quarta-feira, 7 de março de 2018

De tudo um pouco

Em crônica de apresentação a seus futuros leitores em El País (24 nov 2013), Luiz Ruffato pergunta: Sabe com quem está falando? Passa então a enumerar as ocupações e profissões que exerceu desde a meninice até os dias atuais, coisa de deixar qualquer um boquiaberto.
“De profissão, há dez anos sou escritor. Mas, antes, fiz de tudo um pouco. Desde cedo comecei a trabalhar para auxiliar no orçamento doméstico”, afirma ele.
Ruffato foi  vendedor de cachaça, de tira-gostos e cigarros para prostitutas e cafetões (a zona de meretrício ficava por perto), depois vendedor de botões, zíperes, agulhas, sianinhas, fitas de gorgorão, colchetes, ilhós, lantejoulas (de um armarinho no centro da cidade), trabalhador de uma fábrica de algodão hidrófilo enquanto estudava à noite, foi torneiro mecânico em oficina de Juiz de Fora, formou-se em jornalismo, nos anos 1980 foi aprendiz de repórter, redator, editor, no começo dos anos 1990, desiludido do jornalismo, foi ser gerente de lanchonete, vendeu livros de porta em porta, até voltar para o jornalismo, agora num grande periódico nacional onde foi repórter, redator, subeditor, editor, secretário de redação, até que se convenceu de que seu negócio era mesmo a literatura.
“Agora você sabe com quem está falando, Muito prazer!”, diz ele a seus leitores.
Quase morri de inveja. Eu não fui nada disso. Aliás, não fui nada. Não fiz outra coisa durante minha infância senão brincar. Para falar a verdade, cheguei a fabricar papagaios (pipas, para os cariocas) para vender, lá pelos 6 anos de idade, mas não posso considerar isso uma verdadeira ocupação, apenas gostava de fabricá-los. Fui para a escola primária aos 7 anos, e continuei brincando – jogando futebol – até os 16 anos, quando fui fazer o cursinho pré-vestibular no Rio de Janeiro. Jogava bola de segunda a segunda, sendo que aos domingos jogava de manhã e à tarde. Estudava pouco e lia muito Monteiro Lobato.
Quando entrei para a Faculdade de Medicina não fiz outra coisa senão estudar Medicina – e estudava muito! Mas só medicina medicina medicina.
Nunca perdi o gosto pela literatura, o que talvez tenha remediado aquele meu “nada fazer” durante a infância e adolescência, esta última interrompida drasticamente pela medicina (deixei meus amigos e a boa vida no interior, para estudar na capital).
À medida que o tempo passava, a dedicação à medicina aumentava, atingindo seu ápice durante a Residência médica, onde sobrava pouco tempo até mesmo para outras leituras (mesmo assim consegui ler Grande Sertão –Veredas, do Rosa, e então o mundo se abriu).
            Professor na Universidade de Brasília, minhas atividades diversificaram-se: a Cirurgia, o ensino e a pesquisa, porém todas relacionadas à Medicina. Que diferença para a multiplicidade do Ruffato!
            Fui morar em Londres para fazer pesquisa (em Medicina). Vida dura, pouco dinheiro, ásperas relações humanas.
            Um dia eu disse Basta. Fui fazer a formação em Psicanálise. Outro mundo, para o bem e para o mal. Estudei muito.
            Por fim, repeti Basta!
            Agora toco este blog com o maior prazer do mundo, até quando a lucidez permitir (na esperança de uma morte súbita), mas continuo com inveja do Luiz Ruffato. Acho que meu negócio mesmo é fazer nada.



https://brasil.elpais.com/brasil/2013/11/24/opinion/1385331331_329784.html


segunda-feira, 5 de março de 2018

Primeira frase

             
            Aqueles que escrevem, mesmo que não se considerem escritores, embora o sejam, sabem do problema da primeira frase. O tiro de partida, o princípio de uma história, se começa mal há de terminar pior, teme aquele que escreve, e se tive bom começo há de se desenvolver bem e terminar ainda melhor.
            Há que se concentrar na primeira frase, uma espécie de tudo-ou-nada para o início de um texto. Tanto que, para alguns, e não são poucos, a história nem começa, travada empacada obstruída por algum enrosco na cabeça do escritor, que impede a partida e não se desenvolve nunca. Perde-se no tempo uma história. A frustração daquele que escreve então é monstruosa devastadora deprimente.
            Resolvi colecionar algumas primeiras frases, talvez como estímulo aos que escrevem. Começo com Luiz Ruffato, com o conto O dia em que encontrei meu pai (página 45), do livro A cidade dorme (Companhia das Letras, 2018). http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2018/03/a-cidade-dorme.html
            Eis a frase:

“Minha mãe não acreditou quando eu disse que havia encontrado com meu pai.”

            Sua simplicidade é notável, o narrador fala na primeira pessoa. A história tem início com duas palavras-chave: “minha mãe”. Em seguida, uma negativa forte: [ela] “não acreditou”.
Tem início a descrição da relação entre filho e sua mãe, pois o filho conta alguma coisa – “quando eu disse” – e a mão ouve, dá valor, leva em consideração; pode-se supor a partir daí uma boa relação entre ambos, pois eles conversam.
            O narrador, talvez um menino ainda, ou adolescente, informa à mãe que “havia encontrado”, sugerindo tratar-se de um fato extraordinário, improvável e imprevisto, o que leva às alturas a emoção contida até então na frase, antes mesmo de seu término.
            E esta introdução ao conto – a primeira frase – termina “com meu pai”, o que completa o sentido de toda uma ideia. O narrador não disse que encontrou o pai, mas sim “com” o pai. Houve um encontro de fato.
E por que a mãe não teria acreditado? Que pai é esse? Onde esteve durante todo esse tempo a ponto de tornar o encontro com o filho algo inacreditável? O que conversaram durante tal encontro, se é que conversaram? Que suspense criado por uma única frase!
            Não desejo e nem é conveniente antecipar aqui o desenrolar da história, mas posso afirmar que toda ela está contida nesta primeira frase. A partir daí Ruffato desenvolve sua história magistralmente, digna de figurar nas melhores antologias.
            Resta uma questão a ser respondida, pelo menos na curiosa mente deste blogueiro. Teria o autor de fato utilizado esta frase como ponto de partida para o conto, ou ela surgiu ao final, a história já composta, durante a edição tão necessária para o aprimoramento do texto? A menos que perguntemos para o autor, nunca saberemos. De qualquer modo, a frase é ótima!