terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Amar


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

                                                              C.D.A.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Abstinência mental



O Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, liderado por 
Damares Alves, promove a abstinência sexual em eventos 
públicos sobre gravidez na adolescência
Foto: Joege William

“Governo defende abstinência sexual contra gravidez precoce
Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos sugere a ‘preservação’ como o único método ‘100% eficaz’”. A reportagem é de Vinicius Sassine para O Globo (03 jan 2020). 

“BRASÍLIA — O governo do presidente Jair Bolsonaro incluiu uma nova frente nas políticas adotadas para prevenção da gravidez precoce e sexo seguro entre adolescentes: a abstinência sexual. Os ministérios da Mulher, Família e Direitos Humanos (MDH) e da Saúde elaboraram políticas para estimular jovens a deixarem de fazer sexo, uma iniciativa considerada controversa e ineficaz por estudiosos do assunto.”

            Dessa vez não podemos dizer que voltamos à Idade Média, porque regressamos à Idade da Pedra. Trata-se do mais escandaloso golpe impetrado pela república evangélica que assola o país. Já não somos um estado laico.
            Desculpe-me o leitor, mas estou acometido de profunda preguiça e desânimo para tratar do mérito, a abstinência sexual como forma de prevenção da gravidez. Coisa mais ultrapassada. Portanto, perda de tempo: não se pode conversar com o fundamentalista pois ele só ouve a própria voz.
            Talvez em outro momento.
             Um agravante: agora é lidar com o aumento da incidência de gravidez na adolescência!






Papas são gente




O filme Dois Papas, dirigido por Fernando Meirelles, expõe a Igreja Católica e seus conflitos internos, ao tratar da eleição de Bento XVI (Joseph Ratzinger, na atuação discreta de Anthony Hopkins), sucessor de João Paulo. Inesperadamente, a surpresa para católicos e não católicos, a renúncia de Bento, súbita, sem explicações, quase misteriosa, para alguns, apocalíptica. Francisco (Jorge Bergoglio, por Jonathan Pryce, com ótima atuação) é escolhido o substituto, com votação maciça, mostra o filme. 
            Destacam-se os diálogos entre ambos, ao caminhar pelos jardins da residência papal de verão, em Castel Gandolfo, enquanto Bento ainda era o pontífice; são conversas delicadas, as palavras escolhidas com cuidado, o evidente conservadorismo de um, a vontade de reformar do outro, gente civilizada. Vez em quando uma palavra mais ríspida do Papa, o golpe assimilado com paciência pelo Cardeal.
Bento critica com visível irritação o cardeal, por declarações que contrariavam as leis da Igreja, incluindo temas como casamento de padres, homossexualidade e comunhão oferecida aos católicos divorciados. Bergoglio responde: “Passamos os três anos mais recentes repreendendo quem discordasse de nosso posicionamento em relação ao divórcio, ao planejamento familiar, ao homossexualismo, enquanto o planeta era devastado e a desigualdade crescia como um câncer. “O tempo todo, o verdadeiro perigo estava dentro, conosco”. Bergoglio se referia ao conhecimento da alta cúpula da Igreja quanto aos abusos infantis cometidos pelo clero, e o fracasso de Bento para lidar com este problema e com a corrupção. (Gente civilizada que não sabe olhar pela criança desprotegida, digo eu.)
Faltou força “física e mental” a Bento XVI para arcar com as responsabilidades do papado, talvez acometido por uma crise de fé. 
Quer dizer então que o Papa é gente! – para quem ainda não sabia... Sim, o Papa é gente. 
Agora, na virada do ano, Francisco aproxima-se dos fieis na Praça São Pedro, cumprimenta-os, pega criancinhas no colo, sorri seu sorriso aberto e franco, alegre, é um Papa popular e alegre, gosta de futebol, bem diferente do antecessor (um acadêmico, no dizer de Anthony McCarten, roteirista de Dois Papas). Francisco se mostra gente.
Eis que uma mulher, num gesto de extrema devoção, agarra a mão de Francisco, impede que ele se afaste, ela quer o Papa para si, deseja devorá-lo, incorporá-lo, entrar dentro dele, possuí-lo em carne e espírito, verdadeiro estado de êxtase, num transe místico, que denomino simplesmente de surto psicótico. 
Francisco prega-lhe um tapa na mão e vira-se emburrado, bravo, puto da vida. Nenhuma novidade, todos já sabíamos, Francisco é gente!
            




terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Minha casa é um lago de água quieta e escura


Minha casa é um lago de água quieta e escura.
No fundo, há camadas de lodo antigo,
depositado ali desde tempos remotos.
Meus pés não alcançam 
o sumidouro poço vertigem.
Há poucos peixes nesse lago obscuro,
que ali pulsam suas guelras viscosas,
sem assomar à superfície,
sem se mostrar, afeitos ao desprovido de luz.
Minha casa é inabitável,
por ela transitam espíritos, 
antigas cenas constrangimentos estranhezas
arrependimentos segredos cansaços
risadas fantasias medos
muitas dúvidas e culpas.
Minha casa é líquida,
fluida inapreensível incolor
fumo no ar de uma tarde cinza.
Minha casa é feita de material reaproveitado.
Casa casulo teia toca ninho.
Aqui me puseram, aqui quedo.
Para todo o sempre.

                                   
Paulo Sergio Viana
                                   
Poema a ser publicado brevemente, 
no livro intitulado Esmo.

O tempo adiado




Vêm aí dia piores


Vêm aí dias piores.
O tempo adiado até nova ordem
surge no horizonte.
Em breve deves amarrar os sapatos
e espantar os cães para os charcos.
Pois as vísceras dos peixes
esfriaram no vento.
A luz da anileira arde pobremente.
Teu olhar pressente  penumbra:
o tempo adiado até nova ordem
desponta no horizonte.

Do outro lado afunda tua amada na areia,
ele sobe-lhe pelo cabelo esvoaçante,
ele corta-lhe a palavra,
ele ordena-lhe silêncio,
ele encontra-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olha para trás.
Amarra teus sapatos.
Espanta os cães. 
Joga o peixes ao mar.
Anula a anileira!

Vêm aí dias piores.


                                               Ingeborg Bachmann
                                               Escritora austríaca (1926-1973)
               Tradução: Claudia Cavalcanti


Poema publicado no caderno Ilustríssima
Folha de São Paulo (29 dez 2019)

Fará parte de antologia da autora intitulada O tempo adiado e outros poemas, Ed. Todavia, a ser publicado em janeiro de 2020.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Trio para piano, antes e depois



Ao meu querido leitor Emerson


Não me canso de afirmar que não sou crítico musical; me faltam conhecimentos técnicos para tal. No entanto, gosto de registrar observações quase sempre sobre música erudita – que pretensão, meu deus! –, a música que costumo ouvir, irresponsavelmente. (Acontece que gosto muito de escrever.)
            Sabemos que há duas eras com relação à forma Concerto para Piano e Orquestra: antes e depois de Beethoven. Não há necessidade de explicações técnicas para compreender tal afirmativa; basta ouvir e comparar. E acrescento, “antes e depois” não se restringe ao desenrolar linear do tempo. Beethoven nasceu em 1770 e morreu em 1827; Chopin nasceu em 1818, portanto tinha 17 anos quando Beethoven morreu, e não aprendeu com o Mestre a arte do Concerto para piano. (São interessantes os dois concertos de Chopin – e ainda bastante requisitados pelo público –, mas pecam pela orquestração, já dizia minha mãe Ondina, que os ouvia sob restrições.)
            Bem, depois de ouvir o Trio N.2 em mi bemol maior D919, de Franz Shubert, um contemporâneo de Beethoven, interpretado pelo The Florestan Trio, com seus cinco movimentos, pensei em traçar o mesmo paralelo de excelência, comparando a forma Trio para piano a Beethoven. 
Para tanto, escolho o Trio para piano n.1, op. 70, em ré maior, de Beethoven. Desde o início do primeiro movimento a diferença é gritante: enquanto Shubert privilegia descaradamente o piano – sei que esta palavra há de chocar os puristas, mas como não sou crítico musical e adoro as palavras... – em  detrimento do violino e do violoncelo, Beethoven inicia seu trio com a voz do violino, belíssima, acompanhada do cello – e só depois entra o piano. Piano, violino e cello conversam todo o tempo, cada qual sabedor de seu próprio valor. E ele sabia disso.
No Trio op. 11, em si bemol maior, surge uma novidade: no terceiro movimento Beethovem apresenta um tema, “Pria ch’ l’impegno” sob a forma de Alegretto. Em seguida, ouvimos 9 variações curtíssimas, 30 a 40 segundos cada, sobre este tema. A peça termina com um Alegro. Fica evidente a intenção do compositor em desenvolver e expandir a forma Trio para piano.
Talvez os Trios para piano também possam ser divididos em “antes e depois” de Beethovem.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Nova astrologia?





“Diga-me qual é o seu signo e eu te direi para onde ir de férias é o mais recente caça-cliques turístico. A obsessão com a estética das constelações vem sendo impressa tanto nas camisetas da marca Stradivarius (28 reais) como nos desenhos de Clare Waight Keller para a Givenchy (1.730 reais). A Goop vende garrafas portáteis com pedras de ametista dentro para se “beber água com boas vibrações” (360 reais). Este ano, na Urban Outfitters se destacaram os “geodos místicos” convertidos em práticos e decorativos suportes de livros (137 reais), mas ainda há estoque de velas e aromatizadores de ar para celebrar os solstícios (114 reais). A K-Hole, agência que prevê tendências, já antecipava em 2015 e acertou em cheio: aproximavam-se tempos de devoção à magia em várias subtendências, todas associadas ao esotérico e ao feminismo.” 
Assim tem início do esclarecedor artigo de Noelia Ramírez (26 dez 2019) para El País, intitulado O pujante negócio da astrologia contra o patriarcado. O feminismo exalta bruxas, horóscopo e memes num ramo que faz dinheiro com moda e consultoria pessoal em meio à incerteza social. Trata do novo consumo da astrologia, incluindo os aplicativos de horóscopo, com serviços personalizados diários e gratuitos, entre outros serviços pagos (mapa astral), viciantes e bem-sucedidos. 
“Como observou a jornalista Erin Griffith, em um artigo do The New York Times intitulado Investidores digitais estão pondo dinheiro em astrologia, o setor de “serviços místicos” tem um potencial comercial de 2,1 bilhões de dólares (cerca de 8 bilhões de reais), depois que o Co-Star, um aplicativo baixado por três milhões de usuários que permite comparar mapas astrológicos para que “a irracionalidade invada nossas formas de vida tecno-racionalistas”, captou cinco milhões de dólares (cerca de 20 milhões de reais) em investimentos de fundos de capital de risco do Vale do Silício.”
            Parece uma brincadeira! Para os consumidores, pouco importa que as informações recebidas tenham amparo científico ou não, trata-se de um paliativo mágico contra a ansiedade e o vazio, é como ir ao shopping e passar o dia a fazer compras. Não vale fazer a clássica pergunta Qual a diferença entre astrologia e Astronomia? A resposta baseada em fatos não interessa.
            Em outras palavras, a verdade não está em jogo. Por isso chamei de brincadeira, que rende bilhões ao espertos e emburrece os consumidores.
            O artigo de Ramírez termina com bela definição: “Passagem para o intangível, essa fuga no feminino para um pensamento mágico diante de uma tendência global de incerteza econômica e política.”
            É preciso combater a ignorância, sempre. Aos suscetíveis à “nova astrologia”, proponho o estímulo ao exercício de pensar. 



Danaë

Meus quadros favoritos



Gustav Klint

“Danaë é uma pintura a óleo sobre tela do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt, datada de 1907, a Fase Dourada do artista. O tema da pintura, Danaë, esteve muito em voga no início da década de 1900 entre muitos artistas; a personagem foi utilizada como um símbolo de perfeição do amor divino, e transcendência.”

Wikipédia

Bonde numa rua da Praga

Meus quadros favoritos


Jakub Schikaneder

Pintor nascido em Praga, em 1855.
Morte, 1924.