quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Indefeso
Diante da epidemia de mortes por balas perdidas, resolveu não sair de casa. Morreu debaixo da cama.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
O momento de pensar
Há pouco mais de uma semana
o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek, 65, publicou na Folha a
crônica Liberalismo falha em proteger
seus valores, sobre os recentes acontecimentos na França e suas implicações
políticas. (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/01/1575750-liberalismo-falha-em-proteger-seus-valores-comenta-zizek.shtml)
Despertou-me
logo a atenção o primeiro parágrafo do texto, riquíssimo em conteúdo – mesmo
que não concordemos com ele –, e apenas sobre ele teço aqui meus comentários, o
que poderá ser considerado um grande atrevimento meu. Eis o texto:
“Agora, quando estamos todos em estado de
choque após a orgia de mortes na redação do "Charlie Hebdo", é o
momento certo para criarmos coragem para pensar. Agora, e não mais tarde,
quando as coisas se acalmarem, como procuram nos convencer os proponentes da
sabedoria barata: o difícil é justamente combinar o calor do momento com o ato
de pensar. Pensar na calma e frieza do dia seguinte não gera uma verdade mais
equilibrada; em vez disso, normaliza a situação, permitindo que evitemos
enxergar o fio cortante da verdade.”
A
capacidade de Zizek despertar polêmicas é bem conhecida e parece que ele usa
tal característica como uma missão, para a qual é preciso ter muita coragem. Em
tudo que ele toca, vira discussão. O que é muito bom, em meu ponto de vista, no
mundo certinho e politicamente correto em que vivemos.
Porém,
talvez ele tenha exagerado na introdução de suas ideias sobre os atentados
terroristas na França. Talvez... melhor pensar um pouco mais...
Pensar no
calor da emoção, e não mais tarde, “quando as coisas se acalmarem”, é o que
propõe o filósofo. Entendo que a expressão “quando as coisas se acalmarem”, da
forma que foi utilizada por Zizek, diz respeito ao mundo exterior, aos fatos,
aos acontecimentos que se sucederão após a tragédia, tanto de um lado como de
outro, nesta espécie de Cruzada do século XXI.
O que
desejo considerar aqui é que a expressão “quando as coisas se acalmarem” pode
perfeitamente aplicar-se ao mundo interno, quando sentimentos os mais variados
como susto, ódio (especialmente o ódio cego do fundamentalismo), amor – por que
não? –, consideração pelo semelhante, medo, desejo de vingança, e tantas outras
emoções tenham arrefecido, permitindo que o “aparelho de pensar” (Bion) volte a
funcionar normalmente.
Ainda bem
que Zizek admite que “o difícil é justamente combinar o calor do momento com o
ato de pensar”. Eu diria que não é difícil; é impossível, pela própria natureza
humana. Antes de tudo, precisamos reconhecer nossos impulsos mais primitivos,
originários de regiões profundas de nosso ser, sobre as quais temos pouca ou
nenhuma ingerência. A única arma contra tais impulsos é o pensamento, isso
quando ele pode se manifestar. E é preciso tempo para que se possa pensar.
O
polemista filósofo faz questão de levar suas ideias às últimas consequências, e
reafirma que “pensar na calma e frieza do dia seguinte não gera uma verdade
mais equilibrada”. O que ele propõe, portanto, é “pensar” na agitação e calor
do momento da explosão. Digo que isso não é pensar, e sim, soltar a besta fera
que carregamos desde o nascimento da humanidade, cuja domesticação vem sendo
perseguida tenazmente pelo processo civilizatório.
Slavoj
Zizek adora soltar os cachorros e criar polêmica. Ele é bom nisso, e o admiro
por isso. Ele não deseja “normalizar a situação”, afirma em seguida. Normalizar
aqui significa acomodar-se, que também é uma forma de não-pensar. Pensar dá
muito trabalho. O normal – aquilo que já está pronto – não exige pensamento. É
a lei do menor esforço.
Porém, normalizar,
acomodar-se, retomar a inércia do cotidiano pode significar também perder a
capacidade de indignar-se, uma trágica e frequente manifestação da sociedade
contemporânea. Se foi isso que Zizek pretendeu com seu texto – que manifestemos
nossa indignação! – então concordo com ele.
E para terminar o denso parágrafo
que dá início à crônica, o filósofo afirma que a tal normalização nos impede de
“enxergar o fio cortante da verdade”.
No que ele tem toda razão: quando não pensamos, permanecemos distantes da
verdade. Este o grande problema do fundamentalismo, seja ele de que natureza
for: a ausência de pensamento. Paradoxalmente, Zizek parece atacar o
fundamentalismo utilizando-se de seu próprio veneno.
Por
precaução, acrescentei aos meus comentários iniciais que talvez seja melhor
pensar mais um pouco. E se Zizek estiver com a razão?
Amizade
A foto do dia,
para minha filha Cecília,
louca por gatos.
para minha filha Cecília,
louca por gatos.
“Todos os dias, quando Gruener vem abrir a jaula da sua
amiga, Sirga pula em cima dele e lhe dá um abraço.”
Foto:
Daily Mail
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
O gênio de Nelson Freire
As
comemorações mais do que justas e oportunas pelos 70 anos de Nelson Freire, em
outubro de 2014, incluíram o relançamento de gravações efetuadas nos anos 1960,
no início da carreira deste que é um dos maiores virtuoses brasileiros de todos
os tempos.
A
caixa The complete Columbia album collection, produzida por
Robert Russ, foi lançada pela Sony Music, com 7 CDs: 6 álbuns (um deles é
duplo, gravado em Munique, na Alemanha, em maio de 1968); 5 foram gravados
entre 1967 e 1970 e lançados entre 1969 e 1972. O álbum solo Nelson
Freire plays Chopin foi gravado em dezembro de 1982, na Alemanha, e
lançado em 1983. A masterização foi feita a partir das fitas analógicas
originais, obtendo reproduções de ótima qualidade.
Fazem
parte da coleção: Concerto no 1, para piano e orquestra de
Tchaikovsky; idem, de Schumann e Grieg, todos com a Filarmônica de Munique,
maestro Rudolf Kempe; Carnaval, op. 9, de Schumann; 4 Impromptus, op. 90, de
Schubert; de Brahms, a sonata no 3, uma rapsódia e um capriccio; 24
prelúdios, op. 28, de Chopin; ainda de Chopin, a sonata no 3; uma
sonata de Lizt, em si menor; e 10 peças do álbum Nelson Freire plays Chopin.
Esta
magnífica caixa está sendo comercializada por pouco mais de R$ 70, 00! Um
grande presente para os amantes da música erudita.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Autoridade e violência
A excelente crônica de hoje do psicanalista e escritor
Francisco Daudt na Folha trata da violência e das suas diversas formas de
expressão. (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/204803-violencia.shtml)
Daudt termina com tema recentemente
abordado neste blog, a partir de ensaio publicado na revista Serrote por Joseph
Epstein, intitulado Infantocracia: cada
menino, um delfim. (http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2014/12/a-tirania-das-criancas.html)
Trata-se da
relação entre pais e filhos, aparentemente mais conturbada do que nunca nos
dias de hoje. Eis a abordagem de Daudt:
“A
disparidade de poder entre uma criança e um adulto é a situação mais delicada
com que lidamos: precisamos exercer autoridade junto a nossos filhos, eles
precisam disso. Em situações limite, a autoridade também precisa lembrar que é
mais forte (quando, em geral, basta mostrar que é mais sábia). Se os pais
desenvolverem medo de seus filhos, porque o senso comum os vê sempre como
coitadinhos, não exercerão mais autoridade sobre eles, e com isso... estarão
sendo sutilmente violentos.”
A palavra chave é autoridade,
aplicável tanto no ambiente familiar quanto em sala de aula. Se a criança
realmente precisa dela, negá-la é um
ato de violência, segundo
Daudt. A sutileza a que se refere o autor
reside exatamente no fato de que a criança sem limites encontra-se perdida, desamparada,
frágil, aterrorizada muitas vezes, embora demonstre autossuficiência sob a
forma de arrogância defensiva – o leitor perdoe o pleonasmo. Deixá-la nessas
condições é um tipo de violência, raramente reconhecida pelos pais e pela
sociedade em geral.
Daudt
fala ainda do medo que os pais sentem de seus filhos e penso que a
infantocracia a que se refere Joseph Epstein é que acarreta nos pais tal
sentimento.
O
sentimento que falta para completar este quadro angustiante é o sentimento de
culpa, reconhecido ou não pelos pais, ao tentarem exercer autoridade sobre os
filhos. Em algum lugar, num determinado momento, os pais aprenderam que dizer Não é errado, sob o ponto de vista
pedagógico. Esqueceram-se que dizer Não
significa justamente estabelecer limites, a criança ou o adolescente gostem ou
não. Em tais circunstâncias, dizer Não
é um ato de amor.
O
adulto, porém, não pode se esquecer daquilo que Daudt chamou de “a disparidade
de poder”, entre ele, adulto, e a criança. A fronteira entre autoridade e
autoritarismo é tênue e requer sabedoria para não ser transposta. A criança,
mesmo que não compreenda quando há invasão, ela o sente, e fica marcada por
isso.
Não é fácil ser pai ou mãe,
muito menos filho...
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