domingo, 21 de fevereiro de 2021

Por que seguir a Ciência?

 

“Por uma série de problemas, que vão da metodologia à estrutura das carreiras e das publicações, boa parte das conclusões de trabalhos científicos que são feitos atualmente está errada. Nas contas de John Ioannidis (Stanford), a maioria das pesquisas em medicina não merece crédito. Para Jeffrey Leek (Universidade de Washington), os erros alcançam só 14% dos estudos. Os números melhoram na física, mas pioram nas ciências sociais e na psicologia.

Se as coisas são tão precárias, por que seguir a ciência? Creio que a ciência é um pouco como a democracia. É um sistema confuso, cheio de ruídos e distante de qualquer ideal. Ainda assim, é o melhor sistema que temos, se não para encontrar verdades, para produzir conclusões provisórias que dependem mais da realidade do que de nossos desejos. Não é pouco.”

Hélio Schwartsman

 

            A despeito das reais limitações expostas acima por Schwartsman, o método científico traz em si uma grande virtude: ele busca a verdade, encontra o erro, reconhece-o como tal, e torna a buscar a verdade, incansavelmente. Não verificamos tal virtude na Religião, que é feita de dogmas, verdades imutáveis por definição, fonte perene do fundamentalismo tão pernicioso de algumas crenças.

            Não se trata de voltar à velha disputa Religião versus Ciência, que não leva a coisa alguma. Trata-se de reconhecer o real valor da Ciência em tempos de pandemia. Isolamento social, uso de máscaras e vacinação constituem prescrições da Ciência. Por que então não são obedecidas por grande parte da população de nosso país, até mesmo quando a pandemia se agrava? O decantado Leblon ignora a Ciência, de dia na praia, à noite nos bares e boates. Não será por falta de informação, o nível sócio-econômico lá é dos melhores, a maioria é de gente educada; por acaso desprezam a vida? 

            Em Israel, judeus ultraortodoxos teimam em realizar casamentos e funerais com grandes aglomerações. “O que é mais importante?”, indagou Esti Shushan, ativista ultraortodoxa do movimento pelos direitos das mulheres, depois de ver imagens do funeral. “Ir ao funeral e estudar a Torá? Ou continuar vivo?” 

            Entre nós, o que é mais importante, acreditar na Ciência ou aferrar-se à ideologia política de falsos profetas?

            A crônica deste domingo de Hélio Schwartsman para a Folha de S.Paulo, A fé na Ciência, bate na mesma tecla dos últimos meses. Parece que é preciso mesmo repetir repetir repetir.

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2021/02/a-fe-na-ciencia.shtml

 

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,funerais-ultraortodoxos-em-massa-durante-pandemia-alimentam-tensoes-em-israel,70003621806

 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Folha centenária

Mais 47 cenas de um romance familiar



Ofir em Cabo Frio

 

A Folha de S. Paulo completou ontem 100 anos de existência, o que não é pouco num país como o nosso, que não cultiva tradições e padece cronicamente de desvalida economia. Parabéns aos responsáveis pela façanha.

            O que desejo mesmo é contar a história da presença desse objeto – o jornal –, em nossa família. Desde menino pequeno, vivendo no Vale do Paraíba, vejo meu pai cumprir seu ritual diário de ler o jornal. À mesa, ele abria o exemplar de O Estado de S. Paulo e, cuidadosamente, virava página após página, mantendo o caderno impecável alinhado direito, como se não houvesse sido tocado. Finda a leitura, dobrado o jornal, ele podia ser devolvido à banca, como se não fora lido; mas agora era a vez do restante da família. 

            Enquanto morávamos no interior, o Estadão era o preferido do pai, bairrista empedernido. A família se mudou para o Rio de Janeiro; então alegava ele dificuldade para encontrá-lo nas bancas; virou casaca, adotou o Jornal do Brasil, um grande jornal àquela época, meados dos anos 60. Seu Suplemento Literário, com crônicas e poemas de um tal de Carlos Drummond de Andrade, nunca pôde ser suplantado pelas Ilustradas, Ilustríssimas e Cadernos B da vida.

            O ritual persistia e ai daquele que ousasse abrir um caderno que fosse antes do pai; a reação vinha furiosa diante da verdadeira profanação. Nossa mãe, para contrariar (diga-se, o pai contrariava também), lia O Globo, periódico chinfrim à época. (Hoje é jornal de respeito.) Aos domingos, à hora do almoço, a tertúlia de sempre: qual o melhor, o JB ou O Globo?

            Ao chegar em Brasília, nos idos de 73, procurei continuar lendo o JB, o que se mostrou impossível: a cidade era uma província, oferecendo apenas dois jornais locais, ambos sofríveis. Desde então adotei a Folha como preferido, e a leio até hoje, virtualmente durante a semana, no indefectível papel aos sábados e domingos. Nos fins de semana recebo o Estadão, porque não se pode, nem se deve apagar a infância.

Boas companhias

Política sem palavras 


Foto: Reprodução/Instagram

Longe dos homens



 

Um bom título valoriza um filme; é o caso de Longe dos Homens (Loin des hommes), dirigido por David Oelhoffen e estrelado por Viggo Mortensen (Daru) e Reda Kateb (Mohamed), cuja estreia ocorreu em 2014. O filme é inspirado (e não baseado) no conto de Albert Camus intitulado O hóspede, do volume O exílio e o Reino (Record, 1997). (Está no TeleCine.)

            A história se passa na Argélia, ainda colônia francesa, no período que antecedeu a Guerra da Independência, anos 50. Em meio à paisagem seca, desértica, árida ao extremo, localiza-se a escola onde leciona e mora o professor Daru, um prédio baixo, de bom tamanho, no meio do nada. A fotografia é belíssima, apesar do nada. No filme somos logo apresentados à classe: espaçosa sala de aula, carteiras bem postas, o quadro-negro, um grande mapa da África, os pequeninos atentos à fala do afetuoso  professor. (No conto de Camus a presença dos alunos é apenas sugerida.)

            Daru, embora argelino, descende de família espanhola, e por isso é rejeitado tanto pelos franceses quanto pelos colonizados; ele é determinado em seu objetivo:  alfabetizar as crianças daquele ermo. O  trabalho é violentamente interrompido por um certo militar que traz até a escola um árabe como prisioneiro e incumbe o professor de conduzi-lo à cidade mais próxima onde será julgado pelo assassinato de um primo.

            A princípio o professor recusa a estúpida tarefa, discute com o militar, sugere ao prisioneiro que fuja, quando afloram interessantes dilemas éticos e filosóficos entre os personagens. (O conto acaba por aqui.) Daru decide levar o prisioneiro, e a partir de então diretor e roteirista criam narrativa repleta de ação com participação dos rebeldes argelinos, e ao final, do exército francês. Violência, ameaça constante de morte, ética e filosofia estão presentes em todo o transcorrer do drama.

            (Repete-se, às tantas, a velha desculpa para ações criminosas, em especial para os crimes de guerra: “Eu apenas cumpro ordens”, informa o oficial francês.)

Ao final, como que por milagre, Daru e Mohamed são libertos; o professor retorna à escola; o árabe escolhe seu destino. O filme termina com o aviso que aquela será a última aula – a guerra está para começar –, o que enche de lágrimas os olhos das crianças.

            No início do texto informei que Longe dos homens não se baseia no conto de Camus, pois ele se refere apenas aos minutos iniciais do filme, a apresentação da paisagem e dos protagonistas. Mas é extraordinário que um diretor de cinema, provavelmente com a ajuda de um bom roteirista, que ambos possam se inspirar em Camus e elaborar história tão rica em aspectos humanos e históricos, a partir de um conto quase singelo.

Um raro exemplo (ou nem tão raro assim) do cinema que supera a literatura. 

            

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Des-uso

Charge do dia


 Gomez


Inspirado em um sujeito que esqueci o nome.

Etimologia

 

no suor do rosto

o gosto

do nosso pão diário


sal: salário



                            José Paulo Paes

             In: em tempo escuro, a palavra (a)clara






quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

escoa a vida

 

escoa a vida

me agarro a fiapos

tênues frágeis fios

de esperança

conduzem antes à morte

que à lida

despenco no abismo

habitado por Caos

fundo infindo

por onde escoa a vida

para o mineral

princípio de tudo

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Função do esquecimento


“Os cientistas cognitivos Steven Sloman e Philip Fernbach sustentam que nossos cérebros foram projetados para não guardar detalhes justamente para maximizar a capacidade de fazer generalizações.”

 

O trecho acima está na crônica de ontem (12 fev 2021) de Hélio Schwartsman: O esquecimento como virtude, para a Folha de S. Paulo. 

O ponto de partida para o tema foi a recente decisão do STF em não reconhecer o direito ao esquecimento. Ainda bem que foi assim. Porém, alerta o articulista: “Daí não decorre que o esquecimento não seja, tanto quanto a memória, um ingrediente importante para o bom funcionamento da sociedade e do próprio cérebro humano. A razão pela qual humanos não temos uma memória perfeita não é de bioengenharia. Existe uma síndrome rara, a hipertimesia, que faz com que seus portadores se lembrem de praticamente tudo — algo próximo ao que Jorge Luis Borges descreveu no conto "Funes, o Memorioso".”

            O mais interessante dessa história, e que destaco aqui como epígrafe, é a descoberta de que é preciso haver espaço no cérebro para as abstrações; inundado por fatos, resta ao cérebro apenas lidar com eles, perdendo a capacidade de construir generalizações. Isso me parece uma grande novidade. Costumamos dizer: é preciso haver tempo para pensar. Agora acrescentamos: é preciso haver espaço para pensar.

            (Conheci de perto uma pessoa que exibia memória espantosa. Guardava as placas de carros que via no estacionamento de onde trabalhávamos; cpfs para ele eram fichinha; os registros de prontuários milagrosamente guardados. Ao longo do tempo essa característica se agravou de tal modo que, quando não havia fatos para memorizar, ele os inventava, e a partir de então os tomava por verdade; surgiu daí um mitômano.)

            Schwartsman conclui de modo brilhante: “A vida social também depende de esquecimentos, que às vezes chamamos de perdão.” Sob tal perspectiva, a palavra perdão aparece despida de qualquer conotação religiosa, significando tão somente uma certa função cerebral, a de oferecer espaço para o bom convívio social. 

            Em tempo, é preciso reconhecer a importância da ficção. Borges antecipou isso tudo no espantoso conto citado por Schwartsman! O final de Funes, o memorioso, foi trágico!

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2021/02/o-esquecimento-como-virtude.shtml