quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Gabriela vai às compras

Em poucos dias Gabriela fará 5 anos, mas desde já orgulha-se muito deste assombroso feito, ao mostrar os cinco dedinhos da mão direita às pessoas que perguntam pela idade dela no supermercado, onde fomos às compras na última sexta-feira.
Ao sair do mercado fomos cercados, como de hábito, por uma legião de vendedores avulsos, oferecendo vassouras, rodos, espanadores, camarão graúdo, laranja pera e poncã, morango, abacaxi, coco, água de coco, pamonha, alho, marmitas prontas para o almoço, panos de prato, sacos de lixo, paninhos bordados para enfeite de cozinha, cada um se virando como pode...
Descarregamos as compras e entramos no carro, Gabriela no banco de trás, como manda a lei. Preparava-me para dar a partida quando chegou mais um vendedor.
Antes que ele abrisse a boca, com indisfarçável impaciência, rechacei-o:
– Não, muito obrigado!
Ao que Gabriela observou, de imediato:
– Ô vô, você nem deixou ele falar...

Permaneci mudo por algum tempo, sem saber o que dizer. Dei uma desculpa qualquer e partimos.

A culpa do outro

Charge do dia


A culpa é sempre do outro...

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Arvo Pärt, na hora da morte

             




            Aprendi a ouvir música erudita com minha mãe. (Não faço ideia com quem ela aprendeu, se é que aprendeu com alguém.) Aprender talvez não seja a palavra mais apropriada; quero dizer apenas gostar.
            Mas havia com frequência uma nota triste nas observações dela sobre determinadas peças, o que impressionava demais o menino pequeno, que o fazia pensar, a meio caminho entre o entendimento e o puro sentir. Dizia minha mãe, Quando eu estiver morrendo peço que coloquem esta música, que assim morro mais depressa.
Para o menino, se por um lado havia o alívio do sofrimento – o morrer mais depressa –, havia também a ameaça da perda da mãe, embora ela estivesse perfeitamente saudável naquele momento. Enfim, um conflito.
Uma dessas músicas era o terceiro movimento da Sinfonia n0. 3 de Brahms. (Caso o leitor queira ouvi-la: https://www.youtube.com/watch?v=1trE3ms3AGo )
            Havia outras, sempre de autoria dos clássicos, Beethoven o predileto. Villa-Lobos era muito barulhento; Stravinsky, nem pensar. Quanto mais bela, tocante, sublime a música, lá estava o bordão, Quando eu estiver morrendo...
Peter C. Bouteneff, Professor de Teologia Sistemática na Inglaterra, onde oferece cursos de teologia antiga e moderna, assina o artigo de capa da revista music, da BBC, especializada em musica erudita. Na capa do último número, Arvo Pärt, o compositor erudito mais tocado atualmente, segundo o próprio Bouteneff!
Assim Bouteneff inicia seu artigo (em tradução livre):

“Arvo Pärt é um compositor cuja música transcende qualquer classificação e seus próprios ouvintes. Ele não é uma unanimidade; alguns mostram frieza diante de sua música ou revelam irritação por não compreendê-la. Porém seus admiradores tendem a ser ardentes, zelosos em sua devoção. Eles vão a Pärt para pensar – ou não pensar. Eles o ouvem para criar sua própria arte ou comungar com Deus. Pessoas portadoras de doenças terminais – são incontáveis os testemunhos – ouvem sua música à medida que se aproximam da hora da morte, encontrando uma voz que os compreenda, uma companhia confiável para sua jornada.”

            Ao ler este texto, não pude deixar de me lembrar de minha mãe! Hoje, na velhice, posso compreendê-la por completo. Morrer em paz talvez seja um desejo universal. Se a música puder ajudar...

De profundis, do estoniano Arvo Pärt:




Palpite infeliz!


“Quem é você
que não sabe o que diz?
Meu Deus do Céu,
que palpite infeliz!”

            Aproprio-me do famoso samba de Noel para comentar a crônica de Adriana Carranca na Folha do último sábado (22/8).
            Devo confessar que a articulista me fisgou pelo título “O Islã precisa de um papa”! Ela enumera com minúcia os atos terroristas praticados em nome do Islã, desde o 11 de setembro até os ataques mais recentes do Estado Islâmico – EI, incluindo o massacre ao Charlie Hebdo, a decapitação do arqueólogo de 82 anos Khaled Asaad, a destruição sistemática do patrimônio histórico no Oriente Médio.
            No penúltimo parágrafo da crônica, Adriana faz curtíssima menção à barbáries cometidas em nome do cristianismo, incluindo a corrupção no Vaticano e os padres pedófilos. Admite que “muitos papas no passado acobertaram os crimes da Igreja Católica”. Ela acredita que tudo será redimido pelas ações do papa Francisco, “que parece trilhar outro caminho”. (O que até parece ser verdade!)
            Ao concluir seu texto ela acrescenta:

“É nesse sentido que os muçulmanos talvez precisem de um papa. Não se trata de desculpar-se pelo EI, mas de contradizer sua falsa narrativa do Islã. Falta-lhes uma voz com poder de influenciar tanto as massas quanto os dignatários do poder, que represente a pluralidade dos muçulmanos e seja capaz de defender a fé que a maioria considera pacífica. E que seja um moderado. Inshallah.”

            A isso chamei de palpite infeliz!
            O que Adriana parece sugerir é que o Islã adote, a partir de agora, a organização e a estrutura política da Igreja Católica, que, convenhamos, foi mesmo um “sucesso”, pois sobrevive há 2.000 anos. Mas, e os desmandos de 2.000 anos? E as guerras em nome da fé? E as Cruzadas contra os infiéis? E a Inquisição, particularmente a espanhola? E o conluio com os nazistas? E, de fato, os padres pedófilos, acobertados por seus superiores, incluindo papas?
            O que Adriana recomenda é a infantilização dos muçulmanos, que deveriam seguir à risca as determinações de um infalível Pai-Todo-Poderoso, representante de um certo deus aqui na Terra. Mesmo que esteja mais que comprovado – e é ela quem o afirma – que tal representante seja tão falível quanto qualquer ser humano, humano que ele é!
            O que qualquer um de nós precisa, independentemente de nossa crença ou não-crença, é aprender a pensar, cada um com seu próprio aparelho de pensar, sem cartilhas ou bíblias, logo que nos vemos livres do jugo paterno. A partir daí, cada um de nós torna-se responsável pela própria educação, indispensável para a vida em sociedade.

Em pleno séc. XXI, esperamos que cada indivíduo possa adotar o pensamento científico – mesmo que imperfeito, incompleto, sempre inacabado, em permanente evolução, em busca de uma verdade que jamais será encontrada, e por isso mesmo sujeito a tantas críticas – em vez do pensamento religioso, mágico, infantil, característico dos primórdios da humanidade.

domingo, 23 de agosto de 2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Aniversário de Cora Coralina


Em 20 de agosto de 1889 nasceu Cora Coralina, recebendo o nome de Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas, na Cidade de Goiás.
Penso que não poucos intelectuais desaprovam sua poesia, talvez classificando-a como ingênua demais, pobrinha mesmo, afeita apenas às coisas pequenas do cotidiano. É possível que seja esta a razão pela qual o Estadão publica, no aniversário da poeta, alguns depoimentos de contemporâneos de reconhecida estirpe, sobre ela.
Eis um resumo desses comentários:

Flávio Carneiro: “...a visitei quando tinha uns 20 e poucos anos, já morava no Rio e estava para publicar meu primeiro livro. Ela me perguntou o que era mais importante pra um escritor e respondi, apressado: publicar. Ela então me disse: não, o mais importante pra um escritor é escrever.”

André de Leones: “...eu me lembro da sensação agridoce causada por versos como: "Faz da tua vida mesquinha / um poema". ...os versos de Cora Coralina falam baixo, remetendo a paisagens familiares, mas de maneiras que nos fazem observá-las de novo e de novo, como se fôssemos forasteiros.”

Ignácio de Loyola Brandão: “O chamado fenômeno Cora Coralina é simples. Os talentos são naturais, acontecem, estejam onde estiverem. São vulcões que entram em erupção de um momento para o outro. Às vezes são descobertos. Outras vezes, não. Cora Coralina, Manoel de Barros. Fenômenos da natureza da literatura. Não são fabricados, são pedra bruta, são pureza.”

Armando Freitas Filho: “O fenômeno de Cora Coralina só pode ser bem entendido, a meu ver, quando se sente no que ela escreveu, o sentimento popular do seu lugar e do seu modo de expressar, o que sua vida ali, em ligação direta, soube captar e transcender.”

Mariana Ianelli: “Foi poeticamente tão madura e consciente da sua autenticidade que chegava a ser marota quando se auto-definia “cultivadamente rude”. Rude porque seu léxico exuberante, sua poesia ritmada, sua atmosfera de estórias de antigamente, de uma gente e uma Goiás “de dantes”, têm fonte fora dos livros, no barro das coisas, na experiência de ter posto a mão na vida ao longo do tempo, como, doceira que era, também punha a mão na massa.”

Fabrício Carpinejar: “Ela conseguiu trazer um público novo para a poesia. Aliás, ela tem dois públicos fiéis: o que gosta de poesia, porque ela é uma poeta que fala de poesia, e o que gosta da simplicidade – e que cultua o interior, a casa, o beco, o imperfeito, a vida devagar. Ela conseguiu algo muito difícil na poesia, que é a comunicabilidade e a expressividade. Uma poeta que mistura vida e obra, perfeitamente.”

Henrique Rodrigues: “A existência de Cora Coralina é uma vitória da poesia sobre o tempo. Se ela tivesse participado da Semana de 22 – o marido a proibiu –, creio que teria entrado para a história da literatura brasileira bem antes.”

Marina Colasanti: “O sucesso da sua poesia se deve menos à forma do que à fonte de que emanava, mais ao testemunho do que às palavras, mais à mulher forte e admirável que ela foi do que à poeta.”

Wesley Peres: “O grande elogio de Drummond foi sobre Cora, e não sobre sua hora. Esperto que era, ele disse que Cora é a pessoa mais importante de Goiás, mais importante do que o governador.”

Raimundo Carrero: “Tudo isso emerge de sua solidão e da convivência com o silêncio cheio de encanto e de doçura. A sua linguagem vem da inquietação desses ambientes que parece envolver os seus leitores .”

Antonio Carlos Secchin: “Cora Coralina é exemplo do que a “poesia espontânea”, sem o lastro de outras leituras, consegue produzir. Talentosa, escreveu bons poemas, mas circunscritos, conforme nota de um seu editor, aos “objetos imediatos e caseiros”.

Ramon Nunes Mello: “O que me encanta em Cora Coralina é a simplicidade. A cada dia compreendo que a sabedoria (o verdadeiro saber) está intimamente ligado à humildade. Cora preservou a virtude da humildade, caracterizada pela consciência das próprias limitações. E assim, alcançou o estado de graça com sua poesia, para retratar o sentimento do seu povo.”

Dirce Waltrick do Amarante: “A coisa mais interessante da Cora Coralina que li foi aquele longo poema “épico” sobre o milho, pois tem muitas ressonâncias míticas, remetendo, por exemplo, ao “Popol Vuh”, sem falar que é ecologicamente um marco contra as nossas sementes manipuladas de hoje.

            Como não me considero um intelectual, longe disso, haja vista a existência deste Louco por cachorros, sinto-me livre para gostar de Cora Coralina. Que, diga-se de passagem, continua viva!
            Primeira estrofe de Os aborrecimentos de Aninha:

Meus vestidos de menina...
pregados – saia e corpo.
Abotoados na cacunda.
Pala rodeada de babados
que eu mordiscava, mascava,
estragava. Mãe ralhava.
Falta de cálcio, vitamina, alimentação,
leite ovos, esclarecida depois do tempo.
Vício, dizia a casa. Filha de velho doente.
Em Vintém de cobre –
Meias confissões de Aninha.