terça-feira, 12 de setembro de 2017
Linda capa
Este blogueiro curte capas de livros e sem qualquer modéstia afirma que já produziu o astronômico número de 4 capas. Por isso reproduz esta nova edição do Evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, com belíssima capa da Alfaguara. Parabéns Alfaguara.
Educação no brejo
Deu no Estadão:
“Metade dos brasileiros adultos (entre 25 e 64
anos) não concluiu o ensino médio. O número é mais do que o dobro em
relação à média (22%) dos países da Organização para Cooperação do
Desenvolvimento Econômico (OCDE), que traz nesta terça-feira, 12, um estudo
comparativo sobre índices educacionais entre 41 países, o Education at
a Glance. Além disso, 17% não terminaram nem mesmo o ensino fundamental,
ante 2% na média da OCDE. Os dados, divulgados nesta terça-feira, 12, se
referem ao ano de 2015.”
Este blogueiro não tem mais forças para comentar
essas coisas, apenas dá a notícia do jornal.
Manacá
manacá florido
esperança no jardim
em tempo de seca
Foto: A.Vianna, set 2017.
(Clique na foto para ampliar.)
(Clique na foto para ampliar.)
Mabecos em assembleia
Com o título espetacular Os cachorros selvagens que
votam em assembleia, Javier Salas publica interessantíssima reportagem para El País
(11 SET 2017).
Os mabecos, que vivem na África, são uma
espécie selvagem da família dos cachorros.
São animais muito sociáveis e saem em grupo para caçar. Eles contam com líderes
que, pela hierarquia, alimentam-se da caça antes dos demais. Mas não há um poder
absoluto dos membros dominantes do grupo.
Os mabecos, antes de começarem a se
movimentar em grupo ou saírem para caçar, realizam reuniões vibrantes,
“altamente ritualizadas”, com enorme importância social, “porque servem para representar
a unidade como bando”. Porém, apenas um terço das reuniões terminam com o grupo
saindo para caçar, o que intrigava os pesquisadores.
Afirma Salas: “Os cientistas da
Botswana Predator Conservation Trust monitoraram exaustivamente 68 desses
encontros, em cinco bandos diferentes, para chegar a esses sinais ocultos. E
depois de revisar as gravações e cruzar dados com o resultado das reuniões,
surgiu uma conclusão que, dizem, lhes pareceu inacreditável. Os mabecos se
reúnem em forma de assembleia: votam se estão de acordo com partir ou se
preferem ficar mais tempo ali.”
(Fico assombrado com a disciplina e
determinação desses cientistas, toda uma vida a estudar o comportamento de cães
selvagens na África!!! Graças a eles avança a Ciência.)
Os animais usam uma forte exalação pelo
nariz, um tipo de “espirro sonoro”, para manifestar sua posição. Eles correm
juntos, grunhem, levantam nuvens de pó, porém apenas “o número de espirros ouvidos em uma reunião era
indicativo de seu resultado”. (Coiotes, cães domésticos e chacais,
arfam, roncam e bufam para se comunicar.)
Dizem os cientistas políticos que “os
mabecos dominantes do bando têm mais poder de barganha, mas esse sistema de
votação oferece um contrapeso político para que nem sempre imponham seu
critério (falham um quarto das vezes) e para que a classe baixa mabeca possa
ter sucesso em suas convocatórias.”
Os gorilas de
montanha, a partir de grunhidos, usam um sistema parecido. Os suricatas, as
abelhas melíferas e os macacos-prego também votam as saídas coletivas.
Salas propõe
que os especialistas em
animais se deixem ajudar por sociólogos, porque as semelhanças de comportamento
são importantes. É um tipo de Evolução das Espécies ao contrário: o que já sabemos dos humanos pode ser aplicado aos animais.
Mas estamos
aprendendo sempre com nossos irmãos.
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Suzete apaixonada
Querido André,
nossa correspondência anda rareando, não por falta de
carinho, que sobra o carinho que sinto por você, mas é essa correria boba de
todo dia que me ocupa com inutilidades e grosserias que não levam a lugar
algum, apenas tiram o sossego da gente, sossego que preciso para sentar, tomar
da caneta, ajeitar o bloco de papel de cartas, limpar a cabeça, e começar a
escrever a você.
Pronto, comecei!
E começo por assunto de
sua preferência, a Literatura. (Apendi com você a escrever Literatura, Educação,
Evolução das Espécies etc, sempre com maiúsculas: sinal de respeito!) Estou
lendo romance do Amós Oz que tem o título mais bonito do mundo: Rimas da vida e
da morte. Quando vi o livro na prateleira pensei que tratava de poesia, mas é
prosa, e da boa. Já faço parte do fã clube do Oz, torcendo para que ele ganhe o
Nobel, em vez de algum tocador de viola besta por aí.
Mas o que eu queria
comentar, cá entre nós, é que você publicou um microconto no Louco por
cachorros falando da bunda de uma garçonete. Será que você também está lendo as
Rimas? Enquanto aguarda a hora da conferência, o escritor entra num botequim,
pede um café e repara na bunda da garçonete. Coincidência? Pode ser...
Mas é assim mesmo, tudo
que a gente lê fica girando na cabeça da gente, e sai de diversas formas, até
na forma de um ótimo microconto.
Pena que eu não tenho
com quem conversar sobre essas coisas, André. No salão onde trabalho ninguém lê
nada, nunca ouviram falar de Amós Oz. Gostam mesmo é de Caras e fofocas.
Pois fiquei conhecendo
um médico daqui da cidade – depois conto como isso aconteceu – que diz que no
meio onde vive é a mesma coisa, ninguém lê nadinha de nada. Será verdade,
André? Doutores! Se uma pobre cabeleireira como eu adora ler, por que gente educada
como os médicos não lê? (Estou concordando o verbo ler com gente educada; está
certo isso?) Sempre foi assim?
Ou a coisa está piorando? Ontem, no jornal, li a crônica de um colunista famoso, que às tantas diz que o Saramago é "muito chato". Pode isso? Opinião dele, claro que pode, mas fico pensando se ele é que não conseguiu penetrar na arte do português. Então não precisava confessar.
Vamos ao que interessa. Doutor T. apareceu no
salão para cortar cabelo e outra não poderia atendê-lo senão eu, a única que
corta cabelo de homem – e gosta! Ainda antes de se sentar, ele bateu o olho no
livro do Oz sobre o balcão e, surpreso, perguntou se eu gostava de ler. Pronto:
a conversa enveredou, porque ele adora ler e escrever, até já publicou um livro
de contos, e quando soube que eu também escrevo, T. enlouqueceu!
(Por falar em contos, estou escrevendo um conto que
espero seja publicado no Louco, se você aprovar, feitas todas as correções
que você achar necessárias. Combinado? Ainda estou procurando um pseudônimo par
assinar o texto. Pena que o Nelson já tenha se utilizado de Suzana Flag...)
Desquitado, educado, com
uma cabeleira de fazer inveja ao Javier Bardem (que eu amo de paixão!), nos
seus saudáveis 50 anos, leitor e escritor, T. balançou a Suzete, você acredita,
André? Mas estou para descobrir se ele é mais um desses mulherengos filhos da
puta que comem e largam. Isso dá medo numa mulher, sabe. Muito medo. Ninguém
conhece ninguém, mesmo depois de longa convivência. Imagine então de supetão,
você corta o cabelo do cara, ele te dá uma cantada em alto estilo – a
Literatura como isca – você fica sem-pai-nem-mãe, divagando, as pernas bambas,
viajando, a cabeça a rodar, delirando, meu deus!, alucinando, e aí... se fode.
Por que não nasci homem?
Querido André, tenha
paciência comigo. Desculpe o desabafo. Carta serve também para desabafar, não é
mesmo? É a tal escrita terapêutica de que você tanto fala! Mas eu precisava
falar sobre T., ou poderia parecer uma traição a você, meu amigo. Vamos ver no
que vai dar, se é que vai dar...
E ainda nem perguntei
por você! Recuperando-se do atropelamento? Espero que sim. Responda logo, com
notícias sobre você.
Da sempre sua,
Suzete.
P.S.: adoro isso de p.s. numa cartinha. Fica tipo chique. Para falar de
bobagem: encontrei um livro de conteúdo duvidoso, mas lindo, caríssimo, O Livro
dos Símbolos – Reflexões sobre imagens arquetípicas, da editora Taschen. São
vários os autores. Comprei. Coisa de cabeleireira. Depois escrevo mais sobre o
livro.
P.S 2: assim é demais, é vontade de continuar conversando com você.
Escrever carta para mim é isso, uma conversa, você ao meu lado, ouvindo,
falando... Mas queria perguntar se você acha que estou escrevendo um pouco
melhor. Responda sinceramente, please.
P.S.3: puta que pariu, nunca vi carta com 3 P.S.s.
A Virgem com criança e Sant'Ana
Meus quadros favoritos
Leonardo da Vinci (1510)
Interessante notar que mãe (Sant'Ana) e filha (Maria) parecem ter a mesma idade.
sábado, 9 de setembro de 2017
Neandertais, humanos como nós
A caverna de Gorham, em
Gibraltar. JUAN MILLÁS
“Há cerca de 70.000 anos, um pequeno
grupo humano, de dois ou três indivíduos, pescou alguns mexilhões, se aproximou
de um abrigo rochoso, acendeu uma fogueira e, enquanto comia os moluscos,
começou a talhar pedras. As marcas daquela cena ficaram fossilizadas,
permitindo a reconstrução por cientistas que trabalham em dois sítios
arqueológicos do Rochedo de Gibraltar, as cavernas de Vanguard e Gorham. ...aqueles
humanos não eram sapiens como nós. Como neandertais,
pertenciam a uma espécie humana diversa. Seus últimos membros viveram neste
recanto do sul da Europa. ...a arqueologia revelou que não eram hominídeos
brutos e dotados de pouca razão, como foram descritos com muita frequência, mas
seres muito semelhantes a nós, porém ao mesmo tempo diferentes, e não apenas
anatomicamente.”
Assim tem início a reportagem de Guillermo Altares para Elpaís (6 set 2017), com o título Neandertais,
a extinção dos outros humanos,
repleta de perguntas instigantes: O
fim deles estava relacionado às mudanças climáticas? A tecnologia nos torna
superiores? E, se eles desapareceram, por que ainda estamos aqui?
A definição dos neandertais
como humanos vem da capacidade deles de linguagem (tinham a mesma mutação no gene FoxP2, associada nos
humanos à fala),
além do que enterravam
seus mortos e eram solidários com aqueles que não podiam se defender. Foi
encontrado em Gibraltar um desenho geométrico que indicaria a capacidade de conceber
um pensamento simbólico.
O nome neandertais vem do vale de
Neander, na Alemanha,
onde alguns dos primeiros vestígios foram descobertos. Essa espécie humana
viveu na Europa, do extremo sul do Mediterrâneo à Sibéria, e em algumas áreas
do Oriente Médio. A maioria dos cientistas acredita que evoluíram de uma
espécie anterior de hominídeos há cerca de 250.000 - 300.000 anos.
Seu misterioso desaparecimento, há
cerca de 40.000 anos (a equipe de Finlayson discorda e acredita que os
neandertais viveram em Gibraltar até 28.000 anos atrás), coincide com a chegada
de nossa espécie, os sapiens, à Europa vinda da África.
A espécie habitou a Europa por 200.000 anos. (Nossa
civilização tem apenas 10.000 anos; Altamira foi pintada há cerca de 15.000 e a
Pirâmide de Quéops foi construída há 4.500 anos.)
Os neandertais foram capazes de
sobreviver durante todo esse tempo adaptados a condições climáticas variadas e,
às vezes, extremamente frias, mas desapareceram em um espaço de tempo relativamente
curto. É provável que a deterioração climática e ecológica tenha influenciado a
extinção.
Os homens modernos, os sapiens que
chegavam da África, entraram em contato com neandertais há cerca de 70.000 anos
no Oriente Médio.
O sequenciamento do genoma neandertal revelou
que se tratam de duas espécies diferentes, porém houve hibridações entre
neandertais e sapiens no Oriente Médio há 70.000 anos. O resultado é que
os humanos não africanos têm entre 2% e 4% de genes neandertais.
Há 150.000 anos coexistiam quatro
espécies de humanos: sapiens, neandertais, floresiensis e erectus.
E Alteres conclui sua reportagem: “Agora,
as questões que os neandertais nos colocam são diferentes, mas igualmente
significativas. Por que uma espécie desaparece? O que nos transforma em
humanos? A tecnologia nos torna superiores? E, em tempos de mudanças
climáticas, é especialmente importante nos perguntarmos até que ponto é
possível sobreviver a uma transformação drástica no meio ambiente. Aqueles
outros humanos mudaram uma vez nossa forma de ver o mundo e está acontecendo de
novo. O lugar onde sobreviveram os últimos neandertais é agora uma área de
análise no solo úmido da caverna de Gorham, onde um grupo internacional de
arqueólogos escava pacientemente, enquanto outros cientistas examinam restos
milimétricos em um laboratório. Tentam entender quem foram esses outros humanos
e, portanto, quem somos nós.”
Causa espanto - o Louco não cansa de repetir - que com tantas descobertas referentes à Evolução das Espécies, ainda haja quem fale em Criacionismo.
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