segunda-feira, 26 de outubro de 2015

íris azuis



manhã de surpresas
abrem-se as flores azuis
com a noite de chuva


Foto: A.Vianna, out 2015, jardim.

alegria no céu



– cientistas encontram álcool e açúcar em cometa.

– se a gente leva o limão, está pronta a caipirinha...

sábado, 24 de outubro de 2015

Outros haicais de Alice Ruiz


Em seu novo livro, Outro silêncio: haikais (Boa Companhia, 2015), Alice Ruiz S prossegue na exitosa divulgação deste tipo de poesia, que segundo a própria autora, tem aceitação cada vez maior em nosso país.
            Na apresentação do livro, ao referir-se à filosofia do haicai (prefiro esta grafia à da autora), Alice afirma:

“Basicamente se descreve uma cena observada na natureza. Essa cena é tão rica de significados que, em alguns casos, ela pode nos oferecer um bom haikai mesmo que o espírito não tenha se depurado para recebê-lo. Mas, nesse caso, podemos deixá-lo escapar, e é por isso que precisamos nos aprimorar para virar bons instrumentos de fazer haikai.”

            A ideia da autora é interessante e bastante original se aplicada à poesia. W. R. Bion (1897 – 1979) afirmou que os pensamentos existem previamente, e permanecem à espera de alguém que os pense. Em outras palavras, podemos supor que os haicais estão prontos na natureza. Se nosso aparelho de pensar – que ela chama de “instrumento de fazer haicai” – está habilitado para captá-los, então eles podem ser registrados no papel. É mais uma questão de educar o espírito.
            Prossegue Alice:

“É assim que se sentem aqueles que veem o haikai como uma das várias práticas zen. Não o zen que virou moda. Ouve-se falar aleatoriamente de estilo zen, penteado zen, decoração zen e uma série de outras “banalidades” zen. Esse é apenas um truque do sistema para neutralizá-lo, pois percebeu o quanto ele pode ser subversivo, na medida em que nos torna livres do “eu” – ou “ego”, se preferirem – e de seus desejos.”

            A grande maioria das composições do livro não obedece à métrica tradicional do haicai observada no Brasil, com 5 – 7 – 5 sílabas em cada um dos três versos. O que é indispensável para a autora, além dos três únicos versos, é que o haicai tenha haimi, “palavra de difícil tradução mas que se convencionou verter para “sabor de haikai”. Para percebê-lo, é preciso que o haijin e o leitor estejam em perfeito silêncio interior.”

            E conclui Alice Ruiz S, de forma poética:

“Talvez a poesia de qualquer parte do mundo seja, apenas, outro silêncio.”

            Eis alguns haicais do livro, todos sem título, como manda a tradição japonesa.

silêncio na mata
a mariposa pousa na flor
outro silêncio



coquinho maduro
volta a ser verde
cacho de maritacas



pé da serra
na barra da calça
respingos de barro



folha seca
voa de volta ao galho
pé de vento


Em suma, Alice recomenda a todos nos a prática do haicai. Em silêncio!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A fuga diária

A foto do dia



Refugiados, escoltados pela polícia, passam pela Eslovênia.

Foto: Darko Bandic, AP (O Estado de S. Paulo)

arquitetura

da série
anavilhanas




no chão arenoso
cresce a árvore gigante
outra arquitetura



Foto: A.Vianna, out 2015.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

As ideias de um ministro

Este blog não tem se ocupado da política nacional, mesmo em tempo de crise, a não ser através de algumas poucas charges e fotografias aqui reproduzidas, mais pelo conteúdo humorístico das mesmas do que por seu conteúdo. Entretanto, a indignação do blogueiro atingiu níveis insuportáveis ontem à noite, e hoje pela manhã ele resolve dar vazão a sua enorme frustração. Ingenuidade do Louco? Talvez sim.
O país mergulhado em gravíssima crise político-econômica, o que se espera de um Magistrado, de um Ministro do Supremo Tribunal Federal, ao menos no campo das ideias?
A pergunta deve ter sido formulada por um bom número de telespectadores, pouco antes de ter início o reputado programa de entrevistas Roda Viva, ocorrido ontem (19/10). Diga-se de passagem, o programa é um dos poucos da televisão brasileira com duração suficiente (uma hora e meia) para que ideias possam ser debatidas com folga razoável.
O que se viu foi um ministro do stf esconder-se atrás de uma proposta por ele mesmo classificada de utópica, a tríplice renúncia da presidente da república, do seu vice e do presidente da câmara dos deputados (assim mesmo, tudo com minúsculas). Segundo o ministro, a ideia ampara-se na possibilidade de um gesto de grandeza por parte destes três brasileiros!
Porém, cada um só dá o que tem! Não se pode esperar grandeza de espírito de quem coloca interesses pessoais ou partidários acima dos interesses da nação.
Com isso, o ministro jogou para a plateia: manifestou-se favorável à saída da presidente – o mesmo que deseja a maioria da população hoje –, porém sem  comprometer-se com o processo jurídico necessário para tanto, pois sua proposta é improvável, inviável, impossível mesmo. Há indícios de desonestidade intelectual nisso.
Há mais: clara manifestação narcísica por parte do ministro, que posa de homem ético, equilibrado, acima do bem e do mal, que crê religiosamente na superioridade moral do ser humano, capaz de tais gestos de grandeza. Em que mundo vive este ministro? Enclausurado em seu próprio mundo, protegido por uma toga que lhe confere a onisciência?
A decepção dos telespectadores só não foi completa porque a atuação da bancada de inquiridores, formada principalmente por jornalistas, rebateu com veemência as posições do ministro.

Um tanto aliviado com este curto desabafo, reconheço minha ingenuidade. Por que esperar um gesto de grandeza por parte do ministro?