetem a diferentes lugares, pessoas, acontecimentos, circunstâncias. Quem tiver paciência e gostar desse tipo de literatura – sim, porque se trata mesmo de Literatura – há de apreciar a leitura como se lesse um romance, recheado de história, costumes, a fala de uma época, e, mais que tudo, a biografia do nosso maior escritor, Machado de Assis.
No prefácio desse quinto volume (correspondência de 1905 a 1908), Marco Lucchesi, presidente da ABL, chama nossa atenção para dois aspectos fundamentais: a personalidade de Machado e sua época:
“Cada um de nós traz uma ideia de Machado. Ideia vaga, talvez, difusa, mas eminentemente sua, apaixonada e intransferível. Como se guardássemos um fino véu a se estender sobre a cidade do Rio de Janeiro.
Paisagem pela qual vamos fascinados e diante de cuja natureza suspiramos. Todo um rosário de ruas e de igrejas – Mata-Cavalos, Santa Luzia, Latoeiros e Candelária. Nomes-guias e sonoridades perdidas. Morros derrubados. Praias ausentes. Tudo o que perdemos move-se ainda nas páginas de uma cidade-livro.”
A leitura dessa Correspondência há de apurar a ideia que fazemos do homem Machado. Voltemos à carta acima, endereçada a Carolina. Espantou-me o longo primeiro parágrafo! É evidente a aflição do homem apaixonado; ainda não sei se essa emoção é a responsável pela prolixidade e repetição do mesmo tema – a demora das cartas! – ou se Machado era mesmo assim, meio confuso. Não é o que deixa transparecer a obra dele, porém, uma carta íntima revela coisas que um romance, conto ou poema do autor jamais mostrariam.
As duas cartas que Machado recebe da amada se misturam com as duas que ele escreve; a demora dos correios traz aflição desmedida; ele troca o dia da semana e se confunde com o funcionamento das barcas, e pede desculpas!; parece obcecado com os horários; mistura sua aflição com a que pressupõe de Carolina; o sofrimento é de ambos os dois; é tamanha a agonia que engole uma palavra ao final do parágrafo (“Calculo a tua aflição pela minha, e estou que será a última”); ele está certo de que “será a última”?
Curioso mesmo é que, após o parágrafo concentrado no tema das cartas e na aflição dos enamorados, logo em seguida o assunto muda de forma radical, súbita, e Machado volta à Terra, ao mundano cotidiano, e cita Miguel (irmão de Carolina, informa a nota) e o aluguel da casa em Laranjeiras, bairro agradabilíssimo do Rio de Janeiro, suponho até os dias atuais, onde morei por alguns anos em companhia de minha família.
Que Machado é este que o parágrafo de uma carta deixa transparecer? Sei apenas que o leitor se deleita!
1 Treino é treino...
Trinta treinos sem um único erro. Na primeira prova, caiu do cavalo.
2 Sonho amigo
Acordou assustado: sonhou que havia cometido um erro nas barras paralelas. Na prova, ganhou a medalha de ouro.
3
Do outro lado do mundo, o campeão dedicou o ouro à esposa. Em frente à tevê, ela enxuga as lágrimas em outros braços.
4 Herói vagabundo
Até os 30, ouviu o pai lhe chamar de vagabundo. Quando ganhou o ouro no skate, virou herói.
5 Peso da fama
De repente sentiu que a obrigação de vencer era maior que a alegria da vitória. Amarelou.
6 Arrogância
Técnico exigentíssimo, o jogador que fizesse cesta de 2 pontos era imediatamente substituído.
7 Quem paga o pato
Errou o segundo saque e perdeu o jogo. Não lhe restou alternativa senão quebrar a raquete.
8 Sonho engana
Sonhou que havia ganho o ouro nos 50 m nado livre. Na prova, queimou a largada.
9 Fundamentalismo
Ela precisava correr os 100 m rasos usando véu. Não ouviu o tiro de largada.
10 Kafka profeta
Nos últimos metros da maratona tropeçou nas próprias pernas. Do chão viu o sentido da Vida.
Com o passar dos anos aguçou a tal ponto seu senso crítico que acabou por emudecer.
Ex-mulher deixa a filha com covid passar o final de semana com o pai e a namorada nova dele. A criança passa bem.
Moisés Tito Lobo Furtado
Acho esse microconto uma obra prima; a ilustração não poderia ser melhor!
Vale a pena ler outros microcontos do autor, um especialista nato, originalíssimo, com enorme capacidade de síntese e criatividade.
https://moisestitolf.blogspot.com/2021/07/cavalo-de-troia.html
Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
In Obra poética – vol. 1
Ed. Caminho, 4ª edição, 1998
“A coisa mais antiga de que me lembro é de um quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objetividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeu de Sousa Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real.”
Sophia de Mello Breyner Andresen
In Obra poética – 3 volumes
Ed. Caminho, 4ª edição, 1998
O texto acima está na introdução da referida edição de Sophia de Mello. A frase “a obra de arte faz parte do real”é para ser guardada com carinho.
“Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto 1919, Lisboa 2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. O seu corpo está no Panteão Nacional desde 2014 e tem uma biblioteca com o seu nome em Loulé.”
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sophia_de_Mello_Breyner_Andresen