quarta-feira, 19 de julho de 2017

Poesia chama poesia


 William Carlos Williams


O LAVRADOR

Perdido em pensamentos o
lavrador passeia sob a chuva
por seus campos vazios, mãos
nos bolsos,
na cabeça
a colheita já plantada.
Um vento frio vem encrespar a água
entre as ervas tostadas.
Por toda parte
o mundo rola friorento para longe:
negros pomares
escurecidos pelas nuvens de março -
deixando espaço livre aos pensamentos.
Lá embaixo, além da galharia
rente
ao carreiro encharcado de chuva
assoma a figura artista do
lavrador - compondo
- antagonista

(tradução:  José Paulo Paes

***

Comentário de José Paulo Paes sobre William Carlos Williams, publicado no livro "Poemas" (Companhia das Letras, 1987):
“Poeta fundamental numa tradição de gigantes, a poesia norte-americana, em que cada autor parece estar observando o mundo pela primeira vez e inventando a linguagem poética (...). Dentro desta tradição, William Carlos Williams se destaca por sua capacidade de transformar todo assunto ou objeto em matéria poética. Daí sua atenção toda peculiar ao fugaz e ao diminuto, ao aparentemente desimportante, enfim.”
O poeta americano William Carlos Williams foi abundantemente citado por Paterson, verdadeiro ídolo. (Ron Padgett certamente gostava de WCW.)
            E por falar em “todo assunto ou objeto [é] matéria poética”, lembrei-me de Manoel de Barros, talvez o maior de todos esses poetas aqui citados, em matéria de inutilidades poéticas:


Matéria de Poesia

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10x20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia 

As coisas que não levam a nada
têm grande importância 

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira :
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
tem muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre – diabo é colosso

Tudo que explique
     o alicate cremoso
      e o lodo das estrelas
serve demais da conta

Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
     a lagartixa de esteira
     e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom  para poesia 

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
     tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
      sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora 

Manoel de Barros, Gramática Expositiva do Chão (Poesia completa) - Leya 2010.


terça-feira, 18 de julho de 2017

A poesia de José Paulo Paes


A esperança: flor
seca mas (acaso
ou precaução?) guardada
entre as páginas de um livro.

A incerteza: frio
de faca cortando
em porções cada vez menores
a laranja dos dias.

O amor: latejo
de artéria entupida
por onde o sangue se obstina
em fluir.

A morte: esquina
ainda por virar
quando já estava quase esquecido
o gosto de virá-las.


José Paulo Paes
Do livro Prosas seguidas de Odes Mínimas
(1922)

***

in memorian

estivesse vivo josé paulo paes
eu lhe enviaria um e-mail
sugerindo que desse o nome ao poema
a laranja dos dias
verso mais lindo
original
saboroso 
como a fruta doce
para dias tão amargos
de artérias entupidas
de sangue impedido de fluir
de facas cortando o frio
de flores secas perdidas
entre folhas esquecidas
de livros dormindo nas estantes
– esperança perdida –
a morte sempre à espreita
na virada de uma esquina
da vida.


***

Em tempo: José Paulo Paes traduziu Ron Padgett; então fui a Paes, cuja poesia me parece superior à do americano, embora também fale das coisas cotidianas da vida, como a laranja dos dias. Presto a ele minha singela homenagem.





Ainda sobre Paterson



Another One
By Ron Padgett 

When you’re a child
you learn
there are three dimensions:
height, width, and depth.
Like a shoebox.
Then later you hear
there’s a fourth dimension:
time.
Hmm.
Then some say
there can be five, six, seven…
I knock off work,
have a beer
at the bar.
I look down at the glass
and feel glad.


Este é um dos poemas escritos por Ron Padgett para o filme Paterson, dirigido por Jim Jarmusch.

Aprendizes



Apaixonaram-se durante as aulas de karatê. Depois da pancadaria, terminavam na cama as lições do amor.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

No fundo do mar

A foto do dia


Na Grande Barreira de Corais!


Foto: Paula Vianna, jul 2017, Austrália

Olimpíada Internacional de Matemática

Começa nesta segunda-feira (17) a 58ª edição da Olimpíada Internacional de Matemática (IMO, na sigla em inglês). Pela primeira vez será realizada no Brasil, no Rio de Janeiro. Vão se reunir 623 estudantes do ensino médio de 111 países. A competição termina no próximo domingo.



Os estudantes brasileiros George Lucas Diniz Alencar, Bruno Brasil Meinhart, Pedro Henrique Sacramento de Oliveira, João César Campos Vargas, André Yuji Hisatsuga, Davi Cavalcanti Sena


Foto: Divulgação/ Impa