quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Rue de la Bavole

Meus quadros favoritos


Claude Monet

Mazisi Kunene





Eu que ao longo dos anos lhe cantei canções,
Parto
A haste rompeu-se
A jovem planta de ébano afunda no pântano.
Esses ventos ululam com sementes.
Hão de espalhá-las sobre o espaço aberto
Onde chuvas darão nascença a selvas.
Creio no grande dia
Que fará nossos caminhos se encontrarem:
Hei de acordar, pois, do deserto
Vendo você se aproximar com alguidares cheios d’água.
Sentaremos ao local do velho homem
Desatando os nós pela extensão da tarde,
Na fertilidade da figueira,
Na amplidão do salgueiro,
Nas savanas do antílope fugaz.


Mazisi Kunene
(poeta sul-africano, 1930-2006)
Tradução de Adriano Moraes Migliavacca

 

O poema acima encontra-se no belo artigo de Adriano Moraes Migliavacca, O triunfo do pensamento: sobre a lírica de Mazisi Kunene, publicado no Estado da Arte, Estadão (16 Dez 2017).

            Migliavacca acrescenta interpretação do poema de forma igualmente poética:

“O poema aborda a questão da passagem e da irrecuperabilidade do tempo. Há, portanto, a presença de noções de mortalidade, de tempo e de espaço, mas essas noções são apresentadas por imagens bastante concretas com uma simplicidade que agrega a essa concretude. A noção de tempo não é abstrata, ela se concretiza no ciclo da figueira, nos ventos que carregam as sementes da renovação das florestas, no mover-se do antílope pela savana. Da mesma forma, a noção de espaço se torna sólida e presente na amplidão do salgueiro, nas extensões da savana. O espaço surge dos próprios locais enquanto que o tempo surge dos fatos.”  




Dançarina em seu camarote

Meus quadros favoritos


Edgar Degas

Vermelho

Da série Fotominimalismo




Foto: AVianna, dez 2017, jardim

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O cão humaniza a família



Entalhes de cachorros e humanos datados de 
8.000/9.000 anos na Arábia Saudita. 
ASH PARTON / MARIA GUAGNIN 
PALAEODESERTS SURVEY



Dois cachorros diante de um leão, entalhes de 8.000/9.000 anos. HUW GROUCUTT / MARIA GUAGNIN 
PALAEODESERTS SURVEY


Os cientistas continuam pesquisando sobre quando e como, há milhares de anos, começou a relação entre humanos e cães. Descobertas recentes na Arábia Saudita mostram homens e cães (controlados por correias) caçando juntos. Parece que, nossa sobrevivência como espécie teria sido muito mais complicada, talvez impossível, sem os primeiros animais que domesticamos.
É o que afirma Guillermo Altares, de Madri, para El País (14 DEZ 201), em reportagem intitulada Cães ajudaram a humanidade a sobreviver.
As hipóteses mais recentes sobre a origem do cão sugerem que os primeiros surgiram há cerca de 33.000 de anos na Ásia, quando se separaram do lobo.
            Quanto à domesticação, “foram eles que nos domesticaram, aproximando-se dos acampamentos em busca de comida”, afirmam os cientistas.
Os entalhes descobertos recentemente na Arábia Saudita estão entre as imagens mais antigas de cães, entre 8.000 e 9.000 anos, revelando o trabalho conjunto com os humanos. São 350 entalhes, onde é possível vê-los caçando, às vezes presos por correias.
Perguntado sobre se os cães nos ajudaram a sobreviver, o professor Losey é enfático: “Sem dúvida alguma. Em certas situações, os cães podem aumentar muito nossas habilidades. Se não estivessem conosco, é muito possível que não estivéssemos aqui”.

            Um dos aforismos favoritos desse blogueiro, utilizado até mesmo em sessões de terapia, é O cão humaniza a família.
           




Racismo científico?




Manifestantes na Marcha da Consciência Negra
no último dia 20 de novembro
Foto: Joca Duarte/Photopress

            Minha primeira reação ao ler o slogan estampado na fotografia de artigo publicado no caderno Ilustríssima, da Folha (16/12/2017), foi de grande espanto! Estaria lendo corretamente? Era aquilo mesmo que os manifestantes queriam dizer? Miscigenação é genocídio?
Pois aconteceu mesmo! No dia 20 de novembro, em plena  Av. Paulista, manifestantes negros carregaram a dita faixa. Para ANTONIO RISÉRIO, 64, antropólogo, poeta e ensaísta, autor de "A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros" e "Mulher, Casa e Cidade", trata-se de “retorno a noções racistas anacrônicas (utilizadas pelos brancos no século 19) e pregação explícita em favor de um apartheid amoroso-sexual no Brasil”.
Segundo Risério, descende diretamente do velho guru Abdias do Nascimento (1914-2011) o slogan exibido na Paulista. Abdias via a mestiçagem/miscigenação como estratégia de extermínio da população negra: "(...) o mulato prestou serviços importantes à classe dominante; durante a escravidão ele foi capitão-do-mato, feitor (...). Nele se concentraram as esperanças de conjurar a 'ameaça racial' representada pelos africanos. E estabelecendo o tipo mulato como o primeiro degrau na escada da branquificação sistemática do povo brasileiro, ele é o marco que assinala o início da liquidação da raça negra no Brasil. ...O processo de miscigenação, fundamentado na exploração sexual da negra, foi erguido como um fenômeno de puro e simples genocídio. Com o crescimento da população mulata, a raça negra iria desaparecendo sob a coação do progressivo clareamento da população do país".
Afirma Risério: “os teóricos do "racismo científico" defenderam a tese totalmente sem pé nem cabeça (que agora vemos retomada) de que era possível branquear a população brasileira através da imigração e da miscigenação, já que neste processo prevaleceriam sempre os genes da "raça superior" —a branca, naturalmente”.
            Risério conclui seu ótimo artigo afirmando o óbvio: “Se a mestiçagem diminui a população negra, também diminui a população branca. É curioso que "racistas científicos" e racialistas atuais acreditem no contrário, que a miscigenação branqueia, mas não escurece. A verdade é que o processo biológico não é (nem poderia ser) de mão única, privilegiando magicamente os brancos. A verdade é que, se um dia não houver nenhum negro no Brasil, também não haverá nenhum branco. E assim me vejo na obrigação de repetir aqui uma observação (óbvia) que já fiz inúmeras vezes: se for pelo caminho da miscigenação, o genocídio do negro será inseparável do suicídio do branco.”  
            Vale a pena ler todo o artigo de Antonio Risério, para compreender melhor o que estampa a faixa dos manifestantes. Mas é difícil de acreditar...