segunda-feira, 27 de julho de 2015

Nu teatral

Meus quadros favoritos.



Autor: Flávio de Carvalho (Barra Mansa, RJ, 1899 - Valinhos, SP, 1975).
Exposto na Pinacoteca do Estado, SP.

Foto: A.Vianna, 2015.

Faixa de Gaza

A foto do dia.


100.000 palestinos permanecem desabrigados na Faixa de Gaza, 1 ano depois da guerra com Israel.

Foto: João Paulo Cuenca

O suicídio do amigo


Na medíocre aridez dos jornais de domingo encontramos o surpreendente artigo “Drummond e Ganimedes – homossexualidade na vida e obra do poeta”, de autoria de Marcelo Bartoloti, 40, jornalista, mestre em artes e doutorando em literatura brasileira pela UFRJ, publicado no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo deste domingo (26/7).
            O resumo do artigo é bastante esclarecedor:
“Após a morte do amigo Pedro Nava, em 1984, Drummond deu declarações polêmicas em entrevistas considerando atitudes homossexuais como algo repugnante, e foi alvo de críticas. Porém, em poema publicado em livro em 1951, inspirado por mito grego de rapto de jovem por Zeus, o mineiro demonstrava visão tolerante.”
            A morte do amigo possivelmente constituiu-se em um trauma para Drummond, a gerar sentimentos ambíguos, conflitantes, difíceis de suportar para um espírito sensível como o do poeta. A reportagem sugere que Drummond foi um tanto desastrado nas entrevistas após o infausto acontecimento. Procurou retratar-se com o poema Rapto, publicado no livro Claro Enigma. Ou seria ele, avesso às reportagens, desajeitado mesmo com este tipo de comunicação, e a poesia seu veículo ideal para transmitir suas ideias e sentimentos?
            Pre-conceitos, quem não os tem? Exigir de nosso poeta maior que não os tivesse, impossível. O resultado do provável conflito é o belíssimo poema, aqui reproduzido:

RAPTO

Se uma águia fende os ares e arrebata
esse que é forma pura e é suspiro
de terrena delícias combinadas;
e se essa forma pura, degradando-se,
mais perfeita se eleva, pois atinge
a tortura do embate, no arremate
de uma exaustão suavíssima, tributo
com que se paga o voo mais cortante;
se, por amor de uma ave, ei-la recusa
o pasto natural aberto aos homens,
e pela via hermética e defesa
vai demandando o cândido alimento
que a alma faminta implora até o extremo;
se esses raptos terríveis se repetem
já nos campos e já pelas noturnas
portas de pérolas dúbias das boates;
e se há no beijo estéril um soluço
esquivo e refolhado, cinza em núpcias,
 e tudo é triste sob o céu flamante
(que o pecado cristão, ora jungido
ao mistério pagão, mais o alanceia),
baixemos nossos olhos ao desígnio
da natureza ambígua e reticente:
 ela tece, dobrando-lhe o amargor,
outra forma de amar no acerbo amor.

            Resta ao leitor interpretar algumas passagens mais herméticas do poema, inspirado no mito grego do rapto de Ganimedes por Zeus, disfarçado em águia. Mas não resta dúvida quanto à tolerância do poeta diante do tema, expressa no belíssimo último verso.



domingo, 26 de julho de 2015

Recurso


Aos 80, chantageado por um garoto de programa, disse à mulher que iria comprar cigarros. Suicidou-se na pracinha, com um tiro no coração.

Pensamento mágico

Nem mesmo em se tratando de matéria política os nossos meios de comunicação e seus respectivos jornalistas nos contam toda a verdade. Se nos revelam alguma verdade, já devemos nos dar por satisfeitos.
            Há sempre múltiplos interesses em jogo, ocultos, especialmente os financeiros. Para não perder patrocinadores, incluindo os oriundos dos cofres públicos (nosso dinheiro!), se a verdade não é completamente omitida, é escamoteada de tal forma que se torna irreconhecível aos olhos menos avisados.
            Temas considerados tabus são evitados ao máximo, com receio de afugentar leitores. Até mesmo articulistas de peso, intelectuais de valor reconhecido, preferem repetir o óbvio que agrada ao leitor que não deseja pensar, em vez de apresentarem juízo crítico construtivo sobre algum tema polêmico. Figuram entre os temas considerados tabus a morte e a vida depois da morte, as crenças e superstições de modo geral (incluindo a astrologia, presente diariamente em nossos melhores jornais), o chamado pensamento mágico, tão bem descrito por Freud em Totem e Tabu. São heranças que trazemos até hoje do homem mais primitivo.
            Quando vemos Drauzio Varella, na Folha de S. Paulo de ontem (25/7), escrever sobre o pensamento mágico, de forma clara e corajosa, damo-nos conta de como isso é raro em nossa mídia.
            Varella inicia sua crônica descrevendo a “cura” de uma senhora que mal andava, e que agora sai toda serelepe diante das câmeras, para a graça de Deus, sob aplausos da plateia e do pastor, naturalmente.
Afirma Varella:

“Feiticeiros, xamãs, videntes, santos milagreiros e charlatães de toda espécie manipulam as inseguranças humanas diante da incapacidade de moldarmos o mundo segundo nossa vontade, do medo da decadência física, do desconhecido e da contradição imposta pela morte. A ideia de que um dia fecharemos os olhos para retornar ao nada que existia antes de nascermos é insuportável para a maioria esmagadora da humanidade. Para escapar dos becos que nos parecem sem saída, nós nos agarramos ao vai dar tudo certo, ao tenha fé em Deus. O pensamento mágico ignora as evidências contrárias, ainda que estejam a um palmo de nós; nossos desejos serão realizados por um toque da varinha de condão.”

            E Varella complementa:

“O pensamento mágico está por trás das poções que tanta gente ingere com o propósito de manter boa saúde e curar males que vão do resfriado ao mal de Alzheimer. São chás de todos os tipos, vitaminas compradas a preço de ouro e uma variedade de receitas tão diversificadas quanto a imaginação humana consegue criar. Muitas delas prescritas por profissionais que receberam o diploma de médico.”

            A expressão pensamento mágico é utilizada para descrever a crença segundo a qual certos pensamentos, por si mesmos, acarretariam a realização de desejos; mais que isso, funcionariam como preventivos para acontecimentos funestos ou desagradáveis. Este tipo de pensamento é típico da infância, e nos adultos sugerem, no mínimo, um sintoma de imaturidade. O que facilita a exploração dos incautos pelos espertalhões...
Freud, no magistral Totem e Tabu (1913), estuda a origem e a importância do pensamento mágico no desenvolvimento psíquico da humanidade, e demonstra que grande parte desta forma de pensamento persiste na vida moderna, sob diversas formas, algumas delas abordadas por Drauzio Varella em sua crônica.
E nosso corajoso articulista conclui:

“A única saída para formarmos gerações de mulheres e homens menos crédulos é ensinar ciência e os princípios básicos do pensamento científico já na escola primária.”

            Suponho que este também fosse o desejo de Galileu Galilei (1564-1642). Este tempo chegará?


quarta-feira, 22 de julho de 2015

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Cemitério de passarinhos, um poema!



Há um cemitério de passarinhos na Ilha de Paquetá.
Dizem que é único no mundo.
Mais parece um poema de Manoel de Barros.