segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Uma boa consulta


O que é uma boa consulta médica? A resposta mais simples, direta, verdadeira, que posso oferecer é aquela da qual o paciente sai satisfeito, mesmo que nada tenha se alterado em relação a sua doença. Ele apenas vai para casa satisfeito.
            E aí André, como tem passado, Estou bem, Alguma novidade, Nada de novo, Continua praticando atividade física, Sim, três vezes por semana de hidroterapia e agora mais três dias de Pilates, Muito bom!
            Após amigável interrogatório inicial o médico faz o exame físico à moda antiga, examina o pescoço à cata de linfonodos, ausculta os pulmões – só faltou pedir que eu falasse 33 –, o coração, palpa o abdome, ajuda-me a levantar. É bom sentir seu toque físico, isso nos aproxima.
            Confere o resultado dos exames com a tela do computador voltada para mim, Estão todos bons (exceto um deles que teima em subir, mas nada a fazer por enquanto).
            Então passamos a conversar.
            Queixo-me da memória, esqueço nomes principalmente, coisa desagradável numa conversa. É a velhice. Não há remédio para isso, ele me diz com franqueza. Mas ambos concordamos sobre a importância do exercício intelectual, e ele me fala da importância da leitura.
            Aproveito a deixa para vender meu peixe: João, não há dúvida sobre isso, mas sabe de uma coisa, cada vez mais valorizo a escrita. Eu diria que a escrita é um exercício mais proativo que a leitura, nos obriga a buscar a ideia, procurar palavras para exprimi-la, cuidar do estilo, da forma, manter a fluência. É o que chamo de escrita terapêutica, mas confesso que não vejo ninguém falando do assunto. Será que estou enganado?
            Você está certo, o problema é que a escrita exige certo tipo de habilidade nem sempre presente nas pessoas. 

(As pessoas têm medo de escrever, costumam dizer que não sabem escrever, mas todos sabemos escrever, bem ou mal, tanto faz, penso eu com meus botões, mas permaneço em silêncio, ouvindo o que meu médico tem a me dizer.) 

A conversa prossegue, Para obter o resultado que você está propondo, André, peço que duas pessoas próximas, marido e mulher, pai e filho, avó e neta, leiam o mesmo livro e depois conversem sobre ele. A conversa minuciosa será o equivalente da escrita que você propõe. 
            Ótima ideia, João! Ótima mesmo!
Assistir a um filme juntos e depois trocar impressões talvez produza resultado semelhante. O filme é fugaz, diz João, ao passo que o texto permanece à mão, pode ser revisitado com facilidade. 
            Vamos por aí afora, completamente relaxados, na certeza de que somos amigos. Termina a consulta, nos despedimos com caloroso abraço.
            Eis o exemplo de uma boa consulta.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Rio Negro

fotominimalismo




Foto: AVianna
Nikon D7200 lente Nikkor 18 mm

Desdizer de Secchin




Notícia do Poeta


Aos 57 anos e 4 dias, na madrugada de 1915,
o poeta Marcelo Gama despenca do bonde
e se espatifa nos trilhos do Engenho Novo.

Ao cair, em sonho visitava
uma nuvem de dois quartos e dez armários
cheios de cheiros e espartilhos de donzelas.

Em torno do corpo,
policiais e parnasianos se entreolham, assustados.


                                               A.C.Secchin


          Livro novo de Antônio Carlos Secchin, Topbooks, 2018. Além do livro intitulado Desdizer, está presente a obra completa (?) do poeta.
          Atenção para a lindíssima capa dura, de autoria de Waltercio Caldas!

Nobel da Paz 2018


A jovem yazidi Nadia Murad e o ginecologista congolês
Denis Mukwege receberam o Nobel da Paz de 2018
Foto: Lucas Jackson/Reuters | Safin Hamed/AFP



O ginecologista Denis Mukwege, que atende vítimas de estupro na República Democrática do Congo, e a ex-escrava sexual do grupo terrorista Estado Islâmico, Nadia Murad, que luta contra o tráfico de mulheres, ganharam o prêmio Nobel da Paz de 2018, e foram escolhidos pelos esforços contra o uso da violência sexual como arma de guerra. Deu no Estadão de hoje (5 Out 2018) 
 nesta sexta-feira, 5. 
Mukwege, de 63 anos, é o chefe do Hospital Panzi, na cidade de Bukavu. Aberta em 1999, a clínica recebe milhares de mulheres anualmente, muitas das quais solicitando cirurgias em decorrência de violência sexual. 
Nadia, de 25 anos, é uma defensora da minoria Yazidi no Iraque, de refugiados e dos direitos das mulheres em geral. Ela foi escravizada e estuprada por combatentes do EI em Mossul em 2014. 
         



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Unha-de-gato


A unha-de-gato (Dolichandra unguis-cati), pertencente à família Bignoniaceae, floresce no mês de outubro na região central do Brasil, em geral no alto da copa das árvores, e tem coloração amarelo forte. É popularmente conhecida como unha-de-gato, cipó-de-gato, cipó-de-morcego ou cipó-ouro. 
Pode ser usada como planta ornamental, principalmente na decoração e cobertura de muros e paredes externas, semelhante ao uso da hera (Hedera helix). 
A unha de gato (D. unguis-cati) é utilizada na medicina tradicional, para tratamento de doenças venéreas, como anti-inflamatório e antimalárico. “Suas propriedades anti-inflamatórias são atribuídas à presença de lapachol, um composto que também está presente em outras Bignoniáceas, como nas cascas do Ipê-roxo (Handronathus impetiginosus). A espécie é rica em flavonoides e também em ácido quinóvico, um composto que pode ser utilizado como antidoto nos acidentes com cobras venenosas. O caule ainda pode ser fonte de tanino, utilizado em curtumes e corante para tinturaria.” 
O crescimento da planta pode levar vários anos, sem florescimento, o que só vai acontecer com a ramagem madura, quando forma vistosa cascata de flores amarelas.
Há vários anos observamos na matinha que enfeita nosso quintal uma certa árvore que ficava amarela nessa época do ano, ao final da seca. Seriam flores ou folhas amarelecidas pela seca? Até que nesse ano desvendou-se o mistério, com a explosão de flores nas copas de várias árvores, uma lindeza mesmo, que tentei registrar nas fotos abaixo. É a unha-de-gato!









Fotos: AVianna, out 2018
Nikon D7200, lente Nikkor 18-300 mm

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Historinha do Sabiá Valente


Para minha querida Gabriela


Historinha do Sabiá Valente




Na tarde quente de outubro 
sabiá observa o jardim
camuflado entre galhos secos.



Olha para baixo, atento
encontra a vasilha de água
dos cães que guardam a casa.



Desce, e apoiado na borda 
debruça-se sobre a vasilha
em busca da água fresca.



Afunda mais a cabecinha
ignorando o risco de vida
o perigo de um ataque canino.



Termina de beber sua água
a salvo dos cachorros bravos
olhinhos brilhando de alegria.



Então voa, busca lugar seguro
na árvore mais próxima
dentre tantas em seu jardim.


                       FIM





Suiriri-cavaleiro de peito amarelo


                    sol quente do meio-dia
            o suiriri-cavaleiro de peito amarelo
            espreita o jardim
            observa a água da piscina
            resolve dar um mergulho
            prepara o voo
            dispara
            espirra água delicadamente
            sai refrescado
            canta de alegria










Fotos: AVianna, out 2018, jardim.
Nikon D7200, lente Nikkor 300 mm

Clique nas fotos para ver melhor.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Aldravia N. 76




Flora
Emílio
Olívia
num
domingo
feliz


Foto: Paulo S. Vianna, set 2018, Lorena.

vermelho & amarelo




com delicadeza
pousa no galho florido
a visita ilustre


Foto: AVianna, out 2018, jardim.
Nikon D7200, AF-S Nikkor 300 mm

Suzete joga conversa fora


Meu querido André,

preciso desabafar. Não aguento mais notícias de eleições, nos jornais, na tv, no rádio, no celular, a Internet invadindo nossa vida com fatos e fakes, atormentando nossos miolos, tirando o sono, causando pesadelos.
            (Antes de prosseguir com minhas queixas, preciso dizer que fiquei assustada com o modo instantâneo e definitivo com que a palavra fake entrou na língua portuguesa, passando para trás mentira e falso; melhor ficaria notícia falsa, mas não, fake tomou conta do pedaço e não há o que se possa fazer contra isso, ninguém controla a língua, não é mesmo?)
            O que mais me irrita é o Brasil parado, completamente imobilizado pela expectativa de alguma mudança que acho improvável. Ah!, podemos mudar para pior, isso sim.
            Ainda bem que trabalho não me falta, tirante os carecas, todos os homens cortam cabelo. Preciso estar atualizada, sempre na moda, pois cada dia me aparece alguém pedindo um corte mais extravagante que o outro. O mais em voga é o cabelo puxado para trás, com um coque no alto da cabeça, as laterais raspadas, coisa de jogador de futebol. Eles pedem, eu faço.
            Li duas crônicas no seu blog sobre cinema e quero falar sobre isso. Vi Paraiso perdido e adorei! Chorei até! Acho que é o melhor filme brasileiro que já assisti até hoje! Nunca vi tanta delicadeza, mesmo tratando de assuntos difíceis, num ambiente de risco, em meio a relações humanas intensas e conturbadas. E as músicas, meu Deus, que lindezas! Os atores não são cantores, mas interpretam as canções tão bem, que acabam cantando melhor que os próprios cantores. As cores são lindas, o guarda-roupa sensacional, fotografia de primeira. Filmaço!
            Agora, você me desculpe André, mas não concordo com o que escreveu sobre o Benzinho. Não achei nada óbvio. Que bobagem sua. Fiquei com muita pena daquela família, tantos filhos, o homem da casa um paspalhão, a mulher tendo que se virar dia e noite, todos entrando pela janela, ninguém para consertar o raio da porta, mas nunca perderam a ternura, e isso não é óbvio, André querido. Ainda bem que você reconhece o valor da atriz principal, a tal de Karina Teles, muito boa mesmo. Você sabia que os gêmeos do filme são filhos dela de verdade? O pior, continuam naquela mesma vidinha até hoje. Não é um alerta para a vida da gente? Pode ser. Tem gente que passa a vida toda entrando pela janela... (Gostei demais do comentário do Paulo, no blog, sobre o filme. Bem, Inês é morta, e você não pode acertar sempre. Não fique triste nem com ciúme do irmão poeta. Talvez você estivesse num mau dia quando viu o filme, acontece, liga não.) Filmaço!
            Você acredita que a palavra filmaço não consta do VOLP? Mas encontrei ela no Dicionário Informal, que muito aprecio porque dá bem a ideia de língua viva e mutante. Sabe André, cada vez gosto mais das palavras! Qualquer palavra, às vezes uma palavra besta como filmaço, fico pensando nela horas a fio, divagando, não há outra que seja tão expressiva. Foda-se que não conste do VOLP. (Outro dia vi na livraria um livro com o título Foda-se estampado em letras enormes na capa, e achei de mau gosto, porém o autor foi corajoso. Não comprei o livro.)
            Depois de desancar com sua crítica sobre Benzinho, preciso dizer que a coisa ainda pode piorar para o seu lado, André: nunca tive coragem para confessar, mas torço para o Corinthians. Mas devo admitir que o Palmeiras está melhor no momento.
            Nada pode nos separar, não é mesmo?
            Eram essas coisinhas sem importância, ninharias, que desejava escrever para você, pelo simples prazer de lidar com as palavras. Me responda logo, por favor.
Da sempre sua
                                    Suzete.