segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Além das palavras



O cinema ocupa cada vez mais lugar de destaque em nossa cultura, tanto pelos temas que aborda como pelo desenvolvimento de novas técnicas de filmagem, merecendo definitivamente ocupar o panteão das artes.
Tenho visto filmes ruins, alguns regulares, bons filmes em menor número, e poucos filmes que não nos deixam em paz, martelam em nossa cabeça como que a exigir interpretações variadas, a exigir crítica aprofundada, incluindo a observação de aspectos novos de técnica cinematográfica, um inferno! Talvez o que esses filmes peçam é que continuemos a pensar sobre eles, que conversemos sobre eles, e quando possível, escrevamos sobre eles.
Reluto, pois estou longe de ser um crítico de cinema. Porém, diante da martelação, melhor registrar a ocorrência mesmo que com singeleza: escrevo sobre Além das Palavras, do diretor Terence Davies, lançado em abril de 2017, com o título original de A quiet passion. (Ambos os títulos me parecem bem apropriados, com pequeno ganho para a construção em língua portuguesa.)
O filme conta a trajetória de Emily Dickinson (estrelada de forma magistral por Cynthia Nixon), a grande poeta americana, desde sua juventude até a morte. Ela nasceu em Amherst, Massachusetts, em 1830, saindo poucas vezes de sua cidade natal, onde faleceu em 1886, com 55 anos. Vivendo enclausurada em sua casa e presa ao conservadorismo religioso dos Estados Unidos do século XIX, Dickinson produziu uma poesia moderna, com liberdade sintática próxima do uso oral da língua, desprezando fórmulas convencionais.
O filme expressa essa vida reclusa da poeta por três características marcantes. A primeira delas é o ritmo das cenas, lentíssimas; a câmera movendo-se no teatro, do palco para o camarote e de volta ao palco, é antológica; até as carruagens quando partem, o fazem vagarosamente, como se os cavalos vivessem mesmo naquela velocidade; os passeios pelo jardim encantador, a propósito de íntimas conversas, são a passos vagarosos; as cenas  de contemplação, nem é preciso dizer, muito lentas. O recitar pausado de seus poemas completa e enfatiza esse aspecto.
A segunda característica é a repetição de certas atitudes dos atores, sempre as mesmas; Emily, depois de pedir permissão ao pai, acordava sempre de madrugada, lápis e papel na mão, sentava-se na sala e compunha seus poemas, na “melhor hora do dia”, segundo ela; e gostava de explicar, a quem quer que fosse, que aquela era a melhor hora do dia.


A terceira e mais impressionante característica é de ordem técnica: desde as primeiras cenas o diretor coloca o ator na contraluz; há sempre uma porta ou janela por trás do ator, a irradiar claríssima e intensa luz, a exigir iluminação complementar frontal, ou veríamos apenas silhuetas; a combinação desses dois tipos de iluminação oferece ao expectador visão estética única, em meu ponto de vista.
A lentidão, a repetição das ações, a luz (vida) presente lá fora, oferecem a visão perfeita do que foi a vida de Emily Dickinson. Um grande filme, portanto. Quanto a poesia de Dickinson, para mim este é um outro problema que fica para uma próxima crônica.

O convite

A foto do dia



Foto: Sarah Pripas, jul 2017, São Carlos.

Aldravia n. 64

Ao meu irmão Paulo



na
luz
fria
da
manhã
bem-te-vi



Foto: A.Vianna, ago 2017, jardim

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

tartaruga




navega em silêncio
em contraste o fundo azul
na calma do mar


Foto: Paula Vianna, Austrália, jul 2017.

Não-sonhos


                O tema é momentoso, tanto que foi motivo da crônica de Hélio Schwartsman na Folha de hoje (11/08/2017), com o espalhafatoso título Epidemia mortal.
            Trata-se da gravíssima epidemia de abuso de opioides nos Estados Unidos. Em 2015 o país registrou 52,4 mil óbitos por overdose, dos quais 33.090 tiveram como agente causador opioides legais ou ilegais.
    Os números assustam quando é feita a comparação com mortes no trânsito (35 mil) e por armas de fogo (13,2 mil). A estimativa para 2016 é de um aumento de 19%.
A atual epidemia tem início nos anos 90, quando os médicos americanos começaram a prescrever opioides (drogas inteiramente sintéticas, o que as diferencia dos opiáceos) para reduzir todo tipo de dor, o que foi um sucesso. Porém, a oxicodona e a hidrocodona não eram seguras e geraram grande número de dependentes.
            Interrompo aqui a linha de pensamentos expressos na crônica de Schwartsman e passo a relatar experiência pessoal que acabo de vivenciar, com reflexões que condizem com o tema tratado pelo jornal. Diante de quadro de dor intensa, contínua, incapacitante, causada por doença articular de quadril, foi-me prescrita a oxicodona.
     Santo remédio!
            Além de quase que abolir a dor, a ingestão da droga à noite propiciou-me sono reparador; mais que reparador, acordei com sensação de felicidade indescritível, e relatei a experiência a familiares como tendo “acordado sorrindo”! Os sonhos que tive durante esta primeira noite foram algo inédito para mim, sensações de puro prazer, paz indizível, alegria inaudita, que perduraram até o despertar, sorrindo.
            Na segunda noite de uso da oxicodona, repetiram-se estas sensações, a dor quase que desapareceu, para minha mais completa perplexidade. Não sou usuário de drogas ilícitas e portanto não posso comparar esta minha sensação com o uso de heroína, cocaína ou qualquer outra droga, pois nunca as experimentei. Porém, a comparação pareceu-me inevitável, e pode ser resumida com uma palavra informal: um barato!
            Para minha surpresa, na terceira noite não tive sonhos, tive pesadelos, que se repetiram até o dia do procedimento cirúrgico, quando interrompi o uso da droga. Não estou certo quanto a chamá-los de sonhos: mais pareciam alucinações ou delírios. Melhor classificá-los como não-sonhos, de efeito desagradável e perturbador ainda ao despertar.
            Durante a operação, foi utilizada a morfina; no pós-operatório imediato, acidentalmente, fui acometido de intoxicação pelo uso excessivo de oxiconona  (embora não tão excessivo assim, talvez potencializado pela morfina), diante de dor intratável no membro operado.
            A experiência que procuro relatar aqui, embora fragmentada, foi por mim confrontada – com espanto! – com a crônica de hoje de Schwartsman, a Epidemia mortal. Coincidência?
            Coincidência ou não, é preciso cuidado com o uso da oxicodona, alerta que deve servir aos médicos e usuários. De minha parte, estou feliz por recuperar minha lucidez, a ponto de poder voltar a escrever neste blogue, embora com certa dificuldade, confesso.



Quem paga a conta

Charge do dia



terça-feira, 1 de agosto de 2017

História de dinossauro



A história é boa, vem da Inglaterra, e merecia fazer parte de algum filme que contasse a saga dessas crianças extraordinárias. Bem, de qualquer modo, foi assim que imaginei o acontecido.
Era uma sexta-feira, 21 de julho, quando a família, residente em Essex, resolveu fazer uma visita noturna ao grande Museu de História Natural de Londres, um dos mais famosos de todo o mundo. O pai, a mãe e os dois filhos, as crianças excitadas com a novidade.
Chegando ao magnífico prédio, a grande surpresa foi a presença de uma criançada sem conta, todos participando da chamada “caça aos dinossauros”! Apenas Charlie, com 10 anos, não se juntou ao grupo: dedicou-se a ler minuciosamente TODAS as legendas dos bichos em exposição.
Até que interrompeu sua empreitada, chamou os pais e disse:
– Isso aqui está errado.
– Como errado, meu filho, estamos no Museu de História Natural de Londres! Sabe o que isso significa?
– Mas está errado. Este dinossauro não é um oviráptor. Os oviraptores caminhavam sobre duas patas e não quatro, como mostra a imagem. Esse aqui é um protocerátopo.
         Os pais resolveram não teimar com Charlie, conheciam “bem” o filho que tinham. Em entrevista a BBC, a mãe afirmou: “Charlie adora paleontologia desde que era muito pequeno e começou a ler enciclopédias quando tinha uns três anos. Tem síndrome de Asperger e, por isso, quando gosta de um assunto tenta pesquisar tudo que pode sobre o tema”.
         E Charlie foi fundo na história dos dinossauros. Os pais alertaram os responsáveis pelo museu, que, dias depois, enviaram carta ao menino, agradecendo por ter apontado a falha e elogiando seus conhecimentos. “Um porta-voz explicou que a galeria tinha sido reformada várias vezes e que houve um erro”.
        

Foto: Stefan Wermuth / Reuters



sexta-feira, 28 de julho de 2017

Aldravia n. 63




oferta
de
vida
diante
de
        e
         s
            c
             o
                m
                    b
                   r
                     o
                       s