terça-feira, 13 de agosto de 2019

Estranhos silêncios


Em recente visita a Mendoza, na Argentina, conhecemos certa vinícola bem conceituada, produtora de bons vinhos no Vale do Uco. Fomos recebidos num belo salão com vista para a cordilheira, ao centro a mesa imponente de madeira maciça, o enólogo a ocupar a cabeceira, quatro visitantes de cada lado da mesa. À minha frente, um casal de descendentes de japoneses, os traços orientais bem marcados, conversando em português.
            Após as devidas informações técnicas foi servido o primeiro vinho: duro, rascante, carrasco, travo amargo na boca, barato. Notei que o casal de japoneses cheirou o copo mas não provou do líquido. Seriam experts a ponto de recusarem o vinho apenas pelo desagradável buquê? Passei a observá-los com maior atenção.
            O segundo vinho era um pouco melhor. Repetiu-se a cena: o casal provou do aroma e não levou o copo à boca. Nessa altura do relato o leitor já adivinhou que o mesmo ocorreu com os três vinhos servidos em seguida, sendo o último muito bom. Os japoneses não provaram qualquer um deles, o que provocou em mim incontrolável reação, em tom de voz exaltado:
            – Não é possível! Assim eu vou ter que beber os vinhos de vocês! Por que não provaram os vinhos?
            – Nós não bebemos.
            – Não bebem?
            – Não bebemos.
            O silêncio tomou conta da sala. Nada mais pude dizer ou perguntar. Encerrou-se ali a degustação.
            Da conversa sempre animada com meu amigo M. ouvi surpreendente informação, que na oficina de escrita frequentada por ele a esmagadora maioria dos alunos nada escreve. O dever de casa consiste apenas na escrita de texto com tema previamente selecionado pelo professor, com prazo de entrega de longos quinze dias. Apenas meu amigo escreve (e bem!), mais ninguém. 
            Houve tempo – isso já foi relatado neste blog inúmeras vezes – em que coordenei oficina de escrita para psicanalistas em formação. Um dos participantes, porque nada escrevia transcorridas algumas semanas, ao ser questionado com delicadeza pela razão daquela atitude, respondeu de forma intempestiva:
            – Se eu escrever vou me revelar!
            O silêncio tomou conta da sala. Depois do susto retomamos a discussão sobre literatura.
            O analisando entra no consultório, deita-se no divã, permanece em prolongado  silêncio.
            – Estou sem assunto, doutor. O senhor me ajuda?
            – Como?
    – Puxa um assunto.
    – Assunto meu?
            – Pode ser.
            Agora é o psicanalista quem faz silêncio. 
            

Aldravia N.84




belo
imponente
 sabiá-poca
de
peito
branco



Foto: AVianna, ago 2019

Cavalo marinho e concha

A foto do dia


Detalhe: a concha incrustada!
Exímio joalheiro!

domingo, 11 de agosto de 2019

No Leblon

Galeria de Família



Momento especial em um boteco do Leblon, Rio de Janeiro, em companhia de Maria Helena e Shaun. Ela, parecendo uma artista de cinema, garantia que lá serviam o chope mais gelado da cidade...

Mercêdes & Camões

Galeria de Família



Havíamos nos mudado há pouco para a casa no Lago, as plantas ainda crescendo, e desfrutávamos da companhia de Camões, um amor de cãozinho. Mercêdes, muito bonita e animada com o jardim, abraça-o carinhosamente.
            Nossa homenagem a Camões pelo Dia dos Pais. Convive conosco até hoje uma filha dele, Nina Simone, beirando os 15 anos de idade.

Homenagem ao pai

Galeria de Família




chapéu velho na cabeça
roupa folgada no corpo
pés descalços
vê de vitória
em ambas as mãos
alegria esfuziante
no sorriso largo
– tempo de solteiro

Paulo Sergio Viana também presta sua homenagem:


Quem é o homem que ria,
sobre a pedra assentado?
Pensei que o conhecia,
conhecia só um lado...

sábado, 10 de agosto de 2019

Saí-azul






Saí-azul, fêmea e macho.


Fotos: Vianna, ago 2019.

A ridícula ideia de Rosa Montero



Quem leu o espetacular A louca da casa (Ediouro, 2004), jamais haverá de esquecer o nome de Rosa Montero, jornalista e escritora madrilena, nascida em 1951. 
            Surge agora A ridícula ideia de nunca mais te ver (Todavia, 2019), estupendo livro, misto de biografia, memórias e romance, com tradução de Mariana Sanchez e bela capa de Luciana Facchini. 
            Rosa Montero entusiasmou-se com o diário de Marie Curie, escrito entre abril de 1906 e abril de 1907, em que ela “conversa” com o amado marido, morto há pouco tempo. Também a autora havia perdido seu companheiro; não foi difícil juntar as duas histórias.
            A linguagem de Rosa Monteiro é única, espelha uma personalidade inquieta, cheia de vida, que sabe pensar e transmitir o que pensa. A leitura flui deliciosa ao longo de todo o livro. Não resisto e reproduzo aqui trecho do primeiro parágrafo:

“Apenas em nascimentos e mortes é que saímos do tempo. A Terra detém sua rotação e as trivialidades com que desperdiçamos as horas caem no chão feito purpurina. Quando uma criança nasce ou uma pessoa morre, o presente se parte ao meio e nos permite espiar durante um instante pela fresta da verdade – monumental, ardente e impassível. Nunca nos sentimos tão autênticos quanto ao beirarmos essas fronteiras biológicas: temos a clara consciência de viver algo grandioso.”

            “As horas que desperdiçamos caem no chão feito purpurina” é uma frase poética para se guardar!
            De quebra, tomamos conhecimento da vida heroica de Marie Curie, suas descobertas, duas vezes premiada com o Nobel – Física e Química – notável cientista e mulher, descobridora do Rádio e do Polônio. Morreu vítima da radiação constante que recebia em seu laboratório.
Livro magnífico, que também trata da morte, do luto e das maneiras de superá-lo, mas antes de tudo trata da vida.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Cresce a correspondência




Iniciar a Correspondência com o Irmão nesse blog é alguma coisa que emociona, entusiasma, arrebata mesmo. Minha postagem Arrependimento, culpa e castigo (1) de 8 de agosto provocou a imediata Resposta (2) do irmão, reproduzida também no Loucoporcachorros. Agora sou eu quem responde ao irmão.
            Brilhante como sempre, Paulo inicia seu texto com uma bomba:  “Um poema não se justifica”. A frase de efeito é perfeita, além de absolutamente verdadeira. (Aquilo de “poetastro” é puro charme.) O poeta não precisa nem deve justificar-se; ele escreve, o leitor que faça a parte dele. Porém, tanto cutuquei a onça com vara curta que, magnânimo, Paulo resolveu responder. Tolerância e paciência para com o irmão não lhe faltam.
            Em primeiro lugar ele resume minhas ideias e considera com propriedade a epígrafe pessoana que grafei: “O poeta é um fingidor...” E Paulo é um grande poeta! Em seguida apresenta sua resposta.
            Ele menciona fato que evitei em meu texto, com o qual concordo e agora dou ênfase: o arrependimento “encarado como culpa, com a conotação puramente religiosa que se lhe atribui, de fato, ele se torna autoflagelação descabida.” As religiões, especialmente aquelas de origem judaico-cristã, ouso dizer que inventaram a Culpa, e dela tiram proveito até hoje. Pecar, confessar, receber o perdão após penitência, e voltar a pecar é mecanismo engenhoso que alivia a culpa. Em meu texto anterior salientei que “voltar a pecar” é inevitável e inerente à natureza humana. Alguma coisa vamos aprendendo ao longo da vida, a duras penas, com sofrimento às vezes extremo, e até chegamos a evitar a repetição de determinado erro, mas isso é exceção. Acumular conhecimento é fácil, difícil é a aprendizagem emocional. Desenvolver tolerância para consigo mesmo, reconhecer as circunstâncias que nos levam a equívocos, tornar consciente aquilo que é inconsciente e que nos move até mesmo contra o nosso desejo, tudo isso é bem mais difícil. (A Psicanálise pode ajudar.)
            Em seguida, com aguda perspicácia, Paulo afirma que “as palavras têm suas nuances de significado”, e que “arrependimento pode também significar ‘exame de consciência’, ‘autocrítica’, termos que, de fato, não têm lugar no poema. Bem, aqui ouvimos a voz do poeta, o peso que ele dá a cada palavra, a intenção de transmitir o inefável, o penetrar no mundo simbólico da poesia. Culpa já não é mais Culpa, é apenas uma ideia. Paulo apresenta, pois, brilhante solução para o emprego da palavra arrependimento.
            Resta o Castigo. Paulo pondera que “não há ninguém que olhe para seus malfeitos sem sentir vergonha, a menos que padeça de amoralidade”, e que  “dificilmente se pode evitar o constrangimento de tê-lo cometido”. Vergonha e constrangimento são sentimentos muito fortes, que machucam a alma; desenvolver, sinceramente, a tal tolerância para consigo mesmo pode abrandá-los. Em meu texto anterior assinalei que é mesmo “desconfortável” esta posição de reconhecer o erro e tornar a repeti-lo, mesmo buscando emendar-se. No entanto, que mais podemos fazer? 
            A prosseguir nessa linha de pensamentos, entramos em terreno pantanoso, movediço, o árduo caminho que persegue a compreensão da Natureza Humana. Mais uma vez, os homens se dividem entre os que creem e os que não creem, e isso faz toda a diferença. Deixemos para outro momento.
            É com entusiasmo – e pouca arte – que dou prosseguimento a esta Correspondência com o Irmão. Ele me faz pensar e sou grato por isso.