quinta-feira, 13 de julho de 2017

País dividido

A foto do dia


O país permanece dividido, agora diante da condenação do ex-presidente. Os que pensam A continuam pensando A, e os que pensam B continuam pensando B. Uma chatice.

Foto: capa da Folha de S.Paulo de hoje

Summer at the cottage

Meus quadros favoritos


Sergei Vinogradov (1869-1938)

Cheiro de velhice

            
             Assídua leitora do Louco por Cachorros, que não me autorizou revelar seu nome, enviou-me por e-mail comentário sobre minha Resposta a Suzete, falando de música sertaneja. (http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2017/07/respondo-suzete-falando-de-musica.html)
            De música sertaneja, nem uma palavra digna-se proferir minha assídua leitora! Ela está certa: para que perder tempo com ninharias?
            Elogia De amor e trevas, que leu em inglês: “livro magnífico”, diz ela, pessoa educada e de bom gosto.
            E conclui a mensagem com a seguinte observação:
           
“…agora, tem um trecho na sua carta que eu não concordo, porém respeito a sua opinião:

Sabe Suzete, a velhice traz bem isso com ela: “as pessoas sempre nos abandonam quando percebem que não podem mais obter nenhuma vantagem, prazer, interesse ou pelo menos um bom momento de nós”. Difícil obter alguma coisa de um velho que não seja o cheiro da velhice. Se não há vantagem alguma, melhor a distância."

Eu convivi a maior parte dos 20 anos que morei no [meu país] com meu avô (que continua em primeiro lugar no topo da lista das pessoas mais incríveis que eu conheci na vida até este momento) e nunca senti o cheiro da velhice, cheirava mais sabedoria, cigarro e chá preto forte (acredito que esse seja o motivo do meu apreço pelo cheiro do cigarro e chá preto forte!!) ...bons velhos tempos.”

            Gostei tanto dessa resposta que resolvi publicá-la no Louco, mesmo sem a autorização da autora. (Omiti o país em que morou, para evitar que possa ser identificada.)
Trata-se de pura poesia:

velhice
cheira sabedoria
cigarro
chá preto forte

Daí meu desejo de reproduzir aqui este poema!
Além do que este avô deve ser mesmo muito especial. (Algum espírito de porco poderia dizer que ele fuma e bebe chá preto forte para disfarçar o cheiro da velhice, e esta seria então uma evidente manifestação de sabedoria. Não é o caso, certamente.)
            Voltemos às pessoas comuns. A velhice não traz sabedoria, necessariamente. O acúmulo de experiência oferecido pelo passar dos anos pode ser capaz apenas de encher um quarto-de-despejo, entulhado de quinquilharias, bugigangas, ninharias, coisas mofadas, objetos inúteis, antigos brinquedos quebrados de uma infância remota e esquecida, roupas sujas, sapatos furados, curativos tintos de sangue, amores perdidos, órgãos destroçados, fragmentos de unhas cortadas, tufos de cabelos seculares, lágrimas lágrimas lágrimas, vasilhas transbordando lágrimas oriundas de mazelas do corpo e da alma, fezes e urina espalhadas pelo chão, guimbas amarelecidas e fétidas, garrafas vazias, taças cheirando a vinho passado, recibos inúteis, contas pagas de água luz telefone, coisas que não servem para nada, a entupir esse quarto de despejo que ocupa descomunal espaço dentro do eu-velho. Esse quarto tem cheiro de velhice.
            A maioria dos velhos gosta de falar! (Alguns preferem escrever...) Eles falam de tudo, principalmente de um passado que já não interessa a quem os ouve, que ouve por educação, compaixão mais raramente, exercício de paciência na maior parte das vezes. No próximo encontro, as mesmas velhas notícias, esquecidos de que já foram contadas mil vezes. O velho é chato. Inconveniente muitas vezes.
            Melhor o velho calado, aquele que poupa o interlocutor, mesmo que não o faça intencionalmente. Não fala porque o aparelho de pensar já não funciona bem, e se não pensa não pode falar. Antes assim. Quando não se torna rabugento...
            Há exceções: são os velhos especiais! O avô de minha assídua leitora é uma dessas pessoas: ele não acumulou entulho, desenvolveu sabedoria. A neta, uma privilegiada.

            

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Palhaçada



            A ocupação da mesa diretora do Senado ontem por algumas senadoras por mais de 6 horas pode nos fazer supor que a democracia esteja ameaçada. Vejamos o que diz sobre isso o nosso articulista filósofo Hélio Schwartsman:

“Se você quer que a democracia faça com que todos os agentes políticos se comportem como lordes ingleses, então nossas instituições são um fracasso. Se você, mais modestamente, espera apenas que elas disciplinem os conflitos para evitar que degenerem em guerra civil, até que o sistema vem dando conta do recado.”

            Bem, é verdade que ainda não nos tornamos uma Venezuela. Depois de várias horas, após cenas deploráveis das senhoras comendo (grosseiramente) suas marmitas na mesa do Senado, elas apearam de seus acentos pacificamente, a sessão teve prosseguimento, a reforma trabalhista foi aprovada, e foram todos para o conforto de suas casas, que faz frio em Brasília nesse mês de julho de 2017.
            Nada de guerra civil, portanto.
            Segundo o próprio Schwartsman, foi apenas uma “palhaçada”.
            Mesmo assim, o país continua dividido, e não há dúvida de que muitos haverão de aprovar a palhaçada das senhoras Senadoras da República.
De minha parte, espero que elas não sejam reeleitas nas próximas eleições. Assim funciona a democracia.




Vergonha nacional

A foto do dia


Senado desmoralizado!

Foto: André Dusek / Estadão

terça-feira, 11 de julho de 2017

Fotoabstração N.11





Aldravia n.62





singelas
coloridas
junto
à
grade
cinza


Foto: AVianna, jul 2017, jardim.

Respondo a Suzete, falando de música sertaneja


Minha querida Suzete,

pensou que eu havia morrido, não é? Pois estou vivinho da silva, meio atrapalhado com o aparelho locomotor, mas ainda bem que o aparelho de pensar (precário) continua funcionando. Desculpe a demora em lhe responder.
            Desde que recebi sua última carta, após a fatídica visita a Capelinha do Chumbo (que nome, heim!), desejo manifestar minha solidariedade a você e meu protesto contra a tal música sertaneja.
            O nosso Brasil varonil sempre se destacou pela qualidade de sua música popular, especialmente após o surgimento da Bossa Nova. Enquanto esta mesma música popular parece estagnada em países como a Itália, França, Portugal, prosperou em nossa terra, repleta de bons compositores. Temos o reconhecimento internacional neste quesito, coisa rara de se ver.
            Pois não é que agora vem essa bendita sertaneja atormentar as orelhas da gente?! Que coisa horrível, Suzete! As letras são de uma banalidade absoluta, o que permite sejam decoradas com facilidade, e assim a plateia pode cantar junto, o que agrava nosso tormento auditivo. As músicas de uma pobreza incrível, ridículas, próprias para serem acompanhadas por músicos incompetentes. (Gostei do seu traaammm-traaammm-traaammm... Onomatopeia perfeita!)
            Minha questão é: será que isso vai tomar conta da música popular brasileira? O país afunda econômica e politicamente; nossa música está afundando junto?
            Me acompanha desde sempre um aforismo permanente, que aplico a quase tudo na vida, desde aprender a comer ostras até apreciar o quarteto para cordas opus 132 em lá menor de Beethoven, que reza:

Tudo Na Vida É Uma Questão De Educação.

            Enquanto nossa Educação desce ladeirabaixo, a música sertaneja sobe aos palcos e floresce de ponta a ponta no país. Só faltava essa!
            Suzete, estou com você, solidário no seu sofrimento em Capelinha do Chumbo. Porém, aproveito esta cartinha para lhe recomendar leitura bem mais edificante, com a qual estou maravilhado, como que envolvido pela nuvem mágica da Grande Literatura, mesmo após o término do livro, que não me sai da cabeça. Se você leu os últimos posts do Louco, saberá que estou a falar De amor e trevas, do grande Amós Oz.
            São 600 páginas de muito amor e alguma treva! Impossível não se emocionar, Suzete. Destaco para você um pedacinho:

“Uma vez, quando eu tinha sete ou oito anos de idade, estávamos sentados no penúltimo banco de um ônibus a caminho do posto de Kupat Cholim ou de uma sapataria, minha mãe me disse que embora os livros possam mudar ao longo dos anos, assim como as pessoas, a diferença está em que, enquanto as pessoas sempre nos abandonam quando percebem que não podem mais obter nenhuma vantagem, prazer, interesse ou pelo menos um bom momento de nós, um livro nunca vai nos abandonar. ...Eles nos esperam até por dezenas de anos. Não se queixam. Até que numa noite, quando de repente você vier a precisar de um deles, mesmo que seja às três da madrugada, e mesmo que seja um livro que você tenha desprezado e quase apagado de seu coração por muitos e muitos anos, ele não vai decepcioná-lo – descerá da prateleira e virá conviver com você num momento difícil.”

            Que boa lembrança o menino Amós traz da mãe dele! Que bom conselho!
            Sabe Suzete, a velhice traz bem isso com ela: “as pessoas sempre nos abandonam quando percebem que não podem mais obter nenhuma vantagem, prazer, interesse ou pelo menos um bom momento de nós”. Difícil obter alguma coisa de um velho que não seja o cheiro da velhice. Se não há vantagem alguma, melhor a distância.
            Termino por aqui, Suzete, com o mesmo carinho que sempre senti por você.
Do seu


                                                andré