segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

presente de aniversário


a nova escultura
menina em pelo a cavalo
enfeita a esmoleira

Escultura: Vasco Prado (Uruguaiana, 1914 - Porto Alegre, 1998)

Foto: A. Vianna, jan.2015.

Outono


As agulhas da chuva fina
tecem um lívida mantilha
sob a qual me refugio
das inclemências do espírito.
É outono. As folhas tingem
de sépia as bordas do caminho.
Ando a esmo, absorto e sombrio,
a alma entre os dentes, a vida
por um fio. Onde finda
esse inóspito labirinto,
antes povoado de ninfas
e faunos do sol a pino?
Haverá alguma saída
para o tormento metafísico?
Ou temos que voltar ao início
como há séculos faz Sísifo?

                                    Ivan Junqueira
                                    Essa música (Rocco, 2014)

Assim caminha a humanidade

A charge do dia!


Charge de Lotti, publicada hoje no ZH.

Di Cavalcanti

A foto do dia.


Uma da 15 telas apreendidas pela operação lava-jato, expostas em museu em Curitiba.


http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/01/1576913-obras-de-arte-apreendidas-pela-lava-jato-levam-curiosos-a-museu-do-pr.shtml

sábado, 17 de janeiro de 2015

Natal de 2014




          Queda na venda de vinhos caros neste fim de ano, informa o dono da adega: – Todo mundo está preso! 


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Abuso


Baseado em fatos reais.

Padre, professor de francês, andava de batina suja, bafo de cachaça. Ao entrar na sala, um gaiato pediu a benção. Foi expulso imediatamente.

A importância da Redação


Não escondo minha admiração pelo articulista Hélio Schwartsman, que publica suas crônicas no Estadão; chego a afirmar que ele representa o que de melhor podemos encontrar na Imprensa nacional atualmente. Hoje, no entanto, humildemente, peço permissão para discordar, ele que escreveu “Abaixo a redação”.
Diz ele: “Dados divulgados esta semana mostraram que 529 mil dos 6,19 milhões de estudantes que fizeram a prova (8,55%) tiraram nota zero na dissertação. A maioria deles (53%) nem se deu ao trabalho de tentar escrever o texto, entregando a folha em branco. O restante foi mal mesmo, sendo a fuga ao tema a principal dificuldade relatada pelos corretores.”
E justifica: “Em teoria, não há nada melhor do que uma redação para avaliar o estudante. [Grifo meu]. Ela permite, de uma vez só, averiguar o nível de conhecimentos do candidato, sua capacidade de articular ideias bem como seu domínio sobre a linguagem escrita.
Há, porém, um preço a pagar: é impossível corrigir mais de 5 milhões de dissertações de modo objetivo.”
            Ao finalizar o texto, Schwartsman afirma: “Vale ainda frisar que uma eventual retirada da redação do Enem não significaria a morte da escrita. Esse exame é apenas um instante da vida escolar de um aluno, que oferece inúmeras e melhores oportunidades para provas dissertativas.”
            Pois é aí que discordo frontalmente do homem. O que importa, de fato, não é a redação do dia do exame, este sim, apenas um instante fugaz na vida do estudante. Depois que a redação foi introduzida (ou reintroduzida?) nas provas, tanto nas escolas tradicionais, públicas e privadas, como nos chamados cursinhos, além dos cursos preparatórios específicos para redação, grande parte dos estudantes passou a praticar a escrita, não por amor à arte, infelizmente, mas como preparação para o exame. Não importa. Importa que o aluno passou a escrever, e este exercício não pode ser desprezado. (A única forma de aprender a escrever é escrevendo.)
            Não se pode descartar a hipótese de que um certo número destes que começaram a escrever por obrigação, tomarão gosto pela coisa e passarão a fazê-lo por prazer, podendo vir a despontar como os escritores de amanhã. De resto, não é isso que acontece muitas vezes com o hábito da leitura?
            Claro que estou falando de minorias. Porém, os escritores serão sempre uma minoria.
            Neste ano, a maioria dos que tiraram zero na redação entregou a folha em branco, como ressalta Schwartsman, o que pode significar também dificuldade para a interpretação de um texto. Só a leitura pode sanar tal deficiência. Então os professores em todo o país haverão de gritar em sala de aula, Se você quer escrever, você tem que ler! Eis aqui outra boa razão para se manter a redação como processo de avaliação do estudante. Alguns começarão a ler por obrigação; depois, lerão por puro prazer.
            Um último argumento a favor da redação nos exames: está criada uma nova profissão no Brasil, o Corretor de redação! Nada de corretor eletrônico, o que acontece também com a tradução; trata-se de corretor humano mesmo, manual, digamos assim, a dar emprego para muita gente, uma renda a mais para os sofridos professores de português.
            Viva a redação!


Http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/204154-abaixo-a-redacao.shtml

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Livro de férias

Da série,
Na praia.






            Livro de férias? Que bobagem é esta?, perguntarão os puristas. Livros, há os bons e os ruins. Talvez não seja bem assim, posso explicar.
Toda vez que vou sair de férias, viajar por alguns dias, dedico-me à tarefa de escolher um livro para a ocasião, e a leitura tem início logo na sala de espera do aeroporto, no dia da partida. Não pode ser um livro muito pesado, volumoso, difícil de carregar. Não pode ser muito dispendioso, capa dura, todo ilustrado, pois certamente irá à praia, receberá respingos de água do mar, sem falar no banho de areia, manchas de cerveja e gordura. Também não pode conter um texto muito complicado, sério demais, pesado num segundo sentido, que exija grande esforço para a leitura; férias são férias, tempo de relaxar. Um policial, daqueles escritos por Luiz Alfredo Garcia-Roza, é o exemplo de livro ideal para as férias: bem escrito, linguagem cuidada e moderna, trama bem construída, porém, leitura sem maior responsabilidade. Como li todos que Garcia-Roza já publicou, dessa vez foi preciso fazer escolha de outra natureza.
Há um detalhe que preciso antecipar. Tenho uma amiga que está sempre a me indicar certo tipo de livro, e minha resposta é invariavelmente a mesma, definitiva, atrevida, mal-educada, arrogante, pretenciosa, impertinente, insolente mesmo: não leio best-seller! E é verdade, não leio este tipo de literatura, especialmente por causa da forma, quase sempre vulgar, para dizer o mínimo. (E aceito que me chamem de besta.)
A viagem seria no dia seguinte, e eu me encontrava numa boa livraria, à cata do tal livro de férias, sem muito tempo para uma busca minuciosa. Foi quando me deparei com um volume que trazia um pequeno selo na capa, com os dizeres: “Best-seller canadense, 1o lugar na lista de mais vendidos por 10 semanas”. Era o que bastava para que eu não o escolhesse.
O autor, Eric Siblin: mais desconhecido, impossível! Além do que leio pouca literatura estrangeira.
A editora, também não conhecia: Realizações Editora.
Mas o título, ah! o título, prendeu-me como chiclete na sola do tênis, agarrou-me pela garganta e me suspendeu do chão, deixou-me com falta de ar e palpitações, à beira de um colapso. Exagero meu? Nada disso:

As suítes para violoncelo – J. S. Bach, Pablo Casals
e a busca por uma obra-prima barroca

            Preciso esclarecer que estas suítes, em especial a no 1 e no 6, juntamente com o Réquiem, de Mozart, e a Sonata para piano no 32, opus 111, de Beethoven, são as minhas músicas preferidas. Depois de uma rápida folheada no livro, tomei conhecimento de que os originais das suítes de Bach nunca foram encontrados! Pronto, estava ali o livro de férias.
            A forma, como esperado, deixou a desejar, embora não tenha chegado às raias da vulgaridade. Porém, o conteúdo é interessantíssimo. Além de dados biográficos de Bach, o autor, ele mesmo um apaixonado pelas suítes (pelo menos, acreditei nisso...), descreve o destino que Pablo Casals deu a estas obras, tornando-as conhecidas de todo o mundo. O encontro das cópias por Casals ainda muito jovem, em companhia do pai, num sebo de Barcelona, é eletrizante.
            Os capítulos correspondentes a cada uma das seis suítes recebem subtítulos muito originais, segundo os movimentos da peça: prelúdio, alemanda, corrente, sarabanda, minueto, giga. Cada prelúdio traz um comentário musical bastante apropriado.
            E foi assim que já não posso dizer, Não leio best-seller. E foram ótimas férias.