domingo, 30 de junho de 2019

Questão de conhecimento


Aos 4 anos, entregou ao pai uma folha de papel escrita de cima a baixo.
– Lindo, meu filho, leia para mim!
– Sei escrever, não sei ler.

Flores perto da janela

Meus quadros favoritos



Marc Chagall

imensa cordilheira




a imagem da cordilheira
imensa
majestosa 
cheia de mistério 
impregnou a retina do viajante 

ele revê fotografias
compulsivamente 
na esperança de reencontrar o sentimento 
provocado pela experiência 
de vê-la de perto 

imensa cordilheira 
cheia de mistério




Foto: AVianna, jun 2019, Mendoza
IPhone8

sábado, 29 de junho de 2019

João é um menino esperto

Aos amigos Paulo e Flávia



João é um menino esperto de 4 anos, que por influência paterna torce para o Flamengo.
            Com esta idade já escreve seu nome completo com letra caprichada e arrisca copiar uma ou outra palavra que encontra em jornais e revistas. Destaca-se no maternal pela permanente alegria e bom relacionamento com os coleguinhas. João é querido pelas professoras.
Qual não foi a surpresa do pai, quando o filho lhe entrega folha de papel escrita a lápis, de cima a baixo, com alguma coisa legível, outras nem tanto.  
            – Que lindo, João! Leia para mim o que está escrito.
            Ao que o menino responde incontinente:
            – Eu sei escrever, não ser ler. 
            Agora o susto do pai não tem mais tamanho. Como assim? Sabe escrever mas não sabe ler? E João emenda com autoridade:
            – Leia para mim, pai.
            Definitivamente embasbacado, o pai não sabe o que responder. Não deseja decepcionar o filho, orgulhoso daquela façanha. Mas não pode ler o que está “escrito”, se é que há alguma coisa escrita naquela folha de papel, pensa ele.
            Inteligente e sensível, João percebe o embaraço do pai.
            – Não tem importância, pai, minha mãe lê para mim.
            João entrega a folha para a mãe, que “lê” sem qualquer dificuldade a história escrita pelo filho, para a alegria do menino e desespero do pai, praticamente um analfabeto.
            O pior: quando perguntado sobre sua cor preferida, João responde:
            – Verde!

Jovens de hoje


A crônica de hoje de Hélio Schwartsman para a Folha de S.Paulo (29 jun 2019), com o título Papo de velho, deve interessar a velhos e jovens, ao menos àqueles que ainda estão interessados em aprender alguma coisa nessa vida.
Schwartsman afirma que “A gente sabe que ficou velho quando começa a se perguntar o que há de errado com os jovens de hoje”. É que ele não consegue entender o comportamento dos estudantes universitários, que, “cada vez mais, advogam por “safe spaces” (espaços seguros), “trigger warnings” (alertas sobre textos potencialmente chocantes) e se metem em protestos exóticos, entre outras esquisitices”.
Ronald S. Sullivan Jr, advogado e professor de direito em Harvard, aceitou advogar para Harvey Weinstein, o produtor de Hollywood acusado de crimes sexuais. Alunos pediram a cabeça do acadêmico e a administração de Harvard anunciou que não renovará o contrato de Sullivan como “dean”, embora ele conserve sua posição como professor. 
Informa Schwarttsman: “A primeira maluquice dos estudantes é confundir o advogado com seu cliente. Sullivan não é suspeito de nenhum delito. Talvez mais grave, os alunos estão sugerindo que existem crimes tão graves que as pessoas acusadas de tê-los cometido não devem nem ter direito a um advogado. Aliás, nem precisam passar por um julgamento para ser consideradas culpadas. Lamento dizer, mas isso é a negação dos pilares mais básicos do sistema de Justiça ocidental.”
O articulista diz que se sente estimulado sempre que se depara com “uma ideia que me tira de minha zona de conforto”. E mais: ”Isso é parte inafastável do processo de aprendizagem”. Com os universitários em questão isso não funciona assim. Dificuldade para pensar?
            Há muito, vejo que jovens universitários vêm se tornando mais conservadores que seus professores, assumindo muitas vezes posições francamente retrógradas e reacionárias, e esta impressão não é fruto de minha imaginação ou preconceito; advém da longa experiência como professor universitário. Ao final de minha vida acadêmica, tal constatação atingiu seu ápice, colaborando para a decisão de minha aposentadoria. Não desejava mais trabalhar naquele ambiente.
            Agora vem o brilhante colunista afirmar que está “oficialmente velho”, por não entender as atitudes dos moços. E conclui com ironia: “Mas isso tudo provavelmente não passa de papo de velho.”








quinta-feira, 27 de junho de 2019

Itamaraty e a ideologia de gênero


Segundo a Folha de S. Paulo, em reportagem de Patrícia Campos Mello (26 jun 19), diplomatas receberam nas últimas semanas instruções oficiais do comando do Itamaraty para que, em negociações em foros multilaterais, reiterem “o entendimento do governo brasileiro de que a palavra gênero significa o sexo biológico: feminino ou masculino”.
Pensava eu que gênero e orientação sexual eram construções sociais, e não apenas determinações biológicas. No entanto, para segmentos da direita, a “ideologia de gênero é um ataque ao conceito tradicional de família”. 
“De acordo com fontes do Itamaraty, a instrução foi formalizada porque o Brasil, ao utilizar essa definição, quer evitar ambiguidades. Procurado, o Itamaraty afirmou tratar-se apenas da retomada da definição tradicional de gênero.”
Para Camila Asano, coordenadora da Conectas Direitos Humanos, essa medida pode “comprometer a credibilidade internacional do país”. “Se tal ordem não for imediatamente revertida, o Brasil se unirá a diplomacias que propagam posições retrógradas em espaços internacionais, ignorando avanços nacionais e globais na luta contra desigualdades e preconceitos”, afirma.
Informa ainda Patrícia Mello: “A nova instrução do Itamaraty se alinha a inúmeras declarações do chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, e do presidente Jair Bolsonaro. Em discurso em seminário promovido pelo Itamaraty e pela Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) no dia 10 de junho, Araújo criticou o globalismo, afirmando que o conceito promove ideias como a "ideologia de gênero", ao lado do “racialismo” — segundo ele, a concepção da sociedade dividida em raças — e do ecologismo, definido pelo ministro das Relações Exteriores como a ecologia transformada em ideologia.
“Se o Itamaraty orienta seus diplomatas dessa forma, o Brasil pode se distanciar de países que acolhem refugiados perseguidos justamente por essas razões. Isso mancha a reputação do país como referência na agenda de proteção a refugiados”.
            
            O tema está sendo tratado aqui veladamente, responsabilizando apenas a chamada “direita”, seja lá o que isso possa significar, pela ideologia de gênero. Por trás disso tudo está o fundamentalismo religioso que assola nosso país. Ninguém se assuste se, de repente, o Itamaraty passe a defender o Criacionismo, ou até mesmo, o Terraplanismo.




inverno em Mendoza




inverno em Mendoza
hora de beber o vinho
secas as parreiras



Foto: AVianna, jun 2019, Iphone8

Tempos londrinos


Penso que esta fotografia foi tirada em Londres, mas não estou certo disso; talvez por volta de 1986 ou 1987. Maria Helena pode confirmar. À esquerda, do alto de seus quase dois metros, está Doug, também conhecido por Doguinho. À direita, nosso pai Ofir. No centro, mãe e filho.
            Chama a atenção a fisionomia de todos, aparentemente tristes. Ofir esboça um sorriso. Shaun demonstra alguma insatisfação, ao permanece de braços cruzados e a cabeça pendida. Maria Helena olha para outro mundo.
            Também não estou seguro dessa minha interpretação de sentimentos dos fotografados.


Dona Fifina


Dona Josefina Viana Ramos, nossa avó por parte de mãe, nunca nos permitiu maior intimidade, era mulher de um século distante. Casou-se com Manuel e foi morar em Floriano, RJ. Manuel, portanto, é nosso avô.
            Manuel morreu de cirrose e Fifina – assim era conhecida – casou-se com João Ramos, carioca, morador da Tijuca, à Rua Campos Salles, torcedor fanático do América. Velhinho simpático, nos levava a mim e meu irmão Paulo ao estádio do clube, a um quarteirão da casa dele.
            Ah!, com eles residia o famoso Lobo, belo pastor alemão, que tratávamos com o maior respeito, medo mesmo.
            Grande parte da Família jamais viu essas fotografias, nem chegou a conhecer as personagens. Por isso, faço esses registros.





Cordilheira majestosa

O viajante, ao se deparar com a Cordilheira dos Andes, seja lá de que ponto for, do avião, ao pé da montanha, de longe, para uma visada abrangente, ele tenta fotografá-la, registrar aquele monumento que tanto o emociona, mas não consegue captar senão uma pálida visão do espetáculo. Frustrado, guarda a máquina fotográfica, olha apenas, para guardar na memória o indescritível.





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Foto: AVianna, jun 2019
Iphone 8