quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Folhas




o sol horizontal do fim da tarde
incendeia as folhas
que já vão frágeis em textura
pobres de seiva
tênues véus de escassa serventia
prestes a deitar ao solo
a luz que as atravessa

resta a derradeira cor
o leve embalo do vento

a vida passou
eu fiz o que pude
  
                     Paulo Sergio Viana (poema e foto)


Visitem o blog do Paulo para ler outros textos e poemas:
https://blogdopaulosergioviana.blogspot.com/2018/10/folhas.html


Dia D




31 de outubro, Dia D

Dia D, data criada em 2011 pelo Instituto Moreira Salles para celebrar a data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.


CASAMENTO DO CÉU E DO INFERNO

No azul do céu de metileno
a lua irônica
diurética
é uma gravura na sala de jantar.

Anjos da guarda em expedição noturna
velam sonos púberes
espantando mosquitos
de cortinados e grinaldas.

Pela escada em espiral
diz-que tem virgens tresmalhadas,
incorporadas à via láctea,
vagalumeando...

Por uma frincha
o diabo espreita com o olho torto.

Diabo tem uma luneta
que varre léguas de sete léguas
e tem o ouvido fino
que nem violino.

São Pedro dorme
e o relógio do céu ronca mecânico.

Diabo espreita por uma frincha.

Lá embaixo
suspiram bocas machucadas.
Suspiram rezas? Suspiram manso,
de amor.

E os corpos enrolados
ficam mais enrolados ainda
e a carne penetra na carne.

Que a vontade de Deus se cumpra!
Tirante Laura e talvez Beatriz,
o resto vai para o inferno.

                        Carlos Drummond de Andrade
                        Alguma poesia (1930)

terça-feira, 30 de outubro de 2018

humano olhar




como penetrar
no íntimo dessa alma
de humano olhar


Foto: AVianna, out 2018

Paula mergulha em Recife

A foto do dia



Paula espetacular

Narciso e Eco

Meus quadros favoritos


Solomon Joseph Solomon

Pintor britânico de origem judaica, famoso como retratista (1860-1927).

Ainda somos um Estado laico?




Poucos haverão de concordar com as ideias que passo a exprimir, e por várias razões, principalmente porque o Brasil é um país profundamente religioso, desde os primórdios da colonização portuguesa. O assunto, no entanto, aparece na mídia com bastante frequência. Acrescento, antes de mais nada, que não se trata do tema mais importante do momento, levando-se em conta o descalabro econômico em que nos encontramos e sua principal consequência, os milhões de desempregados. Mesmo assim, deixo aqui meu registro.
            Preocupa-me, entre tantos problemas, a exagerada posição de destaque que ocupa a religião nos dias de hoje, ainda mais após o primeiro pronunciamento do presidente eleito. (O Professor Arthur Giannotti, em entrevista para o programa Roda Viva de ontem (29 out 2018), também mostrou-se impressionado com o que chamou de “rezaria”, no tal pronunciamento.)
Em reportagem de hoje para a Folha de S. Paulo – “Católico, Bolsonaro investe em pauta evangélica e domina segmento” – (30.out.2018), Anna Virginia Balloussier afirma que “Por sete vezes Jair Bolsonaro evocou, no primeiro discurso que deu após ser eleito presidente do Brasil, o ente máximo para as maiores religiões do planeta. E se chegou tão longe pode dar graças a Deus e também a líderes evangélicos que dizem falar em Seu nome.” 
Acrescentou o presidente eleito: “O nosso slogan eu fui buscar naquilo que muitos chamam de caixa de ferramenta para consertar o homem e a mulher, que é a Bíblia Sagrada. Fomos em João 8:32: e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. A  oração puxada pelo pastor e senador de saída Magno Malta foi mais longe: “A Tua palavra diz que a autoridade é ungida por Deus, e o Senhor ungiu Jair Bolsonaro”. Então, teremos um Presidente ungido! Talvez infalível?
Informa Balloussier que os “católicos ainda são o maior naco religioso do eleitorado, 56%, aponta pesquisa Datafolha. Mas boa parte só diz que é católica, sem necessariamente ser praticante, enquanto “evangélicos são muito mais ativos, compromissados”.  Ou seja: fidelizam. Fora terem um senso de comunidade forte, no qual ideias circulam mais fácil. E que político não aprecia ter seu nome propagado num grupo coeso?” Os evangélicos eram 9% na década de 1990 e hoje alcançam 30%.  
Continua a reportagem: “Desde o início da redemocratização, várias igrejas, sobretudo pentecostais, passaram a promover uma instrumentalização da política, e vice-versa. [O grifo é meu.] No segundo turno de 1989, o apoio foi em massa para Collor, e ali já começavam as fake news.” Malafaia diz à Folha que sua amizade com Bolsonaro começou por volta de 2006, ano de criação de um projeto de lei que horrorizou a bancada evangélica no Congresso: o PL 122, que criminalizava a homofobia. Pastores temiam ser processados caso pregassem contra o casamento gay, caso o texto fosse aprovado.
Em 2010, a relação com evangélicos se estreita após Bolsonaro abraçar a luta contra um pacote anti-homofobia a ser adotado em escolas, que a frente religiosa rotulou de “kit gay”.  
Conclui o artigo da Folha: “Tudo isso ajudou a amalgamar o eleitorado evangélico, que deu a Bolsonaro cerca de 22 milhões de votos (70% do segmento), segundo projeção do Datafolha. Sua diferença com Fernando Haddad (PT) foi de 11 milhões de eleitores.” 
            Ora, fica cada vez mais evidente a ingerência da bancada religiosa nos assuntos de Estado, alguns deles fundamentais, como a Educação. Num país dito laico, a separação entre Religião e Estado é primordial, todos sabemos disso. Porém, se para serem eleitos os políticos precisam vender a alma ao diabo, a palavra “amalgamar” utilizada na reportagem acima está bem empregada.
            Como discutir assuntos de relevância universal como o aborto e a eutanásia, dentre outros, diante da força crescente da bancada da Bíblia? Até que ponto os costumes já absorvidos pela sociedade contemporânea serão afetados por esta influência?
A pergunta que nos resta fazer é se ainda vivemos em um Estado laico. 






domingo, 28 de outubro de 2018

Treinar para ouvir




Ao folhear o jornal de sábado, atormentado com tantas e tão disparatadas notícias da política nacional, uma certa manchete despertou-me curiosidade, publicada na sessão Saúde da Folha de S. Paulo (26 out 2018), reportagem de Cláudia Collucci:

“Treinar médicos para ouvir pode reduzir ansiedade e depressão na população.”

            Minha primeira impressão , antes mesmo de ler a matéria, foi a de que se tratava de mais uma crítica aos médicos, que cada vez ouvem menos seus pacientes. A recomendação pareceu-me apropriada, na era do prontuário eletrônico, o paciente escondido atrás da tela do computador. Há muito que a chamada relação médico-paciente vem se deteriorando; há publicações em revistas médicas de peso chamando a atenção para o problema; e um dos problemas é mesmo a dificuldade do médico para ouvir seu paciente.
            Enganei-me, não era este o enfoque. A reportagem traz interessante proposta para o tratamento de pessoas que necessitam atendimento psiquiátrico, em países onde o número desses especialistas é reduzidíssimo. (No Zimbábue há dez psiquiatras para uma população de 13 milhões de pessoas.)
            Diz a reportagem: “O treinamento de profissionais da atenção primária, como médicos de família e enfermeiros, combinado com iniciativas que envolvam a comunidade pode ser o caminho para aumentar a oferta de tratamento de transtornos mentais como a depressão e a ansiedade.”
Quem faz tal afirmação é o psiquiatra Shekhar Saxena, 62, professor do departamento de saúde global de Harvard e ex-diretor de saúde mental da OMS.
Saxena é um dos autores de recente relatório publicado na revistaThe Lancet, com  severas críticas aos tratamentos de saúde mental e subfinanciamento por parte dos governos.
Vem ganhando apoio internacional o “friendship bench” (banco da amizade, numa tradução livre), desenvolvido pelo professor Dixon Chibanda, da Universidade do Zimbábue. “Chibanda treinou avós para ouvir e orientar pessoas com depressão e ansiedade. Um estudo publicado no Jama(Jornal da Associação Médica Americana) mostrou que aqueles que sentaram no banco e contaram seus problemas para as avós tiveram maior redução de sintomas da depressão e da ansiedade do que aqueles que não tiveram essa escuta.”
Os bancos foram inicialmente testados no Zimbábue e atualmente estão sendo usados no Malaui, em Zanzibar e até em Nova York, em bairros como Bronx e Harlem. 
            Relata ainda a reportagem: “A atenção primária varia muito de país para país. Em alguns, os serviços são gerenciados por médicos e enfermeiros, em outros por mais profissionais da saúde. Todos podem ajudar, mas de diferentes maneiras. Médicos e enfermeiras podem ser treinados para identificar e tratar pessoas com as desordens mentais mais comuns como depressão, ansiedade e problemas com álcool e drogas. Eles podem ajudar de 60% a 70% das pessoas. Algumas vão precisar ser encaminhadas a um especialista, mas será a minoria. A maioria pode ser cuidada em uma atenção primária bem treinada.”
            A proposta, na realidade, chama nossa atenção para as relações interpessoais, algo que está acima da relação médico-paciente. Não há nada a nos surpreender, pois a ação terapêutica de uma conversa bem dirigida (pessoas treinadas para ouvir) há muito está estabelecida. A questão se resume em saber ouvir, esta a grande dificuldade do ser humano.



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Protesto Palestino

A foto do dia


Homem empunha bandeira palestina enquanto arremessa pedra
com uma funda, em cidade ao norte de Gaza
Foto: Mustafa Hassona/Anadolu Agency/Getty Images


A foto de um palestino arremessando pedras contra soldados israelenses em Gaza viralizou nas redes sociais pela semelhança com a pintura “A Liberdade Guiando o Povo”, de Eugène Delacroix (25 out 2018).
A cena foi retratada por Mustafa Hassouna, da agência Anadolu, na cidade de Beit Lahiya, durante protestos contra o bloqueio marítimo de Gaza imposto por Israel. 


"Liberdade Guiando o Povo", Eugène Delacroix




Duas portas

fotominimalismo




Foto: AVianna, Pirenópolis, abr 2018
Nikon D7200

Aldravia N.77





escondida
quieta
Falena
espreita
o
jardim


Foto: AVianna, out 2018, Iphone