quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Ponte de pedra

Fotografia



Tweet de Francisco Ribeiro. Autoria da foto não revelada.

 

A pequena ponte de pedra, no primeiro plano da fotografia, une as duas partes do povoado separadas pelo riacho. Ou se trata de pequena vila ou bairro de uma cidade maior? De onde vem água tão limpa e transparente? Ao fundo, tem-se a impressão que há um grande paredão, parcialmente recoberto por exuberante vegetação, por onde penetram raios de sol. O riacho parece contornar o paredão, serpenteia. Imagino que as casas tenham sido construídas em estreita faixa de terra entre o paredão e a água. Que água é essa? Um grande lago? Braço de mar? O rio do qual o riacho é afluente?  À esquerda, a construção de três andares, parcialmente recoberta pela era, exibe o amarelo das cidades italianas; a ponte se abre em passagem por dentro desse edifício, verdadeira calçada coberta a margear a água. À direita a construção é de pedra, bem antiga; o pequeno lampião, à noite, ilumina a passagem; mais recentemente, o proprietário acrescentou um puxadinho, revestido de cimento, que chama a atenção pelo vermelho da porta rente à ponte; os pintores adoram acrescentar à paisagem o detalhe em vermelho que dá vida ao quadro – o Quarto do artista em Arles, de van Gogh, é exemplo clássico; aplica-se aqui, portanto, a expressão “parece uma pintura”

            Depois de muito observar esta paisagem bateu-me profunda tranquilidade. A curiosidade inicial – onde fica este lugar? – foi substituída pela fantasia: gostaria de morar ali para poder transitar por aquela ponte e, de costas para o paredão, ver onde deságua o riacho. Se encontrasse no caminho, por sobre a ponte, um conhecido, haveríamos de conversar um pouco, falar do tempo, das coisas banais do cotidiano, nada além disso, e cada qual tomaria seu rumo. Caso encontrasse uma linda mulher, a convidaria para uma taça de tinto na adega mais próxima. Divagações.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Há quem prefira urtigas

 



Cada lagarta tem seu gosto;

algumas preferem urtigas.

Provérbio japonês

 

Acima, a epígrafe de Há quem prefira urtigas, de Jun`Ichiro Tanizaki (Companhia das Letras, 2003, tradução de Leiko Gotoda). Assim tem início o romance:

 

“E então? Você vai?”, desde cedo naquela manhã, Misako perguntava ao marido, mas as respostas ora eram evasivas, ora ambíguas. Aliás, ela própria não sabia que atitude tomar e, indecisos, os dois haviam perdido a manhã. Cerca da uma da tarde, Misako tomou banho e aprontou-se para qualquer eventualidade. Em seguida, sentou-se em mudo incentivo perto do marido que, jogado sobre o tatame, ainda lia o jornal; mas nem assim consegui fazê-lo definir-se.

– Que acha de tomar um banho, ao menos? – perguntou.

– Hum...”

 

            A cena se passa no Japão, década de 1920: Misako e Kaname, que já não encontram amor no casamento nem sentem atração física um pelo outro, decidem se separar. Por razões obscuras até mesmo para ambos, não conseguem pôr fim ao próprio casamento. O  autor expõe assim os dilemas da velha tradição japonesa em confronto com a nova geração influenciada pelo ocidente.

O casal estabelece então uma série de regras de comportamento afetivo, na expectativa de que, com o tempo, ocorra a separação definitiva e pouco traumática. Enquanto isso, Kaname visita a prostituta Louise, e Misako pretende refazer a vida ao lado de Aso, seu amante. 

Personagem interessantíssima é o velho pai de Misako, amante do tradicional teatro de bonecos, e que vive com a concubina Ohisa, trinta anos mais jovem. É ele quem revive as os costumes japoneses mais tradicionais, que o autor faz questão de enfatizar em seus livros, de modo a valorizar e até mesmo opor a tradição nipônica aos novos hábitos do ocidente. 

Ao final do romance, o pai de Misako, bem velho, arroga a si o direito de opinar sobre o destino do casal, que não tem alternativa senão ouvi-lo. Fica patente o respeito que aquele povo tinha pelo parente mais velho àquela época.

(Foi inevitável para mim comparar este aspecto com as relações familiares em nosso meio, nos dias de hoje, onde o mais velho não é ouvido; suas opiniões não interessam ao mais jovem; ele já não tem valor como pessoa; o velho precisa lutar, se assim o desejar, para ao menos preservar o respeito dos mais novos. Não li isso em lugar algum; escrevo assim porque tenho experimentado isso.)

Sou fã de Jun`Ichiro Tanizaki que, com seu estilo bem cuidado, me revela um outro tipo de viver, de sentir, de pensar.




 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Primeira providência

Charge do dia 


Montanaro

Mata Atlântica de Sebastião Salgado


 

Fazenda Bulcão no ano 2000, antes do início 

do projeto de restauração

Foto: Sebastião Salgado

 



Fazenda Bulcão, em Aimorés, foto de 2013,

mais de uma década depois de ter início

processo de restauração do ecossistema. 

Foto: Sebastião Salgado

 

 

Entrevista de Sebastião Salgado para Giovana Girardi, para O Estado de S.Paulo (21 fev 2021), revela que ele e sua mulher Lélia Wanick herdaram a fazenda que tinha sido do pai do fotógrafo no fim da década de 1990. “A propriedade, que em seu auge chegara a abrigar 2 mil cabeças de gado, não tinha mais condições para dar suporte nem para 200. A água tinha praticamente desaparecido como resultado da retirada de toda a vegetação nativa de Mata Atlântica.”

“A maior parte da fazenda Bulcão, em Aimorés (na divisa de Minas Gerais com Espírito Santo), foi transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), com o objetivo de restaurar aquele ecossistema, e o casal criou o Instituto Terra, hoje uma das principais iniciativas de restauração da Mata Atlântica no País.” 

O Instituto criou viveiro, plantou mudas e expandiu o plano para a degradada vizinhança no Vale do Rio Doce. “Em mais de 20 anos, 6 milhões de mudas de árvores nativas da Mata Atlântica foram produzidas. Os projetos de recuperação em andamento atingem 2,1 mil hectares e 2 mil nascentes.” 

“Com isso tudo em mente, o Instituto Terra lança nesta segunda, 21, a campanha Refloresta, com música inédita do Gilberto Gil de mesmo nome, com o objetivo de incentivar esse projetos. A campanha aproveita também como mote o fato de que em 2021 começa a chamada Década da Restauração, nomeada pela ONU para promover atividades de restauração de ecossistemas e reflorestamento.”

 

Empolgado com o projeto, Salgado conclui: “Hoje, até onça, que tinha desaparecido da região nos anos 1930, voltou. Os macacos também voltaram. Quando já tínhamos água, pensamos em reintroduzir jacarés. Mas tínhamos uma bióloga grávida que teve um pesadelo de que o jacaré ia comer o bebezinho dela. Falamos para ela ficar tranquila, abandonamos a ideia. Mas passados alguns meses, um dia veio um funcionário correndo mostrar uma foto no celular. Era um jacaré chegando sozinho, todo empoeirado. Veio pela estrada, pelo mato. Algum passarinho, algum inseto contou para ele que ali tinha uma área protegida para ele viver e ele voltou.”

Grande Sebastião Salgado!

 

https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,sebastiao-salgado-lanca-campanha-com-musica-de-gil-por-restauracao-florestal,70003623220

 

Orelha-de-pau




estação das águas
cresce a orelha-de-pau
na úmida mata


Foto: AVianna, fev 2021, matinha.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Por que seguir a Ciência?

 

“Por uma série de problemas, que vão da metodologia à estrutura das carreiras e das publicações, boa parte das conclusões de trabalhos científicos que são feitos atualmente está errada. Nas contas de John Ioannidis (Stanford), a maioria das pesquisas em medicina não merece crédito. Para Jeffrey Leek (Universidade de Washington), os erros alcançam só 14% dos estudos. Os números melhoram na física, mas pioram nas ciências sociais e na psicologia.

Se as coisas são tão precárias, por que seguir a ciência? Creio que a ciência é um pouco como a democracia. É um sistema confuso, cheio de ruídos e distante de qualquer ideal. Ainda assim, é o melhor sistema que temos, se não para encontrar verdades, para produzir conclusões provisórias que dependem mais da realidade do que de nossos desejos. Não é pouco.”

Hélio Schwartsman

 

            A despeito das reais limitações expostas acima por Schwartsman, o método científico traz em si uma grande virtude: ele busca a verdade, encontra o erro, reconhece-o como tal, e torna a buscar a verdade, incansavelmente. Não verificamos tal virtude na Religião, que é feita de dogmas, verdades imutáveis por definição, fonte perene do fundamentalismo tão pernicioso de algumas crenças.

            Não se trata de voltar à velha disputa Religião versus Ciência, que não leva a coisa alguma. Trata-se de reconhecer o real valor da Ciência em tempos de pandemia. Isolamento social, uso de máscaras e vacinação constituem prescrições da Ciência. Por que então não são obedecidas por grande parte da população de nosso país, até mesmo quando a pandemia se agrava? O decantado Leblon ignora a Ciência, de dia na praia, à noite nos bares e boates. Não será por falta de informação, o nível sócio-econômico lá é dos melhores, a maioria é de gente educada; por acaso desprezam a vida? 

            Em Israel, judeus ultraortodoxos teimam em realizar casamentos e funerais com grandes aglomerações. “O que é mais importante?”, indagou Esti Shushan, ativista ultraortodoxa do movimento pelos direitos das mulheres, depois de ver imagens do funeral. “Ir ao funeral e estudar a Torá? Ou continuar vivo?” 

            Entre nós, o que é mais importante, acreditar na Ciência ou aferrar-se à ideologia política de falsos profetas?

            A crônica deste domingo de Hélio Schwartsman para a Folha de S.Paulo, A fé na Ciência, bate na mesma tecla dos últimos meses. Parece que é preciso mesmo repetir repetir repetir.

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2021/02/a-fe-na-ciencia.shtml

 

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,funerais-ultraortodoxos-em-massa-durante-pandemia-alimentam-tensoes-em-israel,70003621806

 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Folha centenária

Mais 47 cenas de um romance familiar



Ofir em Cabo Frio

 

A Folha de S. Paulo completou ontem 100 anos de existência, o que não é pouco num país como o nosso, que não cultiva tradições e padece cronicamente de desvalida economia. Parabéns aos responsáveis pela façanha.

            O que desejo mesmo é contar a história da presença desse objeto – o jornal –, em nossa família. Desde menino pequeno, vivendo no Vale do Paraíba, vejo meu pai cumprir seu ritual diário de ler o jornal. À mesa, ele abria o exemplar de O Estado de S. Paulo e, cuidadosamente, virava página após página, mantendo o caderno impecável alinhado direito, como se não houvesse sido tocado. Finda a leitura, dobrado o jornal, ele podia ser devolvido à banca, como se não fora lido; mas agora era a vez do restante da família. 

            Enquanto morávamos no interior, o Estadão era o preferido do pai, bairrista empedernido. A família se mudou para o Rio de Janeiro; então alegava ele dificuldade para encontrá-lo nas bancas; virou casaca, adotou o Jornal do Brasil, um grande jornal àquela época, meados dos anos 60. Seu Suplemento Literário, com crônicas e poemas de um tal de Carlos Drummond de Andrade, nunca pôde ser suplantado pelas Ilustradas, Ilustríssimas e Cadernos B da vida.

            O ritual persistia e ai daquele que ousasse abrir um caderno que fosse antes do pai; a reação vinha furiosa diante da verdadeira profanação. Nossa mãe, para contrariar (diga-se, o pai contrariava também), lia O Globo, periódico chinfrim à época. (Hoje é jornal de respeito.) Aos domingos, à hora do almoço, a tertúlia de sempre: qual o melhor, o JB ou O Globo?

            Ao chegar em Brasília, nos idos de 73, procurei continuar lendo o JB, o que se mostrou impossível: a cidade era uma província, oferecendo apenas dois jornais locais, ambos sofríveis. Desde então adotei a Folha como preferido, e a leio até hoje, virtualmente durante a semana, no indefectível papel aos sábados e domingos. Nos fins de semana recebo o Estadão, porque não se pode, nem se deve apagar a infância.

Boas companhias

Política sem palavras 


Foto: Reprodução/Instagram

Longe dos homens



 

Um bom título valoriza um filme; é o caso de Longe dos Homens (Loin des hommes), dirigido por David Oelhoffen e estrelado por Viggo Mortensen (Daru) e Reda Kateb (Mohamed), cuja estreia ocorreu em 2014. O filme é inspirado (e não baseado) no conto de Albert Camus intitulado O hóspede, do volume O exílio e o Reino (Record, 1997). (Está no TeleCine.)

            A história se passa na Argélia, ainda colônia francesa, no período que antecedeu a Guerra da Independência, anos 50. Em meio à paisagem seca, desértica, árida ao extremo, localiza-se a escola onde leciona e mora o professor Daru, um prédio baixo, de bom tamanho, no meio do nada. A fotografia é belíssima, apesar do nada. No filme somos logo apresentados à classe: espaçosa sala de aula, carteiras bem postas, o quadro-negro, um grande mapa da África, os pequeninos atentos à fala do afetuoso  professor. (No conto de Camus a presença dos alunos é apenas sugerida.)

            Daru, embora argelino, descende de família espanhola, e por isso é rejeitado tanto pelos franceses quanto pelos colonizados; ele é determinado em seu objetivo:  alfabetizar as crianças daquele ermo. O  trabalho é violentamente interrompido por um certo militar que traz até a escola um árabe como prisioneiro e incumbe o professor de conduzi-lo à cidade mais próxima onde será julgado pelo assassinato de um primo.

            A princípio o professor recusa a estúpida tarefa, discute com o militar, sugere ao prisioneiro que fuja, quando afloram interessantes dilemas éticos e filosóficos entre os personagens. (O conto acaba por aqui.) Daru decide levar o prisioneiro, e a partir de então diretor e roteirista criam narrativa repleta de ação com participação dos rebeldes argelinos, e ao final, do exército francês. Violência, ameaça constante de morte, ética e filosofia estão presentes em todo o transcorrer do drama.

            (Repete-se, às tantas, a velha desculpa para ações criminosas, em especial para os crimes de guerra: “Eu apenas cumpro ordens”, informa o oficial francês.)

Ao final, como que por milagre, Daru e Mohamed são libertos; o professor retorna à escola; o árabe escolhe seu destino. O filme termina com o aviso que aquela será a última aula – a guerra está para começar –, o que enche de lágrimas os olhos das crianças.

            No início do texto informei que Longe dos homens não se baseia no conto de Camus, pois ele se refere apenas aos minutos iniciais do filme, a apresentação da paisagem e dos protagonistas. Mas é extraordinário que um diretor de cinema, provavelmente com a ajuda de um bom roteirista, que ambos possam se inspirar em Camus e elaborar história tão rica em aspectos humanos e históricos, a partir de um conto quase singelo.

Um raro exemplo (ou nem tão raro assim) do cinema que supera a literatura.