terça-feira, 25 de julho de 2017

Muita dor



– O que mais lhe incomoda, João?
– Dor nessa perna, doutor.
– De 1 a 10, que nota você dá pra ela?
– Zero, pra reprovar essa filha da puta.

presença do pai


almoço servido às onze
em ponto e ai do filho
se não estivesse à mesa
às onze em ponto
mãos lavadas roupa limpa
à espera do arroz fumegante
do feijão fumegante
exigências do pai
à cabeceira da mesa
a comandar todas as coisas

ainda hoje quando destampo
a panela do arroz fumegante
sinto a presença forte
do meu pai tentando
comandar a hora do almoço
a comida bem quente
e todas as coisas

Lula amiga da Paula



"Essa é minha predileta. Foi emocionante ver essa linda lula me olhando nos olhos, flutuando na água paradinha, tranquila e sem medo. O que será que ela estava pensando? Que tipo de peixe desajeitado é esse que solta bolhas?"
                           
                                                                  Paula Vianna
                                                                  Austrália, jul 2017


Guarda-chuvas

Meus quadros favoritos


Renoir

domingo, 23 de julho de 2017

na hora de pôr a mesa éramos cinco



na hora de pôr a mesa éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
casou-se. depois o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

            José Luís Peixoto,
            A criança em ruínas
            (Dublinense, 2017)

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Paula entre as baleias



Paula Vianna é mergulhadora profissional na Austrália, junto à Grande Barreira de Corais. Especializa-se em fotografia submarina, com fotos extraordinárias!
Leiam a declaração dela, após mergulhar entre um grupo (cardume?) de baleias por várias horas:

“Esta foi uma das experiências mais incríveis da minha vida, mergulhar com sete baleias Minke. Elas ficaram 7 horas nadando ao redor do barco (o barco deixou elas aquele dia e não o contrário). Elas são curiosas e na medida que o dia foi passando elas foram se aproximando cada vez mais dos mergulhadores, que estavam de snorkel segurando uma corda. As baleias passavam mirando a gente, tão perto que dava pra ver dentro dos olhos. Bebi muita água do mar nas 3 horas e meia que fiquei na água com elas, mas só esta experiência já valeu vir para a Austrália.”

            Parabéns, Paula!

Escudos

A foto do dia


Protestos em Caracas ontem.

Foto: Ronaldo Schemidt / AFP

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Poesia chama poesia


 William Carlos Williams


O LAVRADOR

Perdido em pensamentos o
lavrador passeia sob a chuva
por seus campos vazios, mãos
nos bolsos,
na cabeça
a colheita já plantada.
Um vento frio vem encrespar a água
entre as ervas tostadas.
Por toda parte
o mundo rola friorento para longe:
negros pomares
escurecidos pelas nuvens de março -
deixando espaço livre aos pensamentos.
Lá embaixo, além da galharia
rente
ao carreiro encharcado de chuva
assoma a figura artista do
lavrador - compondo
- antagonista

(tradução:  José Paulo Paes

***

Comentário de José Paulo Paes sobre William Carlos Williams, publicado no livro "Poemas" (Companhia das Letras, 1987):
“Poeta fundamental numa tradição de gigantes, a poesia norte-americana, em que cada autor parece estar observando o mundo pela primeira vez e inventando a linguagem poética (...). Dentro desta tradição, William Carlos Williams se destaca por sua capacidade de transformar todo assunto ou objeto em matéria poética. Daí sua atenção toda peculiar ao fugaz e ao diminuto, ao aparentemente desimportante, enfim.”
O poeta americano William Carlos Williams foi abundantemente citado por Paterson, verdadeiro ídolo. (Ron Padgett certamente gostava de WCW.)
            E por falar em “todo assunto ou objeto [é] matéria poética”, lembrei-me de Manoel de Barros, talvez o maior de todos esses poetas aqui citados, em matéria de inutilidades poéticas:


Matéria de Poesia

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10x20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia 

As coisas que não levam a nada
têm grande importância 

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira :
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
tem muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre – diabo é colosso

Tudo que explique
     o alicate cremoso
      e o lodo das estrelas
serve demais da conta

Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
     a lagartixa de esteira
     e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom  para poesia 

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
     tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
      sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora 

Manoel de Barros, Gramática Expositiva do Chão (Poesia completa) - Leya 2010.