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Quadro de Basquiat intitulado 'In This Case'
Foto: EFE/Christie's
“O quadro In This Case, de Jean-Michel Basquiat, foi vendido por US$ 93,1 milhões na terça-feira, 11 em um leilão organizado pela Christie's em Nova York, tornando-se a segunda obra mais cara já vendida do pintor americano.
In This Case aborda dois temas dominantes na obra de Basquiat, a anatomia e a representação de personagens afro-americanos.
Com exceção de Basquiat, os pintores afro-americanos foram subestimados por colecionadores e sub-representados em museus por um longo tempo.
Nos últimos anos, o mercado iniciou um processo de reavaliação de muitos deles.”
Gosto muito de Jean-Michel Basquiat.
Duas fotografias antigas, desfocadas, como acontece com a memória de alguns de nós, que vai perdendo aos poucos a nitidez, vai evanescendo, até que se apague completamente. Algumas nunca se apagam.
A primeira delas mostra nosso avô Breno Vianna, vestindo terno de linho branco, lendo jornal na sala de jantar da casa à Rua Costa Braga, 90, em Guaratinguetá. Atrás dele, a luz intensa de uma janela ajuda na leitura. No primeiro plano há uma porta aberta, que dá para uma pequena varanda que chega até o portãozinho de entrada. O avô é magro na fotografia, o que indica que ela é bem antiga. Suponho que Ofir tenha sido o fotógrafo.
A segunda, mais desfoca ainda, me parece que é o único registro de nossa avó Cici – assim Breno registrava seu apelido – sorrindo! Quem a amou como eu a amei, pode reconhecê-la perfeitamente, a tez clara, os cabelos bem finos, levemente crespos, a testa alta e o queixo forte. Tive com minha avó Cici, eu bem criança, a primeira relação adulta de minha vida; ela me tratava com o mesmo respeito que dedicava às pessoas adultas, e eu sentia aquilo como profunda manifestação de amor.
Lembro-me bem do dia em o telefone antigo foi trocado por uma aparelho moderno, em que bastava discar o número desejado para que o destinatário atendesse, sem auxílio de uma telefonista. De minha casa, vizinha a de meus avós, disquei e ela atendeu:
– Alô!
– Quem fala, por favor?
– É da residência de Breno Vianna.
– E quem está falando?
– Cici, a esposa dele.
– Dona Cici, aqui é da Companhia Telefônica. Estamos fazendo um teste para checar se o telefone está funcionando.
– Pois não.
– A senhora pode soprar forte no telefone, por favor?
– Fuuuuuuuuuu...
– Mais uma vez, bem forte.
– Fúúúúúúúúúúúúúú...
– Pela última vez, mais forte!
– FÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚ...
– Pode parar porque já encheu. Hahahaha!
Foi então que a avó percebeu que se tratava de um trote, e que o engraçadinho era eu mesmo, seu neto predileto. Atravessei o portão que separava as duas casas, fui até ela e rimos muito. Esta era a Cici, minha segunda mãe.
Breno, o brilhante intelecto da família. Cici, sua alma.
Pesco no Twitter a belíssima fotografia de provável cena rural suíça; além de bela, a intrigante presença humana.
No primeiro plano se destacam as águas cristalinas de um pequeno rio com nascedouro nas montanhas, águas de degelo, e uma singela ponte, ladeada por guardas de 1 m de altura, onde, de costas para o expectador, uma mulher vestindo casaco laranja contempla a majestosa paisagem. A extremidade visível da ponte ancora-se em fundação de pedra de aparência bem antiga; fileira de arbustos na margem direita de quem olha impede que se aviste completamente esta extremidade da ponte.
No segundo plano, de um lado e de outro do rio, pequenas áreas de pasto verdejante, que terminam em um denso bosque de pinheiros, cortado pelo serpentear das águas. À esquerda, o monturo de algo que sugere brita, a despeito de enfear a fotografia, revela que há atividade humana por perto, que não se trata de simples paisagem isolada do mundo. À direita, junto aos arbustos, uma espécie de porteira feita de madeira, semelhante às que se usam em nosso país, pode confirmar que se trata de zona rural.
Ao fundo, espetacular maciço cujo brilho sugere que seja constituído de rocha. (A mesma cor da montanha pode ser observada nas águas abaixo da ponte, de um profundo e belo cinza-azulado escuro.) O céu está tomado por nuvens baixas que chegam até o sopé da montanha.
Chama a atenção deste observador, desde a primeira mirada, a presença feminina, a quebrar possível sensação de solidão e desamparo diante do pico monumental. Imediatamente me surge a questão: o que pensa aquela mulher? Não haverá certezas nas possíveis respostas, porém me ocorrem hipóteses. (As respostas serão sempre relativas a algo que se passa em mim – sou eu quem pergunta e sou eu quem responde. Nada de delírios.)
Se ela crê, há de admirar a obra do Criador, ou pode estar mesmo fazendo uma oração. Se descrê, há pelo menos de se admirar com a evolução por que passou e ainda passa este planeta Terra, de início apenas uma bola de fogo. Se ama viver, aprecia a paisagem. Se não deseja mais viver, avalia a possibilidade de suicídio ao pular naquelas águas geladas, o que é pouco provável, ou estaria virada para o outro lado da ponte, olhando para o rio que corre. Se gosta de escrever, se é uma escritora, haverá de estar pensando em uma boa história para contar. Pode estar apenas cansada, pensando em nada, na paz do lugar. E muito mais, ou nada disso.
Certeza, apenas que se trata de uma simples fotografia na tela de meu computador.
Foto: Fotógrafo não identificado, imagem publicada no Twitter, postagem de pictures@LoveLiberty_1.
Muito religioso, virou-se para o amigo ateu e desferiu o golpe:
– Quero só ver o susto que você vai levar!
Inicío hoje minha homenagem à Língua Portuguesa, nossa verdadeira pátria. Para tal, escolho o texto que mais me impressiona, já registrado em nosso idioma. Cada um pode escolher seu preferido, bons autores não nos faltam.