sexta-feira, 16 de abril de 2021

Mercado velho de Rouen

Meus quadros favoritos 


Camille Pissarro

Ponto e vírgula

 




Ponto e vírgula é legal; não é? Este o título da ótima coluna de Sérgio Rodrigues para a Folha de ontem (14 abr 2021). 

Afirma ele: “O ponto e vírgula (;) é, como se sabe, sujeito singular, apesar do disfarce desse “e” no meio; um sinal de pontuação que vem a ser uma cópula de sinais, ponto em cima, vírgula em baixo; meio a meio, e inteiramente fora de moda. ...Na vida real, o ponto e vírgula que Machado de Assis amava — o que basta, óbvio, para garantir sua imortalidade enquanto o português brasileiro existir — não foi muito bem tratado pelo século 20. O estilo modernista deu início à sua rejeição, identificando-o com afetações bacharelescas; e na segunda metade do século a língua objetiva e direta da imprensa moderna completou o serviço, condenando-o ao relativo ostracismo de hoje.”

Pois eu uso e abuso do ponto e vírgula, é só prestar atenção à maioria dos textos desse blog. Eu adoro! Penso que foi a praga das frases curtas popularizada por Ernest Hemingway que colaborou decisivamente para o sumiço deste sinal; impossível utilizá-lo no estilo literário que denomino escrever aos soluços. Reconheço que a leitura fica mais fácil, mas perde em qualidade literária.

Talvez a perda seja cultural, como assinala Rodrigues; como abr em vez de abraço; bj em vez de beijo; tbm em vez de também; vosmecê nem pensar, agora é vc; a lista é interminável. A implacável lei do menor esforço? Talvez, mas com isso vamos perdendo as verdadeiras palavras. (Fico pensando se quem assim escreve, também pensa assim, abreviadamente. Não me sinto abraçado com um abr.)

Sem falar dos emogis! É polegar para cima, polegar para baixo, cara séria, riso discreto, gargalhada, chororô, mãozinhas batendo palmas. Por que não aplaudir com palavras?! (Quem pensa através dessas figurinhas, pensa de maneira pobre, ou nem pensa.)

Estou por fora, ou fora de moda? Machado de Assis está fora de moda? Temos poucas coisas tão preciosas quanto nossa língua; por quê abrir mão dela em troca de quase nada?

      Rabugices do velho blogueiro?


 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/2021/04/ponto-e-virgula-e-legal-nao-e.shtml

 

quarta-feira, 14 de abril de 2021

O professor

 

Rotina

 

Professor durante 40 anos, aposentou-se. Manteve o hábito de preparar a aula semanal, nunca mais proferida.

 

 

 

Receio

 

Ao reencontrar um ex-aluno, receoso, se perguntava sempre: terá sido reprovado?

 

 

 

Justiça

 

– Oi professor!

– Oi!

– O senhor tinha mesmo que me reprovar. Eu não sabia nada.

 

 

 

Ato falho

 

– Oi professor, o senhor ainda por aqui?!

 

 

 

Esquecimento

 

Com o passar dos anos seus ex-alunos já não o temiam. A reprovação não os ameaçava mais.

 

 

 

Invisível

 

Após muitos anos de aposentadoria, passeava pela Universidade como um fantasma.

 

 

segunda-feira, 12 de abril de 2021

comunhão

 

eu creio

tu não crês

nossos olhos descerram névoas

 

no entanto nos vemos 

com a nitidez dos opostos

ofereço a ti a minha fé

de todo coração

tu me ofereces a tua descrença

com todo sentimento

 

tua descrença me ampara

e torna livre a minha comunhão 

minha fé te acolhe

brando aroma difuso

 

o que nos une é o banho dos pássaros 

                                    [na água da fonte

a banalidade do mundo

a efemeridade dos dias

alguma música

algum verso

não nos ocupamos com certezas

basta-nos habitar o reino das palavras



                          Paulo Sergio Viana

 



Poema publicado originalmente em: 


https://blogdopaulosergioviana.blogspot.com/2021/04/comunhao.html


O sonho de Picasso



 

Aos 75 anos de idade Pablo Picasso teve um sonho. Andava solteiro por aqueles dias, trabalhando em casa, quando a campainha tocou. Foi atender, era Brigite Bardot que viera lhe fazer uma visita. Maravilhado, Picasso convidou-a para entrar e conhecer o ateliê dele.

            Brigite, com seu ar ingênuo de menina, mais linda do que nunca, mais sedutora do que nunca, trajava primaveril vestido rodado, de farto decote a descobrir os fartos seios. Picasso, mais bobo do que nunca.

            De braço dado com Brigite, o artista lhe mostrava embevecido suas criações, esculturas em madeira, em pedra, em argila, uma cabeça de touro feita com um guidão de bicicleta, arte de onde parecia impossível fazer arte, as telas todas, as mulheres todas de uma vida inteira, os desenhos, ah! os desenhos! 

            Picasso parou nos desenhos eróticos, eram cadernos e mais cadernos, folhas soltas de todos os tamanhos, tudo ali, explícito, diante da moça embevecida. Até que, nem tão ingênua assim, ela desconfiou que se tratava de uma cantada, cantada artística! Fechou a cara.

            Picasso percebeu a recusa, procurou remediar lhe ofertando um presente: ali mesmo, num átimo, pegou de um prato, desenhou em azul uma pomba da paz, e Brigite voltou a sorrir. (Freud diria que aquele expediente foi um artifício do inconsciente para que o sonho não terminasse.)

            Ao acordar, antes mesmo do café com brioche, Picasso pintou mais uma mulher. De fartos seios.

Gato preto

 


saiu do bueiro

do outro lado da grade

me olha prisioneiro


Foto: Mercêdes Fabiana, abr 2021

Leitor precavido

Ele sempre comprou mais livros do que era capaz de ler; era criticado por isso. Hoje, isolado, pode usufruir de sua biblioteca.

Aprendizado forçado

 

Era fanático por futebol, dentre outros motivos, porque seu time o ensinava a perder.

domingo, 11 de abril de 2021

sábado, 10 de abril de 2021

Meu Pai

 

 

Posso me lembrar, de pronto, de dois filmes recentes que tratam do tema da demência, de forma a emocionar profundamente àqueles que gostam de cinema: Amor e Para sempre Alice. A eles se soma agora o espetacular The Father (Meu Pai), estrelado por Anthony Hopkins e Olivia Colman. O diretor Florian Zeller é autor da peça de teatro Le Père, que deu origem ao filme; a adaptação é muito bem feita, de modo a explorar os elementos audiovisuais do cinema com maestria.

            Desde as primeiras tomadas no interior de um amplo apartamento o diretor busca desorientar o expectador com uma sequência de cenas nas quais a troca contínua de personagens não faz qualquer sentido para o protagonista – nem para o suposto sadio expectador. Desde logo o brilhante desempenho de Hopkins acentua tal impressão, tamanha a expressividade dos diálogos, quando ele ainda aparenta ser um homem normal, que apenas não sabe o que está acontecendo. Logo em seguida o estado de demência torna-se evidente. A partir daí, não tenho adjetivos para descrever a atuação desse ator. 

            Passados dez ou quinze minutos desde o princípio do filme pude notar em mim profundo desconforto, uma certa aflição, que só o cinema de qualidade pode proporcionar; afora aquilo era meu, e ainda o é no momento em que escrevo esta crônica, independentemente da história.

            Meu Pai fala das relações da pessoa idosa com a família, filhos, da vida cotidiana, quando a velhice é acompanhada da deterioração mental e a percepção do mundo real sofre definitivas transformações. Cenas emocionantes entre pai e filha são valorizadas pelas atuações de Hopkins e Olivia Colman. 

Nas cenas finais, a dor psíquica causado pela doença, a sensação de completo abandono e desamparo, a ponto de Anthony – o protagonista toma emprestado o nome do ator e sua data de nascimento – chamar pela mãe e chorar como um bebê.

Há grande diferença em retratar a demência já instalada, de que trata Meu Pai, e o processo de demenciação, revelado em Amor e Para sempre Alice. No primeiro filme as alucinações, delírios, perda grave da memória, desorientação de tempo e espaço, mudanças bruscas e violentas de humor surgem desde o princípio, sem que se possa fazer qualquer ideia de quem foi aquela pessoa antes da doença. Nos dois outros filmes citados, os pequenos lapsos, os esquecimentos – em especial de nomes próprios, o que pode ser bastante aflitivo –, as alterações inesperadas e desproporcionais de humor, até mesmo a depressão, marcam, como o próprio nome indica, o processo de demenciação. Em ambas as situações, o sofrimento do paciente e de quem está a sua volta é sempre muito grande.

Quando me refiro àquilo que é meu, aos 74 anos de vida, é só meu: esta crônica é uma pálida tentativa de repartir com o eventual leitor o modo como vi The Father. Tenho enorme dificuldade em lembrar nomes próprios; há dois dias coloquei açúcar cristal no saleiro e estraguei a salada de minha mulher; esqueço o gás do fogão aceso após retirar a panela do fogo; ligo a máquina de lavar para adiantar o serviço e me esqueço de estender a roupa para secar; perco o celular pela casa; quando não posso me esquecer de algo, tomo nas mãos um objeto qualquer, para não me deixar esquecer, mas acabo me esquecendo da serventia daquele estranho objeto. Melhor parar por aqui.

O exercício diário de escrever é a tentativa de preservar o que resta de minha mente. Não se trata de tentativa desesperada porque me é fonte de grande prazer.

Vale a pena ver Meu Pai.