quarta-feira, 22 de julho de 2015

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Cemitério de passarinhos, um poema!



Há um cemitério de passarinhos na Ilha de Paquetá.
Dizem que é único no mundo.
Mais parece um poema de Manoel de Barros.



Teclado versus Letra de mão




O caderno “Cotidiano” da Folha de S. Paulo deste domingo (19/7) traz duas matérias aparentemente antagônicas, que chamaram minha atenção por razões que explicitarei mais à frente.
            Na primeira delas, a notícia do fim do ensino da letra cursiva no ensino fundamental na Finlândia. A repórter Patrícia Pereira reproduz as ideias de uma diretora de escola de Helsinque: “...o ensino da letra de mão demanda muito tempo e causa frustração nos alunos. Queremos incentivar a escrita criativa, e que a criança não se preocupe tanto com a técnica, mas com o conteúdo.” A caligrafia será substituída por aulas de computação a partir do próximo ano.
            A segunda matéria, de Estêvão Bertoni, com o sugestivo título “à mão”, informa que em São Paulo, “na contramãletra de mãoo da tecnologia, calígrafos dão toque vintage a cartazes, tatuagens e até cartas de amor.” Andréa trocou a pedagogia pela caligrafia e afirma que “existe uma paixão na moçada de hoje, principalmente em designers gráficos e publicitários, de fazer a letra, de descobrir esse prazer de escrever e de usar instrumentos e tintas diferentes. A caligrafia é extremamente relaxante. Você pode dar novas roupagens às letras, criar uma fonte, digitalizá-la e disponibilizá-la mundialmente.” (Olha o computador aí...) Segundo Beatriz Modolin, analista de tendências, “há um sentimento de nostalgia do tempo em que não havia tantas telas nos rodeando”.
            Será possível cotejar as experiências da Finlândia e de São Paulo, terras tão distantes, culturas tão diferentes? Penso que sim, no mundo globalizado em que vivemos. Será que a vez dos calígrafos finlandeses há de chegar? Os computadores ou tablets chegarão algum dias para todos os alunos de nossas escolas públicas?
            Não tenho respostas para estas e tantas outras questões cabíveis. (Apenas fico pensando nos extensos manuscritos de Leonardo da Vinci, Machado de Assis, Sigmund Freud e Manoel de Barros, para os quais nunca faltou criatividade...)
           Passo a relatar duas experiências pessoais que me são gratas, ligadas ao tema, e que justificam minha opinião sobre o mesmo. Há mais de 30 anos, numa condição de penoso isolamento, distante de meu país, submetido a intenso, permanente e prolongado stress, o que ajudava a suportar o cotidiano era o ato de escrever cartas à mão. À noite, deixava por alguns instantes o computador (novidade na época) para escrever a meus pais, meu irmão, a alguns amigos que dispunham de paciência para responder minhas cartas (entre eles, meu amigo até hoje, Dr. Paulo Gonçalves de Oliveira). O exercício foi aprimorado com a aquisição de um conjunto de penas de metal, adaptáveis a uma haste de madeira, compondo uma caneta que era periodicamente molhada num tinteiro, o que retardava tremendamente a escrita. Mas era exatamente este o objetivo primordial! Já naquela época a técnica estava fora de moda, porém seu efeito relaxante, para usar a expressão da Andréa, era indiscutível!
            A segunda vivência marcante com a letra de mão data da minha infância. Eu e meu irmão nutríamos enorme admiração, verdadeiro fascínio, diante da assinatura de meu pai. Criança, eu ainda não tinha palavras para defini-la; hoje posso afirmar que se tratava de uma manifestação artística. Não havia letras reconhecíveis, muito menos correspondentes ao nome do autor. Era um rabisco com traços fortes, firmes, uma sucessão de 9 us – ou de enes – cujo único significado era a marca pessoal de meu pai.
            Ele já era um homem velho quando pedi que escrevesse meu nome numa folha de papel. Escaneei-o (a letra já tremia) e compus meu cartão de apresentação, no tempo em que eu ainda usava essas coisas. Sempre que o entregava a alguém havia a reação de admiração, Que letra linda!, Que cartão bonito! Com enorme prazer eu explicava que aquela era a letra de meu pai.

            Só agora, ao escrever esta crônica, percebo que trago em minha assinatura certos traços, nítida influência da assinatura de meu pai. Apenas por este fato, sou forçado a defender o ensino da caligrafia no ensino fundamental de nossas escolas. A Finlândia, às favas...

sexta-feira, 17 de julho de 2015

quarta-feira, 8 de julho de 2015

estado de coisa


em estado de coisa
há dias em que me sinto
qualquer coisa descartável

(um prato de plástico
talher ou copo descartável
atirados ao meio-fio)

é a velhice, penso
mas estou aqui entre viventes
sinto e sofro ainda

isso já tem pouca importância
à espera da morte

– o descarte final

Histórias de vida

A história de cada indivíduo é a história da relação dele com o outro.

Vanda lungini red




paciente espera
na manhã fria de inverno
abre-se o presente







segunda-feira, 6 de julho de 2015

Direito de morrer



O tema é dos mais complexos, com implicações éticas, morais, religiosas, a despertar discussões apaixonadas em praticamente todos os países do mundo. Por isso mesmo, precisa ser discutido. Para alguns, a vida tem caráter sagrado, e não pode ser interrompida artificialmente. Para outros, o direito de escolha sobre sua própria vida, e a dignidade com que esta deve ser vivida, oferecem suporte para a morte assistida.
            No último 27/7, a Revista The Economist trouxe longo artigo intitulado The right to die, com o sugestivo subtítulo “Doctors should be allowed to help the suffering and terminally ill to die when they choose”.
            As opiniões expressas no artigo, que não é assinado, fazem parte de uma série de publicações da prestigiosa revista, defendendo o ponto de vista de que, a pedido do paciente, vítima de extremo sofrimento, quase sempre com dor intratável ou condição de vida muito precária, o médico deve proceder à morte assistida. Em outras palavras, há que se preservar a dignidade da vida, enquanto isso é possível.
            Situações difíceis, como por exemplo, quando a solicitação vem de pacientes muito deprimidos, são debatidas. Também merece atenção especial quando o pedido é feito por indivíduos que não são considerados terminais.
            O artigo traz ainda a experiência acumulada em vários países da Europa, Colômbia e cinco estados americanos, onde o processo já está regulamentado.
            Independentemente de minha opinião pessoal – francamente favorável à morte assistida quando solicitada pelo paciente, obedecidas algumas prerrogativas fundamentais – o que desejo destacar aqui é a necessidade do debate sobre o tema.
Mas como realizar isso em nosso país, se o Legislativo é tomado pela chamada bancada religiosa, fundamentalista, e que não coloca em discussão temas bem mais amenos do que este?

            O país precisa manter-se laico para poder abordar temas que, afinal, interessam a todos nós.