domingo, 14 de outubro de 2018

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Filósofo em meditação

Meus quadros favoritos


"Filósofo em meditação"

Rembrandt (1632), Museu do Louvre


            Dois pontos distintos, opostos, contrários, chamam a atenção do observador desde a primeira mirada à pintura de Rembrandt: a luz que vem da janela e a escuridão no alto da escada. Conhecimento e razão opõem-se desde sempre à ignorância e insensatez.
            O filósofo, à luz da razão, permanece quieto; ele pensa, provavelmente. Mas sabe que a poucos passos está a longa e sinuosa escada do aprendizado, espiral sem fim.
            No canto inferior esquerdo da pintura uma mulher aviva o fogo; ela trabalha (enquanto o filósofo medita), e dali também emanam luz e calor.
            Há uma pequena porta atrás do velho sentado, que permanece fechada; talvez represente o conhecimento proibido ao humano.
            Trata-se sem dúvida de uma cena doméstica. A cor marrom do interior – cor de terra – contrapõe-se ao amarelo dourado da luz que penetra na janela. A curvatura da janela tem continuidade com o teto, com a parte inferior da escada e com o piso iluminado, formando um círculo perfeito. Mais uma vez a técnica do claro-escuro.
            Estas são as associações que Rembrandt em mim suscita.
            

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Madrigal


Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão.

Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.


                             José Paulo Paes
                             Poesia Completa, Cia das Letras, 2018.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O espetáculo de Banksy




A obra “Garota com balão”, cópia de desenho de Banksy feito originalmente num muro em Londres em 2002, depois de ser vendida por um lance de 1 milhão de libras esterlinas, foi imediatamente autodestruida por um dispositivo remoto desconhecido.
            Lance espetacular de marqueting!




                   A pintura picotada ainda vai parar em um grande museu do mundo, tal qual o urinol de Marcel Duchamp! Ela representa um momento único na História da Arte.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Oásis na Savana


     
  
Oásis de vegetação na África
Foto: Monica Nobrega/Estadão


O biólogo Fernando Reinach, em artigo para O Estado de S.Paulo (6 out 2018), Oásis na Savana, destaca que há milhares de anos, no período neolítico, o homem conseguiu melhorar o ambiente em que vivia, deixando marcas que podem ser observadas até hoje. 
Afirma Reinach: “As Savanas africanas, onde pastam os grandes herbívoros e vivem os grandes carnívoros, têm um solo extremamente pobre, que sustenta uma vegetação rala. Florestas e campos luxuriantes são raros. Mas se você observar a região com um satélite vai descobrir milhares de círculos de aproximadamente 100 metros de raio onde a vegetação é luxuriante, e pequenas florestas podem ser vistas.”  
Muitos desses círculos têm pequenos vilarejos habitados por criadores de gado e outros herbívoros, contendo um curral onde o gado é recolhido durante a noite. Naturalmente, as fezes do gado tornam o solo mais fértil. Porém, há um número muito maior desses círculos que o esperado pela quantidade de habitantes que existe na área. 
Agora surge o fato mais interessante: os cientistas decidiram escavar exatamente onde estavam esses círculos férteis não ocupados. O resultado foi surpreendente, afirma Reinach: “Em quase todos esses locais, foram descobertas ruínas de povos pastorais da época neolítica (1,5 mil a 3,7 mil anos atrás), o que indicava que talvez esses locais fossem os currais das culturas neolíticas da África. Mais interessante é o fato de que nesses locais não se acharam indícios de ocupação recente, o que indica que essa ilha de fertilidade teria sido criada por seres humanos milhares de anos atrás.” 
A presença de seres humanos do neolítico fertilizou essas ilhas de terra, resultando em aumento da biodiversidade, atraindo mais herbívoros, árvores e pássaros. 
Conclui Reinach: “É boa notícia, que reforça a ideia de que as intervenções humanas não são obrigatoriamente destrutivas. Quem poderia imaginar 2 mil anos atrás que um curral cheio de fezes iria se transformar em um luxuriante oásis?”
            O que chamou a atenção deste blogueiro foi a fantástica ideia dos cientistas de escavar exatamente nos oásis inabitados, em busca de algo que ignoravam completamente. Encontraram vestígios de povos pastorais.
            Lembrei-me de minha experiência no hospital King’s College, em Londres, nos anos 80. Quanto os pesquisadores, médicos e cientistas, sentavam-se para o chá – acompanhado de insípidos biscoitos –, pela manhã e à tarde, a conversa entre eles era quase sempre sobre pesquisa. Surgiam ideias brilhantes, às vezes mirabolantes; eles não estavam preocupados com a viabilidade dos projetos, apenas exerciam a arte de pensar sobre Pesquisa. Muitas ideias eram aproveitadas e desenvolvidas pelos 50 componentes da Unidade de Fígado do hospital, quase todos estrangeiros. A conversa era sempre enriquecedora. Penso que isso faz a diferença.
            



Salon of Rue des Moulins

Meus quadros favoritos



Henri de Toulouse-Lautrec

Stonehenge


sem estes marcos de pedra para guiá-lo

como poderia o sol cumprir a tempo e a hora a sua eterna ronda das
        estações?


José Paulo Paes

Do livro  A poesia está morta mas juro que não fui eu (1988)

A urna pune


Animada com a movimentação do Grande Dia, marcou com a imprensa uma coletiva à noite. Finda a apuração, tomou 2 uísques, foi dormir.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Uma boa consulta


O que é uma boa consulta médica? A resposta mais simples, direta, verdadeira, que posso oferecer é aquela da qual o paciente sai satisfeito, mesmo que nada tenha se alterado em relação a sua doença. Ele apenas vai para casa satisfeito.
            E aí André, como tem passado, Estou bem, Alguma novidade, Nada de novo, Continua praticando atividade física, Sim, três vezes por semana de hidroterapia e agora mais três dias de Pilates, Muito bom!
            Após amigável interrogatório inicial o médico faz o exame físico à moda antiga, examina o pescoço à cata de linfonodos, ausculta os pulmões – só faltou pedir que eu falasse 33 –, o coração, palpa o abdome, ajuda-me a levantar. É bom sentir seu toque físico, isso nos aproxima.
            Confere o resultado dos exames com a tela do computador voltada para mim, Estão todos bons (exceto um deles que teima em subir, mas nada a fazer por enquanto).
            Então passamos a conversar.
            Queixo-me da memória, esqueço nomes principalmente, coisa desagradável numa conversa. É a velhice. Não há remédio para isso, ele me diz com franqueza. Mas ambos concordamos sobre a importância do exercício intelectual, e ele me fala da importância da leitura.
            Aproveito a deixa para vender meu peixe: João, não há dúvida sobre isso, mas sabe de uma coisa, cada vez mais valorizo a escrita. Eu diria que a escrita é um exercício mais proativo que a leitura, nos obriga a buscar a ideia, procurar palavras para exprimi-la, cuidar do estilo, da forma, manter a fluência. É o que chamo de escrita terapêutica, mas confesso que não vejo ninguém falando do assunto. Será que estou enganado?
            Você está certo, o problema é que a escrita exige certo tipo de habilidade nem sempre presente nas pessoas. 

(As pessoas têm medo de escrever, costumam dizer que não sabem escrever, mas todos sabemos escrever, bem ou mal, tanto faz, penso eu com meus botões, mas permaneço em silêncio, ouvindo o que meu médico tem a me dizer.) 

A conversa prossegue, Para obter o resultado que você está propondo, André, peço que duas pessoas próximas, marido e mulher, pai e filho, avó e neta, leiam o mesmo livro e depois conversem sobre ele. A conversa minuciosa será o equivalente da escrita que você propõe. 
            Ótima ideia, João! Ótima mesmo!
Assistir a um filme juntos e depois trocar impressões talvez produza resultado semelhante. O filme é fugaz, diz João, ao passo que o texto permanece à mão, pode ser revisitado com facilidade. 
            Vamos por aí afora, completamente relaxados, na certeza de que somos amigos. Termina a consulta, nos despedimos com caloroso abraço.
            Eis o exemplo de uma boa consulta.