sábado, 24 de abril de 2021

De pequenino que se torce o pepino

 

K. nasceu em berço de ouro. Nunca fez refeições em casa, sempre em restaurantes, acompanhado dos pais. Cedo aprendeu a bajular garçons.


sexta-feira, 23 de abril de 2021

Dia Mundial do Livro 2

 

Bernardo Carvalho escreveu hoje (23 abr 2021) para a Folha: “Literatura não é manual nem modelo de comportamento”.

Nabokov observou sobre suas aulas na Universidade Cornell: “Tentei tornar os alunos bons leitores, que leem livros não pelo motivo infantil de se identificar com os personagens, nem pelo propósito adolescente de aprender a viver ou pelo projeto acadêmico de fazer generalizações”. (O grifo é meu.)

            Afirma Carvalho: “Nabokov combatia, já naquela época, uma leitura convencional e conservadora, que hoje se impõe como novidade e às vezes até como revolução. ...a literatura inversamente não pode ser atrelada à simples evocação de uma questão moral. Literatura não é manual nem modelo de comportamento. Ela não tem de seguir diretrizes, requisitos e restrições impostas à liberdade de explorar tudo o que é humano. Literatura não é um problema de caráter.”

Bernardo Carvalho conclui: “Fazer a literatura corresponder à representação de um modelo moral serve de ilusão paliativa, é o correlato natural e desesperado da nossa impotência diante da indecência da realidade, diante do mal. Mas também é desistir da charada que não conseguimos resolver. É jogar a toalha antes mesmo do início da partida.”

            Acrescento eu, despretensiosamente: Literatura é Liberdade.

            (Não posso esconder: tenho batido numa mesma tecla neste blog, a de que em Literatura é preciso cuidar da forma, às vezes mais que do conteúdo. Isso seria uma limitação à liberdade; de fato, não o é. Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, publicado em 1960, é um bom exemplo de que a liberdade de expressão acaba por vencer:  Carolina deixou a forma de lado e fez prevalecer as circunstâncias. Estrondoso sucesso, revivido recentemente com nova edição do livro.)

            Reitero: Literatura é liberdade de pensar, tanto por parte de quem escreve, e mais ainda por parte de quem lê. Mas que o leitor não se iluda: “Literatura não é manual nem modelo de comportamento”, como afirma Carvalho. 

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-carvalho/2021/04/literatura-nao-e-manual-nem-modelo-de-comportamento.shtml

 

Dia Mundial do Livro

 



“Taxar livros é novo obstáculo para reduzir imenso 
e perverso fosso social.”

 

                                                           Galeno Amorim

 

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/04/robin-hood-as-avessas.shtml

 

Paula continua brilhando

A foto do dia 


Paula Vianna, Búzios, RJ

domingo, 18 de abril de 2021

Tragédia de longa duração



 

"Uma única morte é uma tragédia; um milhão de mortes é uma estatística". Assim Hélio Schwartsman inicia sua crônica Vivendo com a tragédia nesse domingo, no Estadão (18 abr 2021).

Segundo ele, a frase teria sido proferida por Stálin, sem que haja comprovação disso. De qualquer modo, o fenômeno existe e é chamado de habituação: “uma forma de aprendizado caracterizada pela diminuição da intensidade com que respondemos a um estímulo à medida que a exposição se repete ou se prolonga”. 

Minha casa fica próxima a uma via de grande movimento, que liga o centro a uma certa periferia de Brasília, de alta densidade populacional e acentuada pobreza socioeconômica. Desde o início desta pandemia, e isso já vai para mais de ano, ouço a macabra sirene das ambulâncias que vão e vêm, buscando pacientes acometidos da Covid-19 e transportando-os para hospitais distribuídos pela cidade, incontáveis vezes ao dia. 

Durante os primeiros meses o som das ambulâncias produzia em mim forte comoção – não exagero –, por duas razões bem claras. A primeira era a dor da tragédia em si, o sofrimento das gentes mais necessitadas expostas à infecção, principalmente no precário transporte coletivo da Capital do país, de que são todos dependentes. Como não aglomerar, se vão trabalhar em ônibus lotados? 

O segundo motivo do abalo emocional era tão evidente e talvez até mais insuportável que o primeiro: a ameaça da morte, de minha própria morte. Aprendi a diferenciar o som das ambulâncias daquele dos carros da polícia; é incrível, mas a sirene da polícia oferecia um certo alívio.

É aí que entra a habituação de que fala Schwartsman: ela permite espécie de adaptação a dura realidade, questão de sobrevivência emocional, um certo tipo de aprendizado, porque a vida segue. Uma reação bastante humana.

Prossegue Schwartsman: “O lado menos brilhante da habituação é que ela normaliza aquilo que, no plano moral, não deveria ser normalizado. É o que está acontecendo agora no Brasil com a epidemia de Covid-19. Estamos há tanto tempo lendo sobre o aumento de mortes e vendo imagens dos congestionamentos de caixões que a carnificina por que estamos passando já não desencadeia em nós a reação adequada, que seria a de exigir dos governantes medidas efetivas e imediatas para minorar a crise.”

É por isso que o brilhante articulista afirma que “No plano valorativo, a habituação é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição.”

      Enquanto isso, as sirenes continuam a soar.


 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2021/04/vivendo-com-a-tragedia.shtml

 

sábado, 17 de abril de 2021

À espera dos bárbaros


 

 

Acaba de estrear na plataforma Mais Apple TV o ótimo filme À Espera dos Bárbaros, adaptação do romance homônimo do Nobel de Literatura J. M. Coetzee (Companhia das Letras, 2006), dirigido pelo colombiano Ciro Guerra.

Um juiz anônimo (Mark Rylance), autoridade única representante de um império não identificado, num povoado localizado em vasto deserto distante, em país desconhecido, vive em completa paz.  A súbita e inesperada visita do sinistro Coronel Joll (Johnny Depp), enviado plenipotenciário do império central colonialista, chega para obter informações sobre uma suposta invasão de inimigos, os povos autóctones – por eles denominados bárbaros.

O coronel pretende descobrir a "verdade", aparentemente oculta pelo pacato juiz, desde logo acusado de conluio com os bárbaros; desde o início da história, fica claro que ele deseja encontrar a verdade que convenha ao império, e a encontra utilizando-se da tortura mais desumana possível. A inesperada violência desconcerta o juiz, homem que vivia ocupado apenas com os achados arqueológicos da região, em particular com tabuinhas cobertas por uma escrita também desconhecida.

O pacato protagonista (cuja interpretação vale o filme), ao não perceber a brutalidade do sistema dominante, busca recuperar o controle do povoado e socorrer aqueles que foram torturados pelo coronel Joll. Ele falha em todas as suas ações, embora siga perguntando “onde está o inimigo”? De tanto procurar, o inimigo acaba aparecendo.

A despeito de tudo que é desconhecido e oculto na realidade apresentada ao expectador, o simbolismo de À espera dos bárbaros é riquíssimo e bastante claro; o filme é uma grande metáfora.

Coetzee é o roteirista que adapta seu próprio livro, empreitada que nem sempre oferece bons resultados, mas que aqui só faz abrilhantar a direção de Ciro Guerra.

À Espera dos Bárbaros nos faz relembrar de maneira inequívoca os malefícios das ideologias totalitárias, quaisquer que sejam suas origens ou tendências. Em outras palavras, para usar bordão atualíssimo, Ditadura Nunca Mais!

       (Inicio hoje mesmo a releitura do romance!)