terça-feira, 9 de junho de 2020

Oficina do Tobias XII

Folhetim


Décimo segundo encontro


Ricardo, o engenheiro químico que até agora tem participação apagada, inicia o encontro:

Em primeiro lugar, deveríamos perguntar o que é um palavrão. Quem decide o que é ou não é um palavrão? O que será palavrão para um, não será para outro. A definição de taboo word (palavrão, na língua inglesa) no Oxford Advanced Learner’s Dictionary é “a palavra que muitas pessoas consideram ofensiva ou chocante, por exemplo, porque se refere ao sexo, corpo ou raça”.
            Isso sem falar nas mudanças que o significado obsceno das palavras sofre com o passar do tempo. Que diabo! Diabo há alguns séculos era palavra impronunciável. Hoje, nem palavrão é.
Os pesquisadores descobriram que o palavrão nasce em um mundo à parte dentro do cérebro. A linguagem comum fica a cargo da parte mais sofisticada denominada neocórtex; já os palavrões ficam no subterrâneo, no chamado sistema límbico. É também a parte que controla nossas emoções. Trata-se de uma zona primitiva; nosso neocórtex é mais desenvolvido do que o dos demais mamíferos, mas o sistema límbico é bem parecido. Lá reside nossa parte animal, que sai da jaula de vez em quando na forma de palavrões. 
            Essas informações científicas explicam porquê falamos palavrões. De vez em quando eles saem... Porém, escrever um palavrão é outra coisa. Quem escreve pensa, e as palavras não saem, são registradas letra por letra. A responsabilidade de quem escreve portanto é maior, exatamente porque tem tempo para pensar. Isso não que dizer que não possamos escrever um palavrão. Podemos, porém com mais parcimônia do que o dizemos.
            Lembro-me de um texto de José Saramago, nosso Nobel de Literatura, em que ele vinha mostrando toda sua indignação para com uma determinada posição política, num crescendo de raiva, até que subitamente escreve um palavrão, e causa grande impacto no leitor! Portanto, colegas, o problema reside em que momento do texto lançar mão do palavrão. 
            Obrigado pela paciência, termina Ricardo.

            Aplaudidíssimo, merecidamente. E o que vocês acharam da carta lida ontem por João, pergunta Tobias. Clarice logo responde que não gostou. Bem, Professor, ele conseguiu o empréstimo, acrescenta Suzete, para risada geral; com os palavrões parece que João conseguiu dar credibilidade ao seu estado de penúria, com intenso realismo; a grosseria exposta na carta tinha essa finalidade, e comoveu o amigo; eu gostei, conclui a cabeleireira. 
            Tina, a senhora de Guaratinguetá, observa, Conheço bem o escritor e poeta Paulo Viana, que já teve uma bela crônica lida aqui; ele diz com toda a ênfase que “Machado de Assis nunca escreveu um palavrão”, o que penso ser um baita argumento. Thiago contra-ataca, Era um outro tempo, Tina. 
            Sucedem-se as opiniões, uns pró, outros contra. Clara, que pouco tinha falado até agora, cita Marcelo Mirisola, que ganhou notoriedade abusando do uso de palavrões, mas infelizmente nem Tobias havia lido qualquer coisa de Mirisola. Puta que pariu, vocês precisam ler mais, dispara Clara! E, sob gargalhadas, todos concordam que o palavrão agora está bem empregado.
            Tobias resolve dar uma aula, contrariando seus princípios:

O folclorista pernambucano Mário Souto Maior (1920-2001) decidiu percorrer várias regiões do país em busca dos palavrões e o resultado pode ser encontrado na nova edição de "Dicionário do Palavrão e Termos Afins". E mostra o livro!


O dicionário foi publicado originalmente em 1974, com prefácio de Gilberto Freyre, e sofreu censura dos militares. Foi relançado nos anos 80, e a primeira edição esgotou rapidamente. Carlos Drummond de Andrade defendeu o glossário publicamente:
"A carga de tais preconceitos é tamanha que o "Dicionário do Palavrão e Termos Afins", de Souto Maior, levou anos trancado em gavetas de censura, porque certo ministro da Justiça considerava atentatória aos costumes uma obra que tem similares de nível universitário na Alemanha, na França e outros países. Foi necessário que a opinião pública forçasse os governos militares à abertura democrática, embora tímida mas já hoje irrecusável, para que esse livro conquistasse direito de circulação e, portanto, de ser criticado. Seu autor, julgado sumariamente em sigilo de gabinete, seria assim um pornógrafo, quando na realidade se trata de um dos mais qualificados estudiosos da cultura nacional em seu aspecto de criação popular, de riquíssima significação."

            Se tem até dicionário, o palavrão merece nossa consideração, penso eu, e estou em boa companhia, arrematou Tobias.
            Senhores, para amanhã conversaremos sobre Poesia! Tenham uma boa tarde.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Oficina do Tobias XI

Folhetim


Undécimo encontro

Penso eu, talvez ninguém mais pense assim, de modo que os senhores não precisam concordar, mas bem que podiam experimentar: – que escrever cartas é a maneira mais fácil de iniciar na arte da escrita. Assim Tobias dá início ao encontro.
            E prossegue, Escolham um amigo, um parente próximo ou distante, vivo ou morto, namorado ou namorada, um antigo professor por quem nutram alguma admiração ou mesmo ódio, um político para ajustar contas, um antigo colega de turma, um destinatário qualquer. E escrevam: sobre tudo e sobre nada, falem do tempo, da política federal, futebol é ótimo tema para quem gosta, Literatura – assunto infinito –, Cinema – outro assunto infindável –, Arte, Filosofia, Religião, escrevam ao pai como Kafka escreveu, à mãe, aos filhos, escrevam sobre cães e gatos, passarinhos e borboletas, assunto não faltará nunca. Manoel de Barros escreveu: “Qualquer palavra serve para a poesia”; eu escrevo: as palavras servem para ser pronunciadas e para ser escritas, mas estas últimas são as que ficam!
            
Caríssimo Fulano de Tal,

escrevo para saber notícias de você e de sua família...

            Assim comecem, e por aí vão..., arremata Tobias, com esta frase que entra para a história da Oficina! Lembrem-se, a carta não precisa ser necessariamente enviada; guardem-na, entretanto; será sempre possível uma releitura crítica no futuro. Tobias parece empolgado com o tema, deve ser mesmo um missivista contumaz. 
            Helena, pediatra que ainda não havia se manifestado, fala Quando passei no vestibular para Medicina minha mãe me pediu para escrever uma carta à minha primeira professora do ensino fundamental, D. Dulce, e gostei da ideia, assim o fiz, para exprimir minha gratidão. Essas coisas a gente aprende, não nasce sabendo, como sentir gratidão, empatia, e escrever aquela carta me ajudou a registrar em minha mente tal sentimento. (Foi aplaudida, não preciso dizer.)
            Vou lhes confessar, disse João à queima-roupa, o carioca estudante de Farmácia, certa feita me encontrava numa pindaíba desgraçada, na dureza geral, sem um puto no bolso, então resolvi escrever a um amigo, solicitando algum. Colei no envelope um selo usado e enfiei debaixo da porta do apartamento dele, em Copacabana. Diz a carta – João tirou ensebada folha de papel do bolso do paletó e leu:

“Alfredo, queridíssimo e saudoso amigo,

espero que esta lhe encontre em ótimo estado de saúde, em plenas condições mentais e financeiras, para suportar o baque das notícias que infelizmente passo a relatar. Alfredo, estou na penúria absoluta. Não como há 2 dias. Tenho passado a pão e água. Visto farrapos sujos, pois não posso pagar uma lavanderia. Tenho o cabelo desgrenhado pois não posso pagar o barbeiro, que não me corta fiado. Alfredo, estou fodido. Puta que pariu Alfredo!, eu não merecia isso. Mas sejamos objetivos: preciso de 10 mil no momento, o que me aliviaria deveras. Você é minha última esperança, Alfredo. Trata-se de um empréstimo, que saldarei logo que minha condição financeira permitir.
Contando com sua compreensão, do amigo de sempre e de todas as horas, 
                        João Aquino da Cruz e Sousa.”

            Vocês não vão acreditar, meus colegas! Alfredo me emprestou os 10 pilas! Readquiri minha dignidade, comprei um terno novo, tinindo, me aprumei, minha situação financeira e social melhorou muito. Sabem como? Casamento de conveniência, encontrei viúva podre de rica. Só assim pude pagar a matrícula dessa porra de oficina. É que, para disfarçar, que agora sou homem de respeito, arranjei emprego num jornal, para escrever obituários, por isso estou aqui. Larguei a Farmácia, agora sou jornalista. E vão me desculpando os palavrões. Ah!, saldei a dívida com meu amigo Alfredo.
            O grupo permanece em assombrado silêncio, sem saber o que pensar. Ana Paula não se aguenta, Isso tudo é verdade mesmo ou você está dando uma de Suzete? Verdade verdadeira, assente João, rindo, sem um pingo de vergonha na cara.
            (Nelson Rodrigues afirma que todo canalha é magro; João é magro..., pensa Tobias e guarda para si tais elucubrações, que não está ali para julgar ninguém.) 
            Tobias não perde a pose, Vejam os senhores como é fundamental saber redigir uma carta, pode mudar a vida de vocês, o que não é pouco, ironiza. E diante desta inesperada oportunidade, só me resta anunciar o tema de amanhã: o uso e abuso do palavrão.
            Tenham uma boa tarde, senhores.
            
            

sábado, 6 de junho de 2020

Oficina do Tobias X

Folhetim


Décimo encontro

Apresento minha pequena crônica, contando com a boa vontade de vocês e do Professor, naturalmente, afirma Josíres, revelando intenso nervosismo. Então lê:

“Deu no jornal ontem: turista italiano de 70 anos sofre parada cardíaca e desaba enquanto contempla O Nascimento de Vênus na Galeria degli Uffizi, em Florença! Aventou-se logo o diagnóstico de síndrome de Stendhal, uma espécie overdose de beleza, de intoxicação pela Arte. 
Stendhal, em 1817, apresentou sintomas de profundo mal-estar, ao entrar na Basílica da Santa Cruz, em Florença, afetado por tamanho esplendor. “Tinha alcançado esse nível de emoção em que as emoções celestiais das artes e os sentimentos apaixonados se encontram. Senti palpitações no coração, caminhava temendo cair”, escreveu.  
            Notícia interessante, porque também eu experimentei fortíssima emoção ao ver pela primeira vez o David, de Michelangelo, na Academia de Belas Artes de Florença. Logo ao primeiro olhar, estupefato, os olhos encheram de lágrimas. Desajeitadamente procurei fotografar a escultura, não consegui manobrar a câmera que quase despencou de minhas mãos. O coração aos pulos, a me sair pela boca. Mais lágrimas, desisti de fotografar, a respiração acelerada. Até que aos poucos – não posso afirmar quanto tempo aquela agitação interior durou – fui me acalmando, sequei os olhos, respirei fundo, e agora, com tranquilidade, pude ver. 
            Penso que a Capela Sistina, no Vaticano, e o David, de Michelangelo sejam as duas maiores expressões artísticas já criadas pelo ser humano. Devo acrescentar a Nona Sinfonia de Beethoven? E as Suítes para Violoncelo de Bach?”

            Agora não foram palmas, foi uma verdadeira ovação, com Hip! Urras! e tudo, mais um pouco Josíres teria sido carregado nos braços da plateia. Tobias também aplaude, e em seguida lê crônica que reputa exemplar, de autoria de um amigo dele, poeta e escritor, de nome Paulo S. Viana, intitulada Alento:
            

“Não falta violência, crueldade e grosseria no noticiário diário. Assim é o mundo, diz o conformado leitor.
No entanto, de tempos em tempos, surgem nas páginas dos jornais ilhas de alento. Tal foi a bela notícia sobre o resgate de Ramba, a elefanta. Por iniciativa de gente boa, e após burocráticos entendimentos entre os respectivos governos, viajou de avião por 3 horas, de Santiago do Chile  a Viracopos, em Campinas,  o bichão de 3,6 toneladas, dentro de uma caixa de 5 metros de altura, 3 de comprimento, 2 de largura e 5 toneladas de peso. Com toda a delicadeza, permitiram que Ramba, durante 40 dias, se acostumasse à estreiteza do transporte. Nem foi necessário sedá-la. Um veterinário a acompanhou e um caminhão a levou até o Santuário dos Elefantes Brasil, em Mato Grosso, escoltado pela Polícia Rodoviária. Todo o transporte custou 600.000 reais, obtidos por doações. Não é bonito?
Ramba, de 53 anos, é uma idosa com marcas de maus tratos, em circo: cicatrizes de correntes e doença renal. O que não a impede de ser mansa e afável. Agora poderá viver nos extensos campos que merece, na companhia de alguns outros da sua espécie, bem longe de humanos. 
Um amigo amargurado comentou: há muita criança passando fome no mundo. É verdade. 
Mas eu não consigo deixar de me emocionar com o resgate de Ramba.”

            O grupo, admirado com a refinada escrita do autor, torna a aplaudir. Ana Paula, verdadeiro espírito de porco, muxoxa entredentes, Gostei mais da crônica do Josíres, o que provoca pela primeira vez na oficina ruidosa e interminável vaia, a exigir de Tobias reprimenda a todo o grupo, Aqui há liberdade de expressão, todos têm o direito de manifestar seus pontos de vista e os demais devem ouvir com respeito, ao que Moisés (não o amigo do Tobias, Rei do Microconto, mas um membro do grupo que ainda não havia se manifestado, estudante de Filosofia na USP) replica, Professor, vaia é também forma de expressão... A verdade é que ninguém aguenta mais a tal de Ana Paula.
            Troquem seus textos entre si e me tragam amanhã com a devida crítica, por escrito, pede Tobias, satisfeito com o encontro.
            Para amanhã o tema é a Carta. Escolham um colega do grupo para lhe escrever uma carta.
Senhores, tenham uma boa tarde. 
(Josíres, encantado com o sucesso de seu texto, convida a todos para o almoço, Mas cada um paga o seu, tá!, meus amores! Ana Paula não foi.)




            

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Oficina do Tobias IX

Folhetim


Nono encontro


Para surpresa geral, é Suzete quem inicia o nono encontro da oficina com verdadeira aula sobre o haicai! 

“Duas exigências faziam parte da construção do haicai original, nascido no Japão: a natureza como tema e a ausência de rima. As variações quanto ao número de versos e sílabas foram constantes ao longo dos séculos – o waka, com versos de 5 e 7 sílabas, surgiu no século VII d.C., até que se chegou à clássica estrutura de 5 - 7 - 5 versos.
            Exemplo do haicai clássico do mestre Basho:

velho lago
mergulha a rã
fragor d’água

            Nos anos 40, no Brasil, Guilherme de Almeida introduziu engenhosa organização no haicai através da rima entre o primeiro e terceiro versos, além de uma rima interna no segundo verso, entre a segunda e sétima sílabas. O seguinte esquema torna mais fácil a compreensão desta estrutura:

_ _ _ _ x
_ y _ _ _ _ y
_ _ _ _ x
            
            Eis um belo haicai do poeta paulista (Campinas -1890, São Paulo - 1969):

O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.

            A partir de 1980 o haicai ganha reputação de poesia séria, influenciada ainda pelos modernistas, com enorme contribuição de Paulo Leminski (Curitiba, 1944 - Curitiba, 1989). A forma já não importa tanto, perde-se a rigidez, a natureza não se constitui no único tema, a banalidade do cotidiano entra no haicai, embora os três versos estejam presentes na maioria deles. A rima, quando existente, em geral permanece entre o primeiro e terceiro versos. Haicai de Leminski:

verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida

            Forma e rima variam tremendamente nos haicais de Carlos Drummond de Andrade (Itabira, 1902 - Rio, 1987):

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

            Poucos autores, nos dias de hoje, têm se dedicado com tanto afinco à difusão do  haicai quanto a curitibana Alice Ruiz (1946). Também ela não abandona completamente a rima:

nesse país em greve
só o relógio
faz o que deve

Termino por aqui. Obrigada.”

Nem é preciso dizer que Suzete é aplaudidíssima. Que aula! Que didática! A palavra franqueada, Ana Paula, direta, em tom agressivo, pergunta qual a importância de se discutir o Haicai na oficina, Desenvolver a sensibilidade, responde Tobias, curto e grosso, e encerra o assunto. (Também é aplaudido; parece que o grupo decide mesmo usar as palmas para manifestar com frequência suas preferências.)
Tina, moradora de bela chácara, arrisca seu haicai:

jabuticabeira
flores e abelhas
vida no jardim

            
            João, 23, estudante de Farmácia no Rio de Janeiro, que ainda não havia aparecido, mostra seu poema:

alheias à vida
borboletas no jardim
novocolorido

            Sucedem-se as apresentações, quase todos ávidos por mostrar seus poemas, desinibidos, alegres, fazem e recebem as críticas com entusiasmo. Tobias, também satisfeito, encerra o encontro anunciando o tema do dia seguinte: a Crônica.

Sempre Machado




Nova tradução de Machado de Assis nos Estados Unidos esgota em um dia, esta a manchete de ontem (3.jun.2020) assinada por Maurício Meireles para a Folha de S. Paulo.

 “A nova tradução em inglês de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, publicada nos Estados Unidos nesta terça (2), pelo selo Penguin Classics, esgotou em um dia. Assinada por Flora Thomson-DeVeaux, a versão tem prefácio do escritor americano David Eggers —o texto que acompanha a edição foi publicado nesta quarta (3) no site da revista The New Yorker, o que pode ter contribuído para as vendas. (Interessantíssiomo o artigo!)
No texto, Eggers diz ser um dos livros "mais espirituosos já escritos" e que quase não foi lido por falantes da língua inglesa no século 21. Vale lembrar que, entre os fãs de Machado no exterior, estão nomes como Woody Allen, Susan Sontag e Philip Roth.”



George Floyd

Frase do dia


“Que o gelado, espantoso assassinato de George Floyd, um acontecimento que degrada toda a humanidade simplesmente por ter acontecido, nos ajude a abrir os olhos.”

                                   Sérgio Rodrigues



quarta-feira, 3 de junho de 2020

Oficina do Tobias VIII

Folhetim


Oitavo encontro


Homem, 32, desempregado, joga videogame numa lan house, sem parar nem para comer. Após 3 dias é encontrado morto, debruçado sobre o teclado. 
            
De onde se conclui que não se deve passar muitas horas em frente ao computador, isso pode ser mortal. Daí a relevância do microconto: rápido, rasteiro, no canto em que o goleiro não está, e zapt! a história está contada!
Afinal, o que é um microconto? Alguns o chamam de miniconto, ou até de nanoconto; não há uniformidade de regras, a não ser aquela imposta pelo Twitter, que o limita a 140 toques. Quando surgem concursos de melhores microcontos, os organizadores estabelecem as regras, limitando o número de toques, letras ou palavras.  O que não faz diferença alguma, pois os teóricos (ainda) não o reconhecem como gênero literário. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, nem mesmo registra o vocábulo microconto.
Os aficionados não cansam de enaltecer o que chamam de o mais famoso microconto do mundo, de autoria de Augusto Monterroso:

“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”

Tão surpreendente quanto este “dinossauro”, ou ainda melhor, é o microconto de Manoel de Barros; reconheço que sou o primeiro e único a classificá-lo como tal, pois faz parte de livro de poemas (Poesia completa, Leya, 2010, p. 222), e não de contos:

“Ovo de lobisomem não tem gema.”

            Através destes dois exemplos – ainda em busca de uma definição –, podemos concluir que o microconto, muito mais que contar uma história, ele sugere uma história, e deixa que o leitor a complete.
            Franz Kafka escreveu em seu diário, em 6 de dezembro de 1922, o microconto perfeito:

"Duas crianças, sozinhas no apartamento,
entraram numa grande mala, 
a tampa fechou-se, não a conseguiram abrir
e morreram asfixiadas."

            Mais uma definição de microconto: a arte de cortar palavras. O exercício propicia o desenvolvimento da concisão. Nossos políticos bem que poderiam cultivá-lo, como antídoto para a prolixidade que os caracteriza. Filósofos e psicanalistas lacanianos também.

***
            
O texto acima foi distribuído aos participantes da oficina por Tobias. Pediu que o lessem com calma, em casa, e pensassem sobre o assunto. Em seguida, passou a ouvir a produção do grupo. 
Thiago, fisioterapeuta, surpreende a todos, provoca risos e deixa Tobias intrigado:

“Matriculou-se na oficina literária para se tornar um escritor. Virou crítico literário.”

            Onde aprendeu a escrever microcontos, Thiago, pergunta Lúcia perplexa, 20 anos, estudante de Letras, pois ela mesma sentiu enorme dificuldade para criar algum. Tem gente que nasce sabendo, sapecou Tobias, tenho uma amigo de nome Moisés, médico, que é especialista em doença dos olhos e microcontos. Desde a primeira vez que lhe sugeri escrever microcontos, a produção dele foi espantosa. Cito aqui apenas um exemplo:

“Estamos sós

Justamente agora que as câmeras estão por toda parte, os discos voadores resolveram abandonar a Terra.”

Espocaram aplausos em homenagem ao Moisés! Sucedem-se as apresentações, algumas boas, outras nem tanto, Tobias certo de que eles pegaram o espírito da coisa. E encara o grupo com uma boa frase,  É preciso ter amor às palavras.
Senhores, para amanhã estudem Haicais, tragam seus próprios haicais. Boa tarde a todos.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Oficina do Tobias VII

Folhetim

Sétimo encontro


Alcides, médico nos seus 50 anos, residente em São Paulo, afirma: Escrevo para esquecer. 

“Vida de médico nesta cidade me massacra. Então arranjo tempinho, tarde da noite, para escrever e entrar em outro mundo, quando experimento o fluxo de pensamento sem saber onde meu texto vai parar, especialmente quando reconheço minha própria dor, e só de reconhecê-la ajuda muito, me interessa pensar minha dor e perceber que não morro por isso, essa dor não me mata, e posso continuar pensando e se pudesse exprimir com arte o que penso poderia me tornar um escritor, aí reside o pulo do gato, escrever com arte, então meu lema anterior cai por terra (escrever para esquecer), melhor ESCREVER PARA CRESCER, para expandir minha capacidade de pensar, pensar criativamente, tudo muito bonito no papel, porém se o tolerante leitor puder reconhecer o tanto de ficção que existe no meu texto há de intuir a loucura que é a vida de médico numa cidade como esta, uma pessoa atormentada capaz de suicidar-se ou cometer um crime de sangue, um assassinato seguido de esquartejamento, os pedaços enfiados em duas malas grandes, quem sabe surge um conto policial onde o médico está acima de qualquer suspeita e o porteiro do edifício está enrascado, coitado, até que surge a bela detetive de longas pernas de nome Moema, olhos verdes, belos seios, começa a me fazer perguntas retas, ofereço respostas tortas, mulher desconfiada, esse batom vermelho na boca carnuda a me intimidar, até que ela descobre que tudo não passa de delírio meu, as malas estão vazias, convido-a para tomar um drinque que essa vida de médico na Capital eu não aguento mais, e ela aceita.”

            Alcides traz o texto impresso, submete-o à apreciação do grupo. A discussão transcorre animada, alguns gostam, outros nem tanto, Vale como exercício, dizem muitos. Tobias feliz com o andamento da oficina. Ele não pretende que alguém se torne um escritor. Não é assim que se faz um escritor. Ele deseja que todos escrevam, Escrever faz bem à saúde, ele gosta de dizer. 
            Tobias confessa a si mesmo que não para de pensar nas palavras de Moema – Se escrever vou me revelar. Pensa consigo mesmo que Alcides, como talvez quase toda a turma, ainda pense nas palavras de Moema. Tanto que ela acaba entrando na escrita de Alcides, na figura de sedutora detetive. Dá o que pensar. Agora é ela quem vai decifrar o delírio de Alcides! Alcides se revela.
            A história mexe com a cabeça do grupo. Instiga. Provoca. Excita. A discussão torna-se ainda mais animada. Gente que ainda não havia se manifestado, Clara, Solange, Tomás, agora todos falam ao mesmo tempo, entusiasmados com o reaparecimento da detetive Moema! Isso dá uma ótima história, afirma Fernando, jornalista responsável pela sessão de crimes – ou de sangue – em jornal sensacionalista.
              Desejo destacar apenas um aspecto interessante: Alcides mudou de “lema” durante a própria escrita, passou de escrever para esquecer a escrever para crescer. Ele teve um insight ao escrever. Chamo isso de escrita terapêutica.             
               Ao meio-dia Tobias encerra os trabalhos, Para amanhã, tragam microcontos, com até 140 toques. Estudem o assunto.
            Senhores, tenham uma boa tarde.

Posando para fotografia

Meus quadros preferidos


Alfredo Vieira


"Nasci em Belo Horizonte e desde criança praticava desenho e pintura motivado pelo meu pai, o também artista plástico Afrânio. Aos 10 anos de idade recebi a licença para expor meus trabalhos na feira de arte de BH e após 32 anos de muito sucesso e reconhecimento do público, resolvi deixar a feira para alçar vôos mais altos. Leciono pintura em tela desde 2000 e, em 2002, vivi na Itália onde apresentei minha arte com bastante sucesso e também aperfeiçoei minha técnica."

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Ovo da serpente


“GUARDADAS as devidas proporções, O “OVO DA SERPENTE”, à semelhança do que ocorreu na República de Weimar (1919-1933), PARECE estar prestes a eclodir NO BRASIL!
É PRECISO RESISTIR À DESTRUIÇÃO DA ORDEM DEMOCRÁTICA, PARA EVITAR O QUE OCORREU NA REPÚBLICA DE WEIMAR QUANDO HITLER, após eleito por voto popular e posteriormente nomeado pelo Presidente Paul von Hindenburg, em 30/01/1933, COMO CHANCELER (Primeiro Ministro) DA ALEMANHA (“REICHSKANZLER”), NÃO HESITOU EM ROMPER E EM NULIFICAR A PROGRESSISTA, DEMOCRÁTICA E INOVADORA CONSTITUIÇÃO DE WEIMAR, de 11/08/191, impondo ao País um sistema totalitário de poder viabilizado pela edição, em março de 1933, da LEI (nazista) DE CONCESSÃO DE PLENOS PODERES (ou LEI HABILITANTE) que lhe permitiu legislar SEM a intervenção do Parlamento germânico!!!! “INTERVENÇÃO MILITAR”, como pretendida por bolsonaristas e outras lideranças autocráticas que desprezam a liberdade e odeiam a democracia, NADA MAIS SIGNIFICA, na NOVILÍNGUA bolsonarista, SENÃO A INSTAURAÇÃO, no Brasil, DE UMA DESPREZÍVEL E ABJETA DITADURA MILITAR!!!!”

                                                    Celso de Mello, Ministro do STF