sexta-feira, 26 de junho de 2015

haicai caipira ou haicai de são joão


na roça, o inverno
coruja não sai da toca
frio dos inferno


José Pedrosa, escultor





José Pedrosa (1915-2002): Dois nus femininos entrelaçados.
Bronze, 26 x 34 cm.
Pinacoteca do Estado, São Paulo.

Fotos: A.Vianna, jun 2015.

Orelhão móvel?

A foto do dia!


A foto sensacional, de autoria de Paulo Sergio Viana, foi tirada em Lorena, SP, e dá margem a diversas especulações:

1. trata-se de orelhão móvel?

2. obsoleto, o orelhão está sendo tirado de circulação?

3. ou simplesmente está sendo surrupiado pelo carroceiro?

4. propaganda de alguma outra marca de telefonia?

5. tão somente a Arte do fotógrafo?

Parabéns, Paulo!

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Fascinação

Ao completar 115 anos de idade, ganhou de presente o único objeto que de fato a fascinara ao longo da vida: uma calcinha de renda.    


A visita

Ao meu irmão Paulo.


O almoço de domingo, regado a caipirinha e cerveja, ainda não havia terminado quando Fagundes recebeu de sua mulher a terrível notícia:
            – O Ferreirinha virá visitá-lo hoje à tarde...
            – Que merda, Matilde! Esse chato do Ferreirinha então não sabe que hoje tem jogo do Corinthians? Só porque ele não gosta de futebol há de pensar que ninguém mais gosta? Um grandessíssimo filho da puta, isso sim! E você, o que disse, Matilde?
            – Nada, ora bolas! Dizer o quê? Para ele não vir?
            – Pois então, se vire, Matilde. Diga que estou com uma gripe fortíssima, diga que estou com caganeira, diga que estou com Ebola, diga o que você quiser, mas eu não sairei do quarto para fazer sala ao mala do Ferreirinha por nada desse mundo. E tenho dito.
            Assim terminaram o áspero diálogo e o almoço de domingo. Fagundes ainda pegou duas ou três latinhas de cerveja, trancou-se no quarto, ligou a tv no canal de esportes, tirou a camiseta e a bermuda, ficou apenas de cuecas, concentrou-se à espera do jogo.
            Matilde, mulher educada e sensível, não pôde conter algumas lágrimas:
            – Meu marido é um grosseirão, mas esse Ferreirinha é mesmo um chato... Precisava aparecer logo hoje, dia de decisão de campeonato?
            De qualquer maneira, Matilde preparou-se para receber o homem. Fez um bolo de chocolate do cacau colhido no próprio quintal, esquentou água para o café, deu uma varrida na sala, colocou a melhor louça na mesa de jantar. Às 4 da tarde em ponto – hora do início do jogo –, toca a campainha. Era o casal, Ferreirinha e senhora.
            – Vocês desculpem a ausência do Fagundes, ele pegou essa tal de chicungunha, virose gravíssima, que o deixou prostrado na cama com 41 graus de febre. Coitado, até falou no perigo em transmitir a doença ao casal amigo, e por isso não virá recebê-los.
            – Pobre amigo, murmurou Ferreirinha, visivelmente desapontado.
            O ruído da campainha fora abafado pelo foguetório à entrada do Corinthians em campo, de modo que Fagundes nada percebeu, os olhos pregados na tv, sofrendo como estão habituados a sofrer os corinthianos. O primeiro tempo terminou 0 a 0. Fagundes levantou-se apenas para esvaziar a bexiga e voltou para sua poltrona, esquecido do mundo, esquecido da vida. Só a vitória do seu time importava naquele momento, nada mais.
            Enquanto isso, na sala de jantar, Matilde fazia das tripas coração, tentando manter uma conversa civilizada com o chatíssimo casal. Lá pelas tantas, Ferreirinha iniciou feroz doutrinação religiosa, moralista ao extremo, esbravejando sobre como estavam corrompidos os costumes nos tempos atuais, vociferando contra os homossexuais, contra a maconha, contra as cenas de sexo nas novelas, até o Papa entrou na dança, acusado de permissivo e moderninho demais. A esposa, dona Efigênia, entretida com o delicioso bolo de chocolate do cacau colhido no próprio quintal, acompanhado do café preto coado na hora, apenas concordava com o marido, balançando a gorda cabeça enterrada no volumoso corpanzil. Matilde, embora educada e sensível, não gostava de sermão de qualquer natureza, e matutava consigo mesma: se Fagundes estivesse aqui, o Ferreirinha não estaria com essa conversinha besta; dava-lhe logo uns trancos...
            O jogo chegava ao fim, ainda no 0 a 0, para desespero de nosso torcedor. A cada perigo de gol, para um time ou outro, Fagundes revirava-se violentamente na poltrona, soltava urros destemperados, esmurrava a parede, num sofrimento atroz. Eis que, aos 47 minutos do segundo tempo, o Corinthians faz o gol da vitória!
            Fagundes salta da cadeira feito louco, aos berros de É CAMPEÃÃÃO, É CAMPEÃÃÃO, É CAMPEÃÃÃO, abre a porta do quarto com estrondo, entra no corredor de braços erguidos, continua gritando até alcançar a sala de jantar, onde entra rebolando, numa felicidade esfuziante, quando se depara com as visitas, Matilde de olhos esbugalhados, muda de terror, apontando para o traje do marido, apenas uma florida cueca samba-canção. Ferreirinha, apoplético de indignação, só tem tempo de tapar com a mão espalmada os olhos de dona Efigênia, ainda de boca cheia.
            O casal levanta-se e sai sem se despedir. Passado o susto, Fagundes volta às comemorações: É CAMPEÃÃÃO, É CAMPEÃÃÃO, É CAMPEÃÃÃO... Matilde, depois de um copo dágua com açúcar, exclama:
            – Bem que dizia um grande amigo nosso, alto funcionário do Banco do Brasil: boa romaria faz, quem em sua casa fica em paz...

            

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Carlos, sempre!


o segundo, que me vigia


Implacável ponteiro dos segundos.
Não, não quero este decassílabo.
O que eu queria dizer era:
O segundo, não o tempo, é implacável.
Tolera-se o minuto. A hora suporta-se.
Admite-se o dia, o mês, o ano, a vida,
a possível eternidade.
Mas o segundo é implacável.
Sempre vigiando e correndo e vigiando.
De mim não se condói, não pára, não perdoa.
Avisa talvez que a morte foi adiada
ou apressada
por quantos segundos?

                        Carlos Drummond de Andrade

                        (Farewell, Record, 1996)

terça-feira, 23 de junho de 2015

Termas Galo-Romanas

Foto do dia.



Termas Galo-Romanas (séc. I-III d.C.), junto ao Museu de Cluny, em Paris.

Foto: A.Vianna, maio 2015.

Evolução das Espécies: novas descobertas



As descobertas sobre a Evolução das Espécies – e não mais sobre a Teoria da Evolução das Espécies –, prosseguem. Poucos assuntos interessam tanto a este blogueiro quanto este, e tem sido motivo de constantes postagens. Hoje não se fala mais em "elo perdido", pois os achados de fósseis se sucedem, fechando aos poucos o entendimento sobre a fantástica evolução que culminou no Homo sapiens.
A reportagem de hoje de Fábio de Castro, de O Estado de S. Paulo, traz a seguinte manchete:

Humanos e Neanderthais se misturaram na Europa.

E destaca: Análise de uma mandíbula de 40 mil anos encontrada na Romênia mostra que ela pertenceu a um humano moderno cujos ancestrais eram Neanderthais há menos de seis gerações; descoberta contradiz tese de que espécies se misturaram no Oriente Médio. Segundo os cientistas, o estudo é a primeira prova genética de uma hibridização entre as duas espécies em território europeu.
“O fóssil, de um dos mais antigos humanos já encontrados na Europa, tinha de 6% a 9% de seu código genético derivado de um Neanderthal - uma proporção maior que a de qualquer outro genoma humano sequenciado até agora.” Para os autores do estudo, publicado na revista Nature, essa proporção indica que o indivíduo era separado de seu ancestral Neanderthal por um intervalo de apenas quatro a seis gerações.
Há aproximadamente 45 mil anos atrás, os únicos humanos que viviam na Europa eram os Neanderthais. De 35 mil anos para cá, o continente passou a ser ocupado exclusivamente por humanos modernos.
Os cientistas acreditavam que os primeiros humanos vindos da África misturaram-se com os Neanderthais no Oriente Médio, há cerca de 50 mil ou 60 mil anos.  A nova descoberta indica que as duas espécies viveram juntas na Europa por até 5 mil anos.
            São testemunhas de uma troca cultural entre os dois grupos as tecnologias de ferramentas, rituais de sepultamento e decoração corporal.