terça-feira, 5 de maio de 2020

Morre Aldir Blanc




O escritor, compositor e músico Aldir Blanc, 
em uma livraria da Tijuca, Rio, em 2006. 
Alaor Filho / AE



Charge de Kleber Sales
Correio Braziliense de hoje

domingo, 3 de maio de 2020

Estorvo


“É noite e faz um calor abafado. A mala até que está leve, mas carregá-la é incômodo, chama a atenção. Paro no meio-fio e faço de conta que espero um taxi. Um taxi freia e eu saio andando com a mala, fingindo conferir a numeração dos edifícios. Dobro a esquina e tomo uma rua sem movimento; talvez um assaltante me livre da mala. Com o sono em dia e de banho tomado, poderia andar por aí até amanhã, sem compromisso. Mas um homem sem compromisso, com uma mala na mão, está comprometido com o destino da mala. Ela me obriga a andar torto e depressa. Quando dou por mim, estou ao pé das ladeiras que levam à casa da minha irmã. Parece que era esse o caminho arrevesado que eu faria se fosse cego. E estas são as ladeiras íngremes que subo como água ladeira abaixo.”

            O trecho acima foi extraído do livro Estorvo, de Chico Buarque de Hollanda, Companhia da Letras, 1991. Li o livro há 30 anos e nunca me esqueci deste relato, um homem perdido na noite quente, carregando um estorvo de mala.
            Bem que podia fazer parte de antologia escolar, exemplo de ótima literatura, em meu modo de ver. Posso pensar em várias analogias com respeito à nossa vida cotidiana.

            É noite e eu sonho.
            Carrego comigo coisas incômodas, bobas até, mas que me dão trabalho para carregar.
            Preciso fingir que está tudo bem, mas alguém pode descobrir meu incômodo.
            Quem sabe alguém me livra desse peso?
            Com disposição física posso carregá-lo por muito tempo, tudo bem!
            Mas fiz um pacto com este incômodo e ele me obriga a fazer coisas que não desejo, como andar torto e depressa.
            De repente, me vem a imagem de minha mãe, e o caminho torto que tenho percorrido, inconscientemente, me leva à minha infância.
            O sofrimento das pequenas coisas que carregamos por ladeiras íngremes durante toda a vida, como uma mala vazia.

            Não foi à toa que o texto permaneceu vivo em minha memória depois de 30 anos. Só agora posso enfrentá-lo.





sábado, 2 de maio de 2020

O jornalista Ramos


Diante do rumoroso sucesso da crônica E daí?, do jornalista Ramos, publicada no Diário de Notícias da cidade de F., penso que Francisco de Oliveira Ramos, ou apenas Ramos, merece ser apresentado aos leitores deste blog.
            E merece apresentação por duplo motivo. Primeiro porque se trata de pessoa interessante, solteirão bem conservado em seus 50, homem culto, amante da literatura e das artes em geral, casmurro na maior parte dos dias, revelando às vezes certa instabilidade emocional, sujeito a pequenos surtos, como todos nós, o que explica a explosiva paródia da citada crônica. O que não empalha o brilho de suas contribuições para o jornal.
            Ramos vive modestamente, com minguado salário do Diário; às vezes publica em uma ou outra revista de variedades, o que lhe rende dinheirinho extra, reservado para viagens de trabalho – ele gosta do jornalismo investigativo, fã incondicional de Truman Capote, daí o toque literário de seus textos. Mora numa casa modesta, em pequena chácara na periferia de F., em companhia de seus cães, onde cultiva hortaliças, colhe algumas frutas, desfruta do silêncio necessário para ouvir boa música, ler seus autores prediletos.
            O segundo motivo para apresentá-lo aqui é mesmo surpreendente! São “as voltas que o mundo dão”, bem o disse Guimarães Rosa. Coisas da vida, de um vida sobre a qual não exercemos qualquer controle, a nossa nem a dos outros, todos personagens de um romance sem pé nem cabeça, escrito no livro non sense da vida cotidiana, a ponto de gente sabida como Jorge Luis Borges afirmar que realidade e ficção são a mesma coisa.
            Ramos foi cortar o cabelo e conheceu Suzete!
            Suzete mudou-se para F. há dois anos e meio, onde abriu salão de beleza com secção de cabeleireiro para homens e mulheres, maquiagem, manicure e pedicure – só para mulheres, que os homens de F. não fazem as unhas –, massagem, drenagem linfática, coisa fina, empreendimento de alta rentabilidade a serviço da fina flor da sociedade de F..
            Quando Ramos entrou no amplo salão e pediu para cortar o cabelo, foi Suzete quem se apresentou, ela que adora cortar cabelo de homem. Instalado em confortável cadeira, nem bem iniciou o corte, Ramos notou junto a pentes, escovas, pinceis e outros petrechos da cabeleireira, volumoso livro cujo título não conseguia ler. Desculpe perguntar, que livro é este sobre a mesa, é você quem está lendo, Quem mais poderia ser, por acaso uma cabeleireira não pode gostar de ler, Claro que pode, me desculpe o jeito de perguntar, Está desculpado, reconheço que não é mesmo comum, E o tijolo afinal, o que é, As irmãs Makioka, de Jun’Ichiro Tanizaki, e Ramos, perplexo, disparou De onde você desenterrou isso, ouvindo em seguida sonora gargalhada de Suzete, que aproveitou para esnobar o jornalista, É autor japonês de renome, já li três livros dele, o senhor não conhece, tudo indicações que encontro no blog Louco por Cachorros, não vá me dizer que o senhor também não conhece o blog, ah! e também gosto de escrever, está vendo aquele caderno ali, tem crônicas, contos, até um poeminha eu arrisco de vez em quando.
Ramos, atônito, não sabia o que pensar diante da fala articulada, culta, de senso crítico apurado da cabeleireira (passou-lhe uma sombra pela cabeça, pois pensou mesmo foi... de uma simples cabeleireira). Ele não conhecia o livro nem o autor, muito menos o blog de nome esquisito, Louco por cachorros? Que diabo era aquilo? Haveria de pesquisar, poderia até dar um bom artigo para o jornal. Cabeleireira que gosta de ler e escrever? Se bobear, vai parar no Fantástico!
Findo o serviço, Suzete espanou alguns fios de cabelo que porventura houvessem caído na camisa do cliente, recebeu o pagamento e os agradecimentos devidos, Meu nome é Ramos, sou jornalista, muito prazer, Eu me chamo Suzete, volte sempre.
          Ao deixar o salão Ramos murmurou consigo mesmo, Como sou preconceituoso! Quinze dias depois lá estava ele de volta ao salão, apenas para aparar o cabelo sobre as orelhas...

quinta-feira, 30 de abril de 2020

E daí


Ramos precisa entregar a crônica semanal ao Diário de Notícias de sua cidade, passam os dias e ele se sentindo completamente estéril, incapaz de juntar A com B, atordoado com os últimos acontecimentos da política nacional, parece o boxeador que leva potente direito em pleno frontal e bambeia, vacila, troca as pernas e cai, é lona é lona é lona, o juiz inicia a contagem regressiva, Ramos tira forças sabe lá de onde e se mantém de pé, porém uma única expressão martela sua mente, persistente, teimosa, impedindo qualquer outra ideia porque só lhe vêm duas palavrinhas aparentemente inocentes, bobas, pueris mesmo, mas que martelam sem cessar – e daí e daí e daí e daí edaí edaí edaíedaíedaíedaíedaíaíaíaíííííííí...  Estarei enlouquecendo? pensou o jornalista.
            Ramos matuta sobre o significado da expressão e daí e a primeira dúvida que surge é se se trata de interrogação ou de interjeição. Lembra-se então de certa canção interpretada pela grande Maysa, autoria de Miguel Gustavo, justamente com o título E Daí? que diz:

Proibiram que eu te amasse
Proibiram que eu te visse
Proibiram que eu saísse
E perguntasse a alguém por ti

Proíbam muito mais
Preguem avisos, fechem portas
Ponham guizos
Nosso amor perguntará:
E dai? E daí?

            Na melancolia dessa letra Ramos encontra algum alívio para sua obsessão e ele mesmo passa a se perguntar, e daí? Não entrego a merda dessa crônica para o jornal e está acabado. E daí?
            A consciência pesa, ele nunca havia descumprido o compromisso nos 27 anos que trabalha para o Diário, respeitadíssimo pelo Editor Chefe e pelos colegas, apreciado pelos assíduos leitores de suas crônicas, ele não pode faltar com o compromisso, é homem de palavra, nunca assinou um cheque sem fundos, como jornalista podia não dizer toda a verdade mas mentir nunca mentia... e daí? Preciso escrever a porra dessa crônica.
            Ramos decide-se então pela paródia, inspirado em Miguel Gustavo:

Proíbam tudo
fechem ruas e pontes
soem alarmes
tranquem as portas
não saiam de casa
o vírus está solto
cuidado com o maligno 
ele mata de todas as formas
pneumonia infarto trombose
mata crianças jovens adultos velhos
principalmente velhos
quem tiver mais de 80 já está morto
não cheguem perto dos velhos
protejam seus avós
tranquem os netinhos
nada de abraços e beijinhos
daqui pra frente é tudo virtual
mesmo assim morre gente
morre gente
morre gente
morre gente
os cemitérios lotados
caixões empilhados
empilhados
empilhados
empilhados
morte solidão
morte indigna 
sobre-humano sofrimento
horror horror horror
e diante da tragédia
alguém pergunta
alguém exclama
– e daí?!

            O jornal publica o texto no alto da primeira página e Ramos é carregado nos ombros da multidão que se aglomera em frente à Redação. E daí.



Em tempo, Ramos recomenda fortemente que os leitores do Louco ouçam a interpretação de Maysa:

https://www.youtube.com/watch?v=OZujyvU0abc




Por quê?


O esmero com a verdade e o gosto pela boa comunicação devem ter sido o princípio. Sentia prazer em transmitir mensagens claras e fieis à realidade, ser um mediador confiável com mínimo ruído e boa síntese. Armei a vela para pegar esse vento.
Para mim, o conteúdo era o principal e a mensagem teria que acrescentar conhecimento, ser útil. Grande engano. A essência é a forma, a beleza, a fluidez. Tive que navegar em águas desconhecidas.
As tintas e as perspectivas importam mais do que a paisagem. Sei agora que a minha interferência e o meu ruído são o mais interessante da história. Os rastros são nossa assinatura, os sinais que estivemos ali, a única forma de ser autoral.
Escrever me ensinou a ler. Experimentar a dificuldade me fez admirar Pessoas, Clarices e Quintanas. Fez despertar minha inveja em prosa e verso. Eles sequestraram milhares de frases, metáforas e sons que deveriam ser meus. 
Não há como escrever somente por vaidade. O orgulho é massacrado pela manhã, ao relermos aquele nosso texto que foi dormir príncipe e acordou sapo que beijo nenhum é capaz de encantar novamente. Ressaca que só sara com humildade e trabalho. 
Deixar legado do que vi no meu tempo, na esperança de renascer sempre que for lido, é uma ambição surreal. A garrafa com o meu pergaminho nunca será encontrada. São infinitas as cápsulas do tempo acumuladas na nuvem.
Por que escrever então, se a vaidade não sacia, a inveja maltrata e o registro se perde? Pergunta boa. 
O esforço para alterar a percepção do cotidiano, registrar ideias e ir lapidando o papel até encontrar a mais bela forma de contar a estória, provoca uma imersão no desconhecido. O texto é vivo, caminha pelas próprias pernas e nos ensina parte do que somos.  
Escrevo para mim. Essa é a minha resposta. Gosto de dirigir nessa estrada de mão dupla. O que sai revela o que está por dentro e justifica passar horas buscando palavras, versos e personagens. Eles falam de mim, mostram segredos, tratam angústias...podem até curar. 

                                  Moisés Lobo Furtado    (28/04/2020)

terça-feira, 28 de abril de 2020

Ipanema, 2014

Galeria de Família


Janeiro de 2014, Ipanema! 

Não há lugar mais lindo no mundo! 

Saudade imensa. 

Sem palavras.





Os primos e as férias

Galeria de Família


O quintal de nossa casa em Guaratinguetá abria-se para o jardim da casa de nossos avós, Breno e Cici, era só atravessar o portão e entrávamos em outro mundo, bem mais calmo do que aquele que tínhamos em nossa própria casa, silencioso, pacífico, algum gato escondido em meio às plantas da avó, Maria lavando roupa pela manhã antes de subir a escada e entrar na cozinha para preparar o almoço, quem sabe hoje teremos pastel, a especialidade da casa!
            Este silêncio, alimentado pelo amor que nos dedicavam essas três personagens, Breno, Ceci e Maria, era quebrado em julho, nas férias do meio do ano, e em janeiro, com a chegada de Tio Tói, Tia Glaura, e os primos Lucila, José Augusto e Glaucinha. Era uma festa, esperada com ansiedade.
            Durava um mês cada vinda deles, hospedados na casa dos avós. Vivíamos aqueles dias, pelo menos eu e meu irmão Paulo, em função de íntima convivência com os tios e primos. Foram tempos marcantes em nossa infância, com muitas histórias para contar. 
            Por ora, registro as fotos, todos adultos, guardando algum traço do tempo que passou.


Lucila, Guto e Glaucinha



José Augusto, esposa e filhos.

sábado, 25 de abril de 2020

Catleias gêmeas




“Que imaginação depravada têm as orquídeas! A sua contemplação escandaliza e fascina. Vivem procurando e criando inéditos coloridos, e estranhas formas, combinações incríveis, como quem procura uma volúpia nova, um sexo novo...”


            In Mario Quintana, Poesia completa
    Editora Nova Aguilar, 2006.


Foto: AVianna, abr 2020, jardim.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Jovem Ahmed




Pode não ser um grande filme, mas O jovem Ahmed, mostrado no último festival de Cannes, merece ser visto porque trata de tema atual e que precisa ser discutido. A direção é dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, premiados no festival.
O personagem-título é um garoto belga de 13 anos (Idir Ben Addi é o ator), seguidor fanático do imã de seu bairro, seduzido pela interpretação radical do Alcorão. Desde as primeiras cenas Ahmed já se mostra possuído pelo fanatismo religioso, ao se recusar apertar a mão de sua professora ao fim da aula: “Um muçulmano de verdade não aperta a mão de uma mulher”, exclama. 
Há problemas familiares que certamente colaboram para as atitudes do adolescente; o pai é ausente; a mãe não segue os preceitos religiosos e ainda por cima bebe vinho; o irmão prefere jogar bola do que estudar o Alcorão; não será difícil para o imã radical seduzir um jovem como Ahmed. 
Durante o filme, mesmo submetido a minucioso e interessante processo de recuperação porque repleto de afeto e consideração pelo ser humano, fica claro que Ahmed dificilmente haverá de mudar seu modo de pensar. Assim age o fanático! Passa então pela cabeça do expectador a pergunta Ele vai se tornar um homem bomba? Um certo clima de terrorismo permanece durante todo o filme, até as cenas finais.
            O que leva alguém a se entregar de corpo e alma ao fundamentalismo religioso? Entregar-se de corpo e alma a ponto de se tornar um terrorista?
            Precisamos conversar mais sobre isso!