domingo, 1 de fevereiro de 2015

Crianças de hoje




             O tema educação infantil surgiu recentemente neste blog, a partir do excelente ensaio “Infantocracia: cada menino, um delfim”, do americano Joseph Epstein, publicado na revista Serrote (Instituto Moreira Salles).
            O assunto voltou, com a crônica de Francisco Daudt sobre autoridade e violência, na conturbada relação entre pais e filhos nos dias de hoje.
            E retorna pela terceira vez com o artigo de Julie Turkewitz publicado no The New York Times International Weekly (em colaboração com a Folha de São Paulo), no último sábado (31/01/2015), intitulado “Onde as crianças realmente são mimadas”.
            A jornalista relata o surgimento de fenômeno recente nos Estados Unidos, a proliferação de spas para crianças, meninas e também meninos, com idades que chegam a 3 anos, nas grandes cidades americanas. São oferecidos serviços como massagens, tratamentos faciais, manicure, tratamento para os pés, enfim, todo tipo de embelezamento utilizado pelos adultos, que podem terminar com um passeio de limusine cor-de-rosa pelos arredores.
“Esses santuários de luxo mimam orgulhosamente seus clientes, envolvendo-os em robes de tamanho personalizado, sugerindo massagens com óleo para os pés ressecados pelas brincadeiras descalças e carregam os clientes para as mesas de massagem quando eles são pequenos demais para fazer isso sozinhos”, detalha a jornalista.
Lynne McNees, da International Spa Association, declarou: “Vamos conquista-los mais cedo e ensinar-lhes bons hábitos”. O que é incondicionalmente apoiado pelas mães dessas crianças, orgulhosas de seus rebentos.
Certa menininha de 7 anos, ao passar o aniversário num desses spas, afirmou: “Eu me sinto a melhor princesa do mundo...”
E se é moda lá, daqui a pouco é bem possível que seja moda aqui!
Esperemos que não, ou estaremos deseducando nossas crianças. Pior que isso, provavelmente deformando a infância de meninos e meninas, o que poderá trazer consequências graves na vida adulta.
Tenho uma amiga que, sabiamente, gosta de dizer, Os pais dão muito trabalho aos filhos!


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Ainda Nelson Freire




Ainda em comemoração dos 70 anos de Nelson Freire, a gravadora Decca acaba de editar álbum duplo intitulado Radio days – The concerto broadcasts 1968-1979.
No primeiro CD , Chopin (Concerto para piano no 1), Schumann (Introdução e alegro, Concerto op. 134) e Tchaikovsky (Concerto para piano no 1).
No segundo CD, Prokofiev (Concerto para piano no1), Liszt (Concerto para piano no 2) e Rachmaninov (Concerto para piano no 2).
As gravações originais, agora remasterizadas e de ótima qualidade, foram encontradas em rádios da França, Alemanha e Holanda.
Vale a pena conferir.

No deserto

Médico brasileiro residente em Dubai recebe atraente proposta de trabalho em São Paulo. Recusou. – Moro no deserto, mas aqui não falta água.

Em coautoria com o amigo
Aldo Pereira Neto.

A evolução das espécies

A foto do dia.


Fragmento de crânio de 55 mil anos descoberto nesta caverna em Israel indica local onde humanos e Neandertais misturaram-se pela primeira vez.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O momento de pensar


Há pouco mais de uma semana o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek, 65, publicou na Folha a crônica Liberalismo falha em proteger seus valores, sobre os recentes acontecimentos na França e suas implicações políticas. (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/01/1575750-liberalismo-falha-em-proteger-seus-valores-comenta-zizek.shtml)
            Despertou-me logo a atenção o primeiro parágrafo do texto, riquíssimo em conteúdo – mesmo que não concordemos com ele –, e apenas sobre ele teço aqui meus comentários, o que poderá ser considerado um grande atrevimento meu. Eis o texto:

Agora, quando estamos todos em estado de choque após a orgia de mortes na redação do "Charlie Hebdo", é o momento certo para criarmos coragem para pensar. Agora, e não mais tarde, quando as coisas se acalmarem, como procuram nos convencer os proponentes da sabedoria barata: o difícil é justamente combinar o calor do momento com o ato de pensar. Pensar na calma e frieza do dia seguinte não gera uma verdade mais equilibrada; em vez disso, normaliza a situação, permitindo que evitemos enxergar o fio cortante da verdade.”

            A capacidade de Zizek despertar polêmicas é bem conhecida e parece que ele usa tal característica como uma missão, para a qual é preciso ter muita coragem. Em tudo que ele toca, vira discussão. O que é muito bom, em meu ponto de vista, no mundo certinho e politicamente correto em que vivemos.
            Porém, talvez ele tenha exagerado na introdução de suas ideias sobre os atentados terroristas na França. Talvez... melhor pensar um pouco mais...
            Pensar no calor da emoção, e não mais tarde, “quando as coisas se acalmarem”, é o que propõe o filósofo. Entendo que a expressão “quando as coisas se acalmarem”, da forma que foi utilizada por Zizek, diz respeito ao mundo exterior, aos fatos, aos acontecimentos que se sucederão após a tragédia, tanto de um lado como de outro, nesta espécie de Cruzada do século XXI.
            O que desejo considerar aqui é que a expressão “quando as coisas se acalmarem” pode perfeitamente aplicar-se ao mundo interno, quando sentimentos os mais variados como susto, ódio (especialmente o ódio cego do fundamentalismo), amor – por que não? –, consideração pelo semelhante, medo, desejo de vingança, e tantas outras emoções tenham arrefecido, permitindo que o “aparelho de pensar” (Bion) volte a funcionar normalmente.
            Ainda bem que Zizek admite que “o difícil é justamente combinar o calor do momento com o ato de pensar”. Eu diria que não é difícil; é impossível, pela própria natureza humana. Antes de tudo, precisamos reconhecer nossos impulsos mais primitivos, originários de regiões profundas de nosso ser, sobre as quais temos pouca ou nenhuma ingerência. A única arma contra tais impulsos é o pensamento, isso quando ele pode se manifestar. E é preciso tempo para que se possa pensar.
            O polemista filósofo faz questão de levar suas ideias às últimas consequências, e reafirma que “pensar na calma e frieza do dia seguinte não gera uma verdade mais equilibrada”. O que ele propõe, portanto, é “pensar” na agitação e calor do momento da explosão. Digo que isso não é pensar, e sim, soltar a besta fera que carregamos desde o nascimento da humanidade, cuja domesticação vem sendo perseguida tenazmente pelo processo civilizatório.
            Slavoj Zizek adora soltar os cachorros e criar polêmica. Ele é bom nisso, e o admiro por isso. Ele não deseja “normalizar a situação”, afirma em seguida. Normalizar aqui significa acomodar-se, que também é uma forma de não-pensar. Pensar dá muito trabalho. O normal – aquilo que já está pronto – não exige pensamento. É a lei do menor esforço.
Porém, normalizar, acomodar-se, retomar a inércia do cotidiano pode significar também perder a capacidade de indignar-se, uma trágica e frequente manifestação da sociedade contemporânea. Se foi isso que Zizek pretendeu com seu texto – que manifestemos nossa indignação! – então concordo com ele.
            E para terminar o denso parágrafo que dá início à crônica, o filósofo afirma que a tal normalização nos impede de “enxergar o fio cortante da verdade”. No que ele tem toda razão: quando não pensamos, permanecemos distantes da verdade. Este o grande problema do fundamentalismo, seja ele de que natureza for: a ausência de pensamento. Paradoxalmente, Zizek parece atacar o fundamentalismo utilizando-se de seu próprio veneno.
            Por precaução, acrescentei aos meus comentários iniciais que talvez seja melhor pensar mais um pouco. E se Zizek estiver com a razão?
           

Amizade

A foto do dia,
para minha filha Cecília,
louca por gatos.



Todos os dias, quando Gruener vem abrir a jaula da sua amiga, Sirga pula em cima dele e lhe dá um abraço.”

Foto: Daily Mail