quarta-feira, 26 de julho de 2017
terça-feira, 25 de julho de 2017
Muita dor
– O que mais lhe incomoda, João?
– Dor nessa perna, doutor.
– De 1 a 10, que nota você dá pra ela?
– Zero, pra reprovar essa filha da puta.
presença do pai
almoço servido às onze
em ponto e ai do filho
se não estivesse à mesa
às onze em ponto
mãos lavadas roupa limpa
à espera do arroz fumegante
do feijão fumegante
exigências do pai
à cabeceira da mesa
a comandar todas as coisas
ainda hoje quando destampo
a panela do arroz fumegante
sinto a presença forte
do meu pai tentando
comandar a hora do almoço
a comida bem quente
e todas as coisas
e todas as coisas
Lula amiga da Paula
"Essa é minha predileta. Foi emocionante ver essa linda lula
me olhando nos olhos, flutuando na água paradinha, tranquila e sem medo. O que
será que ela estava pensando? Que tipo de peixe desajeitado é esse que
solta bolhas?"
Paula Vianna
Austrália, jul 2017
domingo, 23 de julho de 2017
na hora de pôr a mesa éramos cinco
na hora de pôr a mesa éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
casou-se. depois o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
José Luís Peixoto,
A
criança em ruínas
(Dublinense,
2017)
sexta-feira, 21 de julho de 2017
Paula entre as baleias
Paula Vianna é mergulhadora profissional
na Austrália, junto à Grande Barreira de Corais. Especializa-se em fotografia
submarina, com fotos extraordinárias!
Leiam a declaração dela, após mergulhar
entre um grupo (cardume?) de baleias por várias horas:
“Esta foi uma das experiências mais incríveis da
minha vida, mergulhar com sete baleias Minke. Elas ficaram 7 horas nadando ao
redor do barco (o barco deixou elas aquele dia e não o contrário). Elas são
curiosas e na medida que o dia foi passando elas foram se aproximando cada vez
mais dos mergulhadores, que estavam de snorkel segurando uma corda. As baleias
passavam mirando a gente, tão perto que dava pra ver dentro dos olhos. Bebi
muita água do mar nas 3 horas e meia que fiquei na água com elas, mas só esta
experiência já valeu vir para a Austrália.”
Parabéns,
Paula!
quarta-feira, 19 de julho de 2017
Poesia chama poesia
Perdido em pensamentos o
lavrador passeia sob a chuva
por seus campos vazios, mãos
nos bolsos,
na cabeça
a colheita já plantada.
Um vento frio vem encrespar a água
entre as ervas tostadas.
Por toda parte
o mundo rola friorento para longe:
negros pomares
escurecidos pelas nuvens de março -
deixando espaço livre aos pensamentos.
Lá embaixo, além da galharia
rente
ao carreiro encharcado de chuva
assoma a figura artista do
lavrador - compondo
- antagonista
(tradução: José Paulo Paes)
***
Comentário
de José Paulo Paes sobre William Carlos Williams, publicado
no livro "Poemas" (Companhia
das Letras, 1987):
“Poeta
fundamental numa tradição de gigantes, a poesia norte-americana, em que cada
autor parece estar observando o mundo pela primeira vez e inventando a linguagem
poética (...). Dentro desta tradição, William
Carlos Williams se destaca
por sua capacidade de transformar todo assunto ou objeto em matéria poética.
Daí sua atenção toda peculiar ao fugaz e ao diminuto, ao aparentemente
desimportante, enfim.”
O poeta americano William Carlos
Williams foi abundantemente citado por Paterson, verdadeiro ídolo. (Ron Padgett
certamente gostava de WCW.)
E por falar
em “todo assunto ou objeto [é] matéria poética”, lembrei-me de Manoel de
Barros, talvez o maior de todos esses poetas aqui citados, em matéria de inutilidades poéticas:
Matéria de Poesia
Todas as
coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia
O homem que
possui um pente
e uma árvore
serve para poesia
e uma árvore
serve para poesia
Terreno de
10x20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia
Um chevrolé
gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia
As coisas
que não levam a nada
têm grande importância
têm grande importância
Cada coisa ordinária
é um elemento de estima
Cada coisa
sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral
tem seu lugar
na poesia ou na geral
O que se
encontra em ninho de joão-ferreira :
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia
As coisas
que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia
Tudo aquilo
que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia
As coisas
que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
tem muita importância para os pulmões
da poesia
- sapatos, adjetivos -
tem muita importância para os pulmões
da poesia
Tudo aquilo
que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
Os loucos de
água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre – diabo é colosso
servem demais
O traste é ótimo
O pobre – diabo é colosso
Tudo que
explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas
desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada
Tudo que
explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia
O que é bom
para o lixo é bom para poesia
Importante
sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços
As coisas
jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora
Manoel de Barros, Gramática
Expositiva do Chão (Poesia completa) - Leya 2010.
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