quarta-feira, 15 de abril de 2020

Visita a Montalcino

Galeria de Família

Memorável visita a Montalcino, Itália, em 1998.


Berço do Brunello!



A pequena cidade no alto do morro



O bar de vinho em um castelo,
com incontáveis marcas de Brunellos



Degustando!



As vinícolas

Fotos: AVianna

Aprender sempre

Frase do dia


“Quanto mais eu conseguir aprender, mais longe vejo e mais alcanço.”

                              Leandro Karnal



https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,qual-e-a-nossa-lingua,70003270924


Que língua?


O tema é da inteira predileção deste blog, tratado hoje (15 abr 2020) por Leandro Karnal para O Estado de S.Paulo: Qual é a nossa língua? O ideal é dominar a linguagem sintética, mas também investir em Euclides da Cunha.
Mário de Andrade (1893-1945)  fazia dura crítica ao abismo entre a oralidade e linguagem escrita, em tempos em que “o valor de alguém era medido pela riqueza vocabular, precisão e estilo erudito. Fulano era culto, dominava mesóclises, evitava barbarismos, contrariava o uso corrente e empregava palavras raras em orações com inversões sintáticas. Era um distintivo social, uma forma de exclusão mais do que comunicação.”
 Afirma Karnal: “Hoje, a língua escrita, encastelada em palácio de mármore, teve seu fosso terraplenado e suas torres atacadas pelas catapultas do uso coloquial. Se o modernista ironizou a insistência na norma formal lusitana, hoje caminharia em um campo devastado pelo uso que se impôs: a eficácia acima de tudo. ...Importante é comunicar e nivela-se pelo ponto mais baixo, dando a entender que a oralidade é imperatriz e a formalidade, uma serva imunda que se esconde no porão da cidade conquistada.” 
            Karnal destaca a perda de importância da gramática normativa, em detrimento 
do que é falado nas ruas. “Transitamos da demofobia para a normafobia”, alerta o articulista.
            Se meu caro leitor ainda não percebeu, peço que preste atenção na fala dos jornalistas dos diversos noticiários da tv. Mesmo em uma breve notícia haverá pelo menos um atentado contra a língua portuguesa, seja na concordância verbal, seja nos plurais “comidos” pelo locutor. Quanto mais extensa a notícia, maior o número de equívocos.
            O mesmo ocorre com a fala de gente importante, como os ministros, por exemplo. Um deles, em evidência no momento (pelo menos até hoje), sabe o que diz, porém não se importa como diz. (Outro, apenas em evidência quando diz asneiras, esse erra sempre na forma da comunicação.)
            Acrescenta Karnal: “um aluno deve ser estimulado a dominar a linguagem rápida, sintética, sem vogais e com imagens do WhatsApp. Da mesma forma, deve ser levado a decifrar os longos períodos do padre Antônio Vieira ou o vocabulário de Euclides da Cunha. Acima de tudo, no coloquial livre ou no formal profissional, todos devem ter clareza da adequação e da precisão dos termos empregados.”
            Aprendi com os mais bem educados que é interessante alternar leituras de clássicos com autores contemporâneos e sigo este conselho à risca. Machado será sempre nosso guia, mas a liberdade de um Luiz Ruffato não pode ser desprezada. Assim, seguimos aprendendo, o antigo e o novo, o rigor e a irreverência, e até mesmo, por que não, o “certo” e o “errado”. Porém, sem fundamentalismos.
            Conclui Karnal com frase para se emoldurar e colocar na parede da sala de nossa casa: “Quanto mais eu conseguir aprender, mais longe vejo e mais alcanço.”
            Amém!




Foi-se...

Charge do dia



Alisson Affonso homenageia o cantor e compositor Moraes Moreira 

terça-feira, 14 de abril de 2020

Qual livro?

Há dias meu irmão Paulo vem me atentando com pergunta impertinente porque de resposta impossível, Se você tivesse que indicar um livro, apenas um para quem permanecerá três meses em isolamento social, qual livro você indicaria? Embora parta de meu adorável irmão, a pergunta é irritante. Escolher um entre milhares é exercício fadado ao fracasso, pois muitos ficarão de fora, o que não é justo. 
            Mas o irmão insiste; não apenas ele, a provocação está nos jornais, na Internet, gente procurando o que dizer e o que fazer, é isso, sem nada melhor para fazer ou dizer, lá vem a pergunta, Que livro você indicaria para quem está numa ilha deserta?
            Reluto em responder para não cometer injustiça. 
            Até que encontro e releio o seguinte trecho:

“E ele, o Reinaldo, era tão galhardo garboso, tão governador, assim no sistema pelintra, que preenchia em mim uma vaidade, de ter me escolhido para seu amigo todo leal. Talvez também seja. Anta entra n’água, se rupêia. Mas, não. Era não. Era, era que eu gostava dele. Gostava dele quando eu fechava os olhos. Um bem-querer que vinha do ar de meu nariz e do sonho de minhas noites. O senhor entenderá, agora ainda não entende.”

            Pronto, aí está minha resposta: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Este o livro!


            Já morador em Brasília, curtindo férias no Rio de Janeiro no final dos anos 70, ganhei o livro de meu pai, na 11ª edição da José Olímpio Editora, de 1976. Repito: em 1976 imprimia-se a décima primeira edição!
            Abri o livro, iniciei a leitura que prometia grandiosa, e veio o primeiro susto: “– Nonada.” O que é isso? Que palavra é esta? Prossegui. Cheguei ao final da primeira página sem entender nada. Guardei-o, pois era presente de meu pai. 
Anos depois voltei a ele, e desde então nunca mais me saiu de perto. Junto da velha edição, coleciono outras, comemorativas, incluindo o volume de número 51 da edição de colecionador, quando foram editados apenas 63 exemplares em comemoração aos 63 anos do lançamento da primeira edição, em 1956. A sobrecapa deste volume foi bordada pelas artesãs de Cordisburgo, Morro da Garça e Andrequicé (MG), e Linha Nove e Teia de Aranha (SP), inspirada no avesso do Manto da Apresentação, de Arthur Bispo do Rosário, com o nome dos personagens do romance. (Companhia da Letras, 2019.) Está no blog: 


            E assim termina esta crônica, a atender solicitação gentil de meu irmão, e homenagear nosso grande Guimarães Rosa. 

29 Washington square

Meus quadros favoritos


William James Glackens (1911)


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Pastor de ovelhas e seu cão

A foto do dia
dedicada a Cecília



Horácio cria suas ovelhas na aldeia de 
Santa Margarida da Serra, no Alentejo, Portugal
Foto: Francisco Javier Martín del Barrio



          Aos 70 anos, o pastor Horácio não tem medo do coronavírus. “Lutei na guerra de Moçambique, depois fui a Angola, depois ao Iraque... Se ele vier, aqui estamos. Você acha que o vírus se lembrará de nós?”


          “Como Portugal mantém o coronavírus mais controlado que países europeus mais ricos. Precauções sanitárias, planos de controle oportunos e união política controlam a epidemia melhor que em outros lugares com mais recursos econômicos.”



manhã de sol quente





manhã de sol quente
a vegetação espera
as chuvas da tarde
            no sopro calmo do vento
   uma libélula voa


Autores da renga: André (primeira estrofe) e Mercêdes (segunda)
Foto: AVianna, abr 2020.

luminoso abril




zunido de abelhas
hibiscos se abrem ao sol
luminoso abril
            pelas sombras do jardim
            cães perseguem os calangos



Autores da renga: Mercêdes (primeira estrofe) e André (segunda)
Foto: AVianna, abr 2020.

Escrita e isolamento social


Autores dão dicas de como usar dias de isolamento para começar a escrever: este título do artigo de Fernanda Boldrin, para O Estado de S. Paulo (13 abr 2020), resume o assunto. 
Escrever pode ajudar a vencer o isolamento. A frase do estudante de engenharia Victor de Oliveira Dias, que desejava começar a escrever em meio à quarentena, é interessantíssima: “Senti cansaço de ser passivo com as artes, de apenas absorver”. 
“Se escrever é algo que você quer fazer, mas, por alguma razão, sempre tem uma desculpa para adiar, esta é uma oportunidade”, diz a poeta e escritora Angélica Freitas. Embora confinada, ela mantém seu ritmo de escrita: “Como eu não posso sair à rua ver pessoas, tenho observado o movimento da minha janela. Tento imaginar para onde vai quem passa por aqui.” 
A escritora e crítica literária Noemi Jaffe afirma que, “para escrever, é preciso escrever”. “Não espere uma inspiração, porque ela só vem quando a gente senta para escrever. Não espere nada.” “Noemi vê na escrita um gesto de transformação, uma maneira de, com o mal-estar e a imprevisibilidade da situação, fazer palavras.” Este blogueiro dá a isso o nome de Escrita Terapêutica.
“Na caixinha de ferramentas de Noemi e de Angélica, estão também os desafios verbais. Pode-se tentar, por exemplo, escrever um texto sobre amor sem usar a palavra “amor”, ou um texto sem usar nenhuma vez a letra “e”. Explorar uma história já conhecida pela perspectiva de outra personagem ou, ainda, escrever um poema para os cinco objetos mais próximos de si.” Pessoalmente, não gosto desse exercício, em que o tutor sugere o tema e o discípulo obedece. Isso significa abandonar a criatividade de quem começa a escrever, penso que funciona como fator inibidor dessa criatividade. Mas reconheço que pode funcionar para muita gente.
O artigo de Fernanda Boldrin traz ainda dicas para escrever:
1 Concentração: procure um ambiente onde você possa ter um tempo sozinho. 
2 Rotina: comprometa-se a escrever no mesmo horário, ainda que por um curto intervalo de tempo.  
3 Caderno: tenha sempre um caderno por perto. Além de ajudar a não perder ideias pelo caminho, começar e terminar o caderno funcionam como incentivos à escrita. 
4 Observação: olhe com atenção as coisas acontecendo ao seu redor, dentro ou fora de casa.  
        Minha dica é começar pelo microconto, que pode conter, por exemplo, até 140 toques, como manda o Twitter; trata-se de ótimo exercício para estimular a criatividade, aprender a ter intimidade com as palavras, desenvolver o poder de síntese, abusar do bom humor.
Há cursos online para aperfeiçoar a escrita, o que pode ser interessante para quem acredita no modelo.
O artigo só não fala de algo fundamental para quem deseja escrever: ler! Ler ler ler, ler muito, até que um dia, cansado de “apenas absorver”, o sujeito sente o desejo de produzir algo original, seu, registrar o que lhe passa pela cabeça, emitir opinião sobre qualquer coisa, uma ideia, nova ou velha, não importa, e quando bate esta vontade, então o “caderno por perto” há de ajudar.
Este blogueiro está sempre voltando ao tema. Gostaria muito que minhas filhas escrevessem. Água mole em pedra dura...