sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Calamidade!

Deu no Estadão de hoje:

“SÃO PAULO - Quase seis em cada dez alunos (57%) de 8 anos no Brasil não dão conta de resolver problemas simples de Matemática. Entre as crianças dessa idade, 22% terminam o 3.º ano do ensino fundamental sem conseguir ler um texto. Isso é o que mostram os resultados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) 2014, divulgada nesta quinta-feira, 17, pelo Ministério da Educação (MEC). Segundo o ministro Renato Janine Ribeiro, essa realidade “envergonha” o País.” 

Afirmou o Ministro:

“Nós não só queremos que todos saibam do tamanho do drama como queremos denunciá-lo. Tudo isso é inaceitável em termos sociais”.

Em Escrita, outra competência medida pela ANA, 34,5% dos estudantes estavam em patamares inadequados.

Em Leitura, as Regiões Norte e Nordeste têm 35,06% e 35,56% dos alunos no pior nível. No Sudeste e no Sul, essas taxas são de 13,05% e 11,94%.

Em Matemática, 57% dos alunos de 8 anos estão nos níveis 1 e 2 - o que configura um baixo desempenho, dominando apenas a primeira das operações - a adição. 

“No ciclo de alfabetização, a falta de interpretação de texto impede que os alunos avancem no domínio dos cálculos. Esses problemas, dizem especialistas, acompanham o aluno em toda a trajetória escolar. Nos anos seguintes, as crianças terão problemas para aprender Ciências ou Geografia por falta dessas habilidades básicas.” 

            Nada pode ser pior para o país do que este quadro. Porém, é preciso admitir um avanço:

O Ministro da Educação agora diz-se envergonhado!




quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O psicanalista e o cinema

Contardo Calligaris, em sua crônica de hoje na Folha de S. Paulo (17/9), escreve sobre o filme Que Horas Ela Volta? Diz ele: “Gostei muito do novo filme de Anna Muylaert e admirei as performances de Regina Casé e de Camila Márdila. Também achei bem-vinda a escolha do filme para representar o país no Oscar, porque "Que Horas Ela Volta?" é um retrato tocante e fiel de nossa sociedade hoje.”
            Este blogueiro concorda plenamente com Calligaris, e até tratou do assunto neste Louco (http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2015/08/filme-bom.html). Concorda até aqui, pois a partir desta sucinta introdução o articulista revela todo o enredo, destrincha o filme tintim-por-tintim (puta pleonasmo!), analisa cada personagem em detalhes, apresenta interpretações “psicanalíticas” dos personagens e da vida familiar retratada no filme, enfim, entrega de bandeja, mastigado, Que horas ela volta? para o leitor preguiçoso.
Todos temos o direito de escrever sobre o que bem entendermos, é verdade, mas o que impressiona no caso é o furor interpretativo!
            Porque quem gosta de cinema há de preferir conhecer a história quando vai ao cinema, ao ver o filme, e depois pensar sobre ele, conversar sobre ele, ter ideias próprias sobre o que viu, se é capaz de pensar.
            Interessante que, a certa altura de sua crônica, Calligaris fala em “infantilização”:

“A infantilização de todos pela babá-empregada é um exemplo do que Hegel observava sobre o mestre e o escravo: à força de ser servido, o mestre desaprende a lidar com o mundo, torna-se um inútil. O mestre antigo, ao menos, de vez em quando, saía pelo mundo desafiando a morte: a coragem o qualificava como mestre. O mestre moderno, nem isso: ninguém entende mais por qual mérito ele continuaria sendo "mestre".

            Não é exatamente isso que o cronista está fazendo com seus leitores, infantilizando-os? Não seria possível comentar o filme sem revelá-lo completamente ao leitor? Ou faltou assunto e é preciso entregar a longa crônica da semana? Talvez tenha faltado uma advertência preliminar: esta crônica deve ser lida apenas por aqueles que já viram o filme!
            Na pior das hipóteses, pouco provável em se tratando de profissional respeitadíssimo como Calligaris, configura-se a possibilidade do paternalismo por parte do analista, diante de seus pacientes. Este é um risco concreto que correm analista e paciente, numa sessão de análise, em determinadas situações em que o terapeuta não suporta a dificuldade emocional (o afeto, no sentido psicanalítico do termo) do momento, e atua, inconscientemente.
            O cinema é assunto recorrente para conversa nas sessões de análise, o que é muito bom. Cabe ao analista perceber o que pertence realmente ao paciente que traz determinado tema, e não perder-se em considerações sobre o filme em si. Mas isso são outros quinhentos... Calligaris não pretende analisar seus leitores, apenas escreve sua crônica semanal.
Ao ir ao cinema – sempre um bom programa, quando o filme é bom! – que cada um veja o filme à sua maneira.




Migrantes na Hungria

A foto do dia



Foto: Sergey Ponomarev / NYT

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Ainda estou aqui



Os idiotas, felizmente uma minoria, que ainda uivam clamando pelo retorno dos militares ao poder, diante da crise que vivemos, deveriam ler o novo livro de Marcelo Rubens Paiva, Ainda estou aqui (Alfaguara, 2015).
            Nesse grupo de idiotas, aqueles que conhecem a história do pai do autor, Rubens Paiva, talvez não tolerem a leitura e não comprem o livro, pois o tema lhes é vedado pela própria consciência. Os idiotas que não conhecem a história de Rubens Paiva, caso leiam o livro, ficarão surpresos com uma outra história, a da mulher do ex-deputado, mãe do autor, Eunice Paiva. Que mulher!
            Referindo-se à mãe, Marcelo afirma:

“Em 1985, ela disse numa palestra que ouviu de tudo, muitas versões e mentiras, mas que a única coisa que tinha certeza era de que Rubens estava morto, mas uma morte não oficial. Dizia sempre:
– A tática do desaparecimento político é a mais cruel de todas, pois a vítima permanece viva no dia a dia. Mata-se a vítima e condena-se toda a família a uma tortura psicológica eterna. Fazemos cara de fortes, dizemos que a vida continua, mas não podemos deixar de conviver com esse sentimento de injustiça.”

            O livro trata, portanto, da saga dessa família, os Paiva, acrescida de terrível infortúnio: Eunice foi acometida pela Doença de Alzheimer.
            A escrita não é refinada, mas é ágil, agradável, prende o leitor, traz o estilo do Marcelo, autor do consagrado Feliz Ano Velho. Às vezes a escrita precisa ser mesmo bruta, um verdadeiro urro:

“Naquela tarde que pegamos o atestado de óbito, em 1996, vi minha mãe então chorar como nunca fizera antes. Era um urro. Não tinha lágrimas. Como se um monstro invisível saísse da sua boca: uma alma. Um urro grave, longo, ininterrupto. Como se há muito ela quisesse expelir. Pela primeira vez, me deixou falar, sem me interromper. Pela primeira vez, na minha frente, chorou tudo o que havia segurado, tudo o que reprimiu, tudo o que quis. Foi um choro de vinte e cinco anos em minutos. O rompimento de uma represa.”

            A conclusão do livro traz uma grande lição de vida. Escreve Marcelo:

“Minha mãe, aos oitenta e cinco anos, não entrou no Estágio IV, o pior de todos. Sua vida tem muitos atos. Teremos mais um. Enquanto a morte do meu pai não tem fim.”

            Não apenas os idiotas a que fiz referência no início desta crônica precisam ler o livro do Marcelo Rubens Paiva. Todos devemos lê-lo, para conhecer (ou relembrar) um pouco melhor os horrores do regime militar.

            Ditadura, nunca mais!

pontuação: quatro aldravias

                    Dando prosseguimento à prática da aldravia, uma novidade por aqui, publico neste blog o que originalmente está no Blog do Paulo (onde se pode ler também a versão em Esperanto). São 4 espetaculares aldravias, sob o título de pontuação.
              O bom poeta exercita sua poesia independentemente da forma, de um soneto a uma aldravia! Se não, vejamos:



relâmpago
ponto
de
exclamação
no 
céu
                             

pôr
do
sol
melancolia
em
reticências


sopra
uma
brisa
vírgula
no
dia


dois
pontos
o
trovão
anuncia
chuva

Autor: Paulo Sergio Viana.