sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Está na moda

                                                                                              Da série, 
Na Praia

Explode a venda de paus de selfie na Farme de Amoedo, em Ipanema.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Manuelão mão de pilão


             



              Manuelão fazia jus ao nome: negro de quase dois metros de altura, ombros largos, braços e pernas de puro músculo, o tronco um verdadeiro jacarandá. Mas o que impressionava mesmo nele eram as mãos – mãos de Portinari –, cada dedo um martelo de quebrar pedras.
            Tirador de leite de profissão, apesar da brutalidade física, Manuelão nunca maltratou as tetas leiteiras do rebanho de vacas holandesas, compradas a peso de ouro pelo dono da fazenda. Jeitoso, tirava o leite com amor e arte, as vacas mais enfezadas amansavam nas mãos dele.
            Na hora do almoço, lá pelas onze da manhã, Manuelão era recebido na cozinha da sede da fazenda para a principal e invariável refeição do dia: arroz, feijão, macarrão, frango, carne de porco e mandioca. O monumental prato de comida caía como uma luva na mão espalmada de Manuelão, sempre a esquerda, que ele manejava a colher com a direita.
            Em menos de dez minutos o prato estava vazio. Repetia a dose, apenas uma vez, sistematicamente. Espreguiçava-se na cadeira, arrotava baixo, discreto, bebia um copo de água fresca e esperava pelo cafezinho, servido numa canequinha de lata.
            Naquele dia a casa recebia visitas de certa cerimônia, e ajuntavam-se todos na enorme cozinha, pelo encanto do fogão de lenha com o crepitar da madeira, e pelo perfume da comida da Maria, a cozinheira. Manuelão não mudou seus hábitos. Comeu em silêncio respeitoso os dois pratarrões de sempre, bebeu o copo dágua, arrotou discretamente, esperou pelo cafezinho.
            Comeram todos, os donos da casa e as visitas, na longa mesa de madeira maciça, com os dois longos bancos de cada lado da mesa. Chegou a hora do cafezinho, depois das sobremesas de doces de frutas e compotas de todas as variedades, acompanhadas do queijo tradicional, Tudo é daqui da fazenda, orgulhava-se o dono da propriedade. O café, também colhido e moído em casa, era filtrado em coador de pano, como recomenda a boa tradição mineira.
            Porque o dia era de festa, o café foi servido em xícaras de porcelana inglesa, utilizada apenas naquelas ocasiões especiais. Manuelão recebeu de Maria a delicada porcelana, coisa nunca vista, e segurou-a como se tivesse nas mãos a teta de Dália, sua vaca predileta. Bebeu o café, esforçando-se para não fazer barulho. Quando terminou, chamou Maria num canto da cozinha e perguntou:
            – Maria, pra que serve esse pratinho debaixo da xícara?
            Maria não soube responder.
           

O caracol, de Henri Matisse


Henri-Émile-Benoit Matisse (1869-1954), pintor, desenhista e escultor francês.
O caracol (guache) foi elaborado em 1953.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

De onde vêm as ideias




Ao meu irmão Paulo Sergio


            Meu irmão, fidelíssimo leitor do “Louco”, pergunta sempre, De onde saem estas ideias? Nem sempre tenho a resposta.
            Agora encontro no Essa música, livro de poemas do grande Ivan Junqueira (1934-2014) que acaba de ser lançado pela Rocco (2014), uma possível resposta, lindamente oferecida ao leitor de forma poética.

                                    O poema

Não sou eu que escrevo o meu poema:
ele  é que se escreve e que se pensa,
como um polvo a distender-se, lento,
no fundo das águas, entre anêmonas
que nos abismos do mar despencam.

Ele é que se escreve com a pena
da memória, do amor, do tormento,
de tudo que aos poucos se relembra:
um rosto, a paisagem, a intensa
pulsação da luz manhã adentro.

Ele se escreve vindo do centro
de si mesmo, sempre se contendo.
É medido, estrito, minudente,
música sem clave ou instrumentos
que se escuta entre o som e o silêncio.

As palavras com que em vão o invento
não são mais que ociosos ornamentos,
e nenhuma gala lhe acrescentam.
Seja belo ou, ao invés, horrendo,
a ele é que cabe todo o engenho,

não a mim, que apenas o contemplo
como um sonho que se sustenta
sobre o nada, quando o mito e a lenda
eram as vísceras de que o poema
se servia para ir-se escrevendo.

                                    Ivan Junqueira

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

José e Cleonice


            O noivado foi curto, além do que, foi amor à primeira vista. Conheciam-se pouco, ignoravam hábitos, manias, cacoetes, um do outro.
            Durante a semana José saía para o trabalho e Cleonice revelava-se excelente dona de casa, diligente, caprichosa, ótima na cozinha, Mulher de cama e mesa, José gostava de se gabar diante dos amigos.
            As desavenças surgiram nos fins de semana, quando José gostava de sair, caminhar no lindo parque da cidade, deliciar-se com o sol e a sombra das grandes árvores, pegar um cineminha à tarde, esticar a noite num boteco perto de casa, Nada se compara a comida de boteco, encontrar os amigos, jogar conversa fora.
            Aos sábados, logo após o café da manhã, Cleonice era outra mulher, incompreensível metamorfose. Tomava um longo banho, lavava a cabeça com xampu de boa qualidade, depois vinha o creme para os cabelos e para o corpo, Cleo, olha a luz elétrica!, gritava José, incomodado com aquele desperdício de água e energia. Terminado o banho, vinha o secador, mais quarenta e cinco minutos secando e penteando os cabelos. Então Cleonice enrolava-se numa toalha branca, estendia uma outra, também branca, sobre a cama do casal, o radinho de cabeceira tocando música sertaneja, e tinha início estranhíssimo ritual, o de pintar as unhas do pé.
            Secava dedo por dedo, e os vãos entrededos, com uma toalha de linho egípcio, utilizada apenas com este fim. Retirava tufos de algodão de um grande rolo, todos do mesmo tamanho, e separava com eles cada dedo dos pés. Com tesourinha curva afiada da marca Mundial – só podia ser desta marca, a melhor do mundo – aparava as unhas, retirava uma ou outra sujeirinha inadvertida, e em seguida as lixava com lixa fina. Com um pequeno alicate, também da marca Mundial, removia cutículas e fragmentos de pele excedentes.
            Chegava então o momento supremo, o da pintura das unhas. Cleonice espalhava sobre a cama enorme quantidade de vidros de esmalte, de todas as cores possíveis, dispostos num degradê perfeito, facilitando assim a escolha da melhor tonalidade que combinasse com a luz daquela manhã. Escolhia uma cor, pintava a unha do grande dedo direito, levantava o pé contra a luz da janela, olhava olhava olhava, Não combina. Umedecia então o algodão no pequeno frasco de acetona e retirava o esmalte. Tornava a olhar para a palheta de esmaltes como quem olha para um arco-íris, distraída, o olhar vago, perdida no mundo. Era outra Cleonice.
            José costumava entrar no quarto nesses momentos e gritar, Acorda mulher, para com isso, vamos dar uma volta, saia deste quarto cheirando a esmalte, ao que a mulher respondia, Só depois que fizer minhas unhas.
            Chegada a hora do almoço, como não houvesse comida na mesa, José rumava para o Bode Preto, o melhor boteco do bairro, e esquecia Cleonice por algumas horas, entretido com tira-gostos, cerveja geladíssima, feijoada dos sábados, pinga artesanal de Minas Gerais. Voltava para casa lá pelas cinco da tarde e encontrava Cleonice enrolada na mesma toalha branca, sobre a cama do casal, ainda escolhendo a melhor tonalidade de esmalte que combinasse, agora, com a luz daquela tarde.
            Na hora do jantar a função terminava, as unhas impecáveis, consumada a verdadeira obra de arte. Cleonice requentava alguma coisa da geladeira, acompanhada de salada de alface e tomate, via um filme na televisão e ia dormir, José amuado com mais um sábado perdido.
            No domingo, após o café da manhã, o banho demorado, a toalha estendida sobre a cama, a palheta de esmaltes, a luz suave a penetrar pela janela, o ritual de sempre. A cor escolhida para o sábado não podia mesmo servir para o domingo, para desespero de José.
            Na segunda-feira Cleonice era outra: diligente, caprichosa, ótima na cozinha, dona de casa ideal, o casal cheio de amores e carinhos, até que chegava o próximo sábado.
            José se cansou daquilo, deu o ultimato, Cleo, ou você para com isso ou volto para a casa da minha mãe, Pois volte, descuidar das unhas eu não posso.
            Conheciam-se muito pouco, José e Cleonice, antes do apressado casamento.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O prazer da Poesia



             Acaba de sair do forno O prazer do poema – uma antologia pessoal, organização e tradução de Ferreira Gullar (Edições de Janeiro, 2014).
            Há mais de 30 anos o poeta vem selecionando poemas e poetas de sua predileção. Aqueles que escrevem em língua estrangeira foram traduzidos por Gullar; os que escrevem em português, naturalmente tiveram seus textos transcritos no original.
            Os poemas são distribuídos por ordem temática, o que nem sempre fica claro para o leitor, e penso que até mesmo para o organizador da antologia.
            A edição é belíssima, capa dura de autoria de Mayumi Okuyama, estampando nomes, muitos nomes, dos poetas, do organizador e tradutor, do belo título – O prazer do poema.
            Selecionei da antologia intrigante poema de Fernando Pessoa, à guisa de ilustração. O título – Eros e Psique – sugere a clássica história da mitologia grega. Ao final do poema, o leitor pode ser surpreendido com certa interpretação de cunho psicanalítico, baseada no mito de Narciso.
            De resto, cada leitor tem sua antologia pessoal, com as próprias interpretações. Aí reside a força da Poesia.

                                    Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela demora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera.
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

                                    Fernando Pessoa