Charge do dia
sábado, 5 de dezembro de 2020
sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
O poder dos gráficos
Os gráficos servem para tornar mais clara uma ideia, um conjunto de fatos ou simplesmente uma relação de números, o que de outra forma exigiria muito trabalho do leitor. São empregados rotineiramente nas pesquisas de opinião.
Cuidado, pois também servem para enganar, a menos que analisemos em detalhe cada um deles.
O gráfico que trago aqui, aparentemente construído pela SECOM, é exemplo gritante de embuste! Ele trata do crescimento do PIB no terceiro trimestre do presente ano, da ordem de 7,7%, em comparação com os trimestres anteriores. Vejamos:
Se no trimestre abr-jun o PIB foi negativo 9,6 %, e em seguida foi positivo em 7,7%, ele restou ainda 1,9% negativo; ou seja, a curva deveria estar no vermelho, 1,9% abaixo da linha de base no gráfico.
No canto superior esquerdo da figura em questão lemos a palavra RETOMADA – certamente referente a possível retomada do crescimento econômico –, acompanhada da Bandeira Nacional e de uma seta ascendente. Daí a razão do +7,7% colorido de verde estar bem acima da linha de base no gráfico em questão.
Desconhecimento dos princípios básicos da estatística ou má fé?
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
Borboleta-caixão-de-defunto
Nome Científico: Papilio thoas brasiliensis
Família: Papilionidae
Ordem: Lepidoptera
Nome popular: Borboleta caixão-de-defunto ou Espia só
Alimentação: Alimenta-se do néctar de diferentes flores, como o cambará, o hibisco e outras espécies que exalam algum tipo de perfume.
Reprodução: Os ovos são postos sobre vegetais. Pode ser a capeba, a pariparoba, o cipó-de-cobra ou plantas cítricas. E a razão é simples: em sua fase lagarta, ela alimenta-se das folhas dessas plantas. Na aparência, lembra fezes de pássaros.
Lá, como aqui...
Homem passa por mural que mostra uma enfermeira usando máscara de proteção contra o COVID-19,
com estampa da bandeira do Kosovo, em Pristina.
Olhar Estadão. Foto: Armend Nimani / AFP
O homem não usa máscara!
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
Água funda 2
“– Que é que você tem, Joca?
– Nada.
Vicente Rosa olhou com atenção o rosto sério do amigo.
– O que é?
– Nada. Não é nada. Não tenho nada. Não me atormente.
– Nem pra mim, que sou seu amigo? Com efeito!
Então Joca se abriu:
– Não é nada do que você pensa. O mal que eu sinto está aqui. Aqui e aqui – bateu no peito e na cabeça. E no corpo inteiro, misturado com o sangue. O mal é um desapego. Não posso mais sentir nem pensar. Tudo se desmancha dentro de mim, e eu não sinto; feito mardelazento, que perde os dedos, e está apodrecendo em vida e não sente nada. Aqui dentro, está vendo? Aqui entro. Eu quero sentir tudo o que sentia: raiva, ciúme, desespero, ter vontade de brigar, como antigamente, e não tenho nada. Curiango [apelido da esposa] vai e vem e não me importo. Só às vezes, sou um pouco do que era. Quando estou falando, meu sentido foge. Ela está me chamando, e qualquer dia, vou atrás dela por aí.
– De quem?
– Da Mãe de Ouro.”
O trecho acima é pequena amostra de Água funda, de Ruth Guimarães (Editora 34, 2018), livro lançado em 1946. Era o primeiro livro da autora, então com 26 anos, e fez sucesso, ainda mais com crítica favorável de Antonio Candido, que escreveu no Diário de S. Paulo em 14/11/1946: “Quem começa desta maneira irá, certamente, muito alto na carreira de escritor.” E ela foi mesmo!
Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba, em 1920. Iniciou seus estudos em Cachoeira, prosseguiu em Lorena, Guaratinguetá, São Paulo, onde conheceu e manteve contato com Mario de Andrade, e se formou pela Escola Normal de Guaratinguetá, no Instituto de Educação Conselheiro Rodrigues Alves (onde estudaram meus pais, eu e meu irmão).
Mulher, negra, meio caipira – do que ela se orgulhava –, Ruth escreveu dezenas de livros; escreveu poesia, crônicas, contos, artigos, reportagens, crítica literária, romances. Em 1961 graduou-se em Dramaturgia e Crítica, pela Escola de Arte Dramática, de Alfredo Mesquita.
Morreu em Cachoeira Paulista e, 2014, aos 93 anos de idade.
E Joca acabou indo mesmo atrás da Mãe de Ouro. A descrição do que parece ser um surto psicótico não poderia ser mais precisa. Água funda traz fortes marcas do regionalismo caipira do Vale do Paraíba e sul de Minas Gerais, região onde a letra erre é falada com típico sotaque (póóórrrta, por exemplo), e a letra ele é pronunciada como erre. Maldito fala-se mardito.
Daí ter aparecido no texto acima a palavra “mardelazento”, cujo original é maldelazento (aquele que possui o mal de Lázaro, leproso). Mas não vá meu leitor supor que se trata desses livros regionalistas desagradáveis, de escrita pobre, as palavras todas malescritas, não, Ruth escreve com finesse, caipira erudito por assim dizer. E quem o confirma é Antonio Candido, em prefácio desta nova edição.
Vale a pena ler Água funda! Vale a pena conhecer obra e vida de Ruth Guimarães.
segunda-feira, 30 de novembro de 2020
Trancoso
Trancoso era um homem chucro. Chucro é pouco, era rude bruto burro bravo agreste arisco arrua feroz indócil indomável labrusco montês proceloso sáfaro selvagem beócio besta boçal bronco desalumiado estúpido néscio nulo toupeira e tudo o que de pior haja. Mas tinha um bom coração.
Criança pequena, o pai dele já se admirava, Trancoso pode estar com gripe, tosse, catarrento, febre alta, mas a fome ele não perde, alardeava o pai. Doentinho, mesmo assim batia o pratão que a mãe lhe preparava, sem se importar com o de comer: gostava de um tudo. E muita vez, repetia. Sarava logo, pudera.
Cresceu bruto e se casou com a melhor cozinheira da cidade. Dorinha era boa moça, educada, com algum estudo, arranhava o inglês, e se encantou com a ingenuidade de Trancoso, bondade escondida num vão da alma, que só ela viu, a despeito da rudeza, da brutalidade, da selvageria, e pensou – como pensam muitas mulheres –, que poderia domá-lo.
E domou.
Dorinha domou Trancoso com a ajuda de Veludo, lindo pastor alemão, cachorro inteligente, afetuoso, valente, que se tornou verdadeiro filho para Trancoso. O homem se desmanchava diante do cão, sempre limpo, de banho tomado toda semana, pelo escovado brilhante, às custas da melhor ração para a raça, o peso bem controlado.
Viviam felizes, os três. Trancoso ganhou reputação como mestre de obras, disputadíssimo na região; Dorinha, professora do fundamental em escola particular, respeitada pelos colegas e querida pelos alunos; Veludo, zeloso, tomava conta da casa.
Dorinha pôde observar com o passar dos anos aquilo que o sogro havia profetizado: o marido não perdia a fome por nada desse mundo. Não raro surgia problema com uma obra, ora reclamação do arquiteto ora do proprietário ora do fiscal da Prefeitura, tudo caía nas costas do mestre de obras, que a corda arrebenta sempre... Trancoso embrabecia, rugia por dentro, descontava nos serventes, que a corda... Ao final do dia entrava em casa besta-fera bruto cuspindo fogo, logo apagado por Dorinha, mulher inteligente, sabedora dos humanos sentimentos. Como ela conseguia, um mistério. Na hora do jantar, a comida cheirosa, bonita, gostosa como só Dorinha sabia fazer. Por nada desse mundo, Trancoso nunca perdeu o apetite!
Ele era muito apegado ao pai, que morreu aos 73 anos; Trancoso inconsolável chorava dia e noite, só parava na hora das refeições, e raspava o prato antes de voltar a chorar. Dois anos depois perdeu a mãe e foi a mesma coisa, um chororô sem fim, com intervalos para as refeições. Dorinha intrigada, sem explicação, permanecia em silêncio. Era o jeito dele.
Até que Veludo morreu. Morreu de velho. Aí Trancoso desabou, chorou mesmo de verdade, desesperado de dor funda, dor na alma, insuportável, rasgando tudo, tanto amor que ele tinha pelo animal. Perdera um amigo.
Chegada a hora do almoço, Dorinha botou a comida na mesa, ressabiada fez o prato do marido, arroz, feijão-temperado-com-orelha-de-porco, bife-acebolado, ovo-frito, farofa-de-cebola-queimada, tomate-picado, três-gotas-de-malagueta. Trancoso sentou-se à mesa, bateu o pratão.
A comida de Dorinha havia perdido o gosto.








