sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O amor de Artemísia


                Confesso, foi amor à primeira vista!
            Depois de uma semana eu estava completamente apaixonada. Você sabe o que é paixão? Já experimentou? Porque se não experimentou, não pode saber o que isso significa. É uma espécie de loucura, ideia fixa, obsessão, o pensamento no homem dia e noite, noite e dia, sem trégua, uma canseira danada. Pois foi isso que me aconteceu, fulminante como um raio em dia de céu azul.
O rapaz era mesmo lindo!
Apareceu na cidade vindo não sei de onde. No princípio pensei que vinha do céu; depois, que veio do inferno.
Foi numa segunda-feira pela manhã que o vi pela primeira vez, encostado no balcão da padaria, tomando uma média com pão e manteiga. Vestia um casaco do couro preto, e nunca deixou de usá-lo, como se fosse uma segunda pele.
Notei que ele me olhou com interesse, com olhos de bicho predador, certo desde o princípio que abateria aquela presa.
Eu, presa.
No dia seguinte, à mesma hora, na padaria, ele atacou:
– Gostei de você, menina. Qual o seu nome?
– Artemísia.
– Nome mais lindo! Vamos ao cinema hoje à noite?
As pernas bambearam, fiquei tonta com o convite, não sabia o que dizer, não queria parecer mulher fácil, pedi o celular dele, daria a resposta à tardinha. Peguei meu saco de pães e saí esbaforida da padaria, nem perguntei o nome dele, que vergonha!
– Aceito, sessão das sete. Qual o seu nome?
Nem precisava marcar o local, só havia um cinema na cidade, o Cine Central, na praça principal, onde também ficava a padaria. E assim foi toda a semana, sempre na sessão das sete, cada noite um filme, beijos beijos beijos, aquela pegação, amor louco, moço mais lindo!
Até que chegou sexta-feira. Ele não apareceu, não telefonou, não deu notícia, evaporou. Nem sábado. Nem domingo.
Quase morri de desespero. Pensei em acabar com a vida, tomar formicida. Eu ligava ele não atendia, eu ligava ele não atendia. Com a ajuda de Nossa Senhora da Aparecida cheguei viva até a segunda-feira seguinte.
Lá estava ele no balcão da padaria.
– Clêidissom, por que você fez isso comigo?
– Estava trabalhando, Artemísia.
– Trabalhando?!
– Isso mesmo.
Que trabalho poderia ser aquele, só nos fins de semana, e aparentemente inconfessável, telefone desligado, incomunicável, algum mal feito?, alguma trapaça?, trabalho escuso?, garoto de programa?, por que tanto mistério?
– Cineminha hoje à noite?, ele pergunta fazendo-se de desentendido.
– Ligo de tarde.
Também não podia me fazer de mulher-à-toa, tinha meus brios, minha mãe não cansava de repetir, Artemísia, tenha vergonha na cara, mas já havia decidido, convite aceito, precisávamos conversar, eu precisava saber. Talvez houvesse uma explicação razoável para aquele comportamento?
À noite fiquei sabendo.
– Afinal, Clêidissom, o que você faz para ganhar a vida?
– Sou motociclista do globo da morte.
Permaneci muda, uma estátua, sem saber o que pensar, sem saber o que dizer. Casar-me com alguém do circo, e que ainda por cima colocava a vida em risco todo fim de semana no globo da morte, só estando muito apaixonada.
Durante toda aquela semana fomos à sessão das sete no Cine Central, cada dia um filme. Na sexta-feira fui ao circo, sentei-me bem longe, no alto da arquibancada, protegida pelo escurinho, onde ele não podia me ver. Um espetáculo, o globo da morte! Ele de casaco de couro preto, calça justa de veludo, capacete azul com estrelinhas vermelhas cortadas por um raio amarelo, moço mais lindo! O ronco das duas motocicletas era ensurdecedor e ao mesmo tempo excitante. Ao final da apresentação precisei disfarçar, tive um orgasmo. Voltei no sábado. Retornei no domingo.
Na segunda-feira não encontrei Clêidissom na padaria. O circo havia arribado.


Sophia Loren

A foto do dia.


Foto: History in pictures, no Twitter

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Undulatus asperatus

A foto do dia.


Descrito um novo tipo de formação de nuvens, denominado "undulatus asperatus", nos céus da Noruega.

Quem se interessar pode visitar o site da Sociedade de Apreciadores de Nuvens (The Cloud Appreciation Society): 


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Horror

A foto do dia.


Após o massacre de crianças numa escola do Paquistão: mais de 140 mortos.

http://noticias.terra.com.br/mundo/asia/massacre-no-paquistao-partes-dos-corpos-voavam-pelo-ar,d7aa57ffc085a410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html



Shakespeare sempre




             Dois livros me acompanham ao longo da vida – perdi a conta do número de releituras –, e o desejo de relê-los permanece vivo, fontes inesgotáveis para a tentativa sempre incompleta de conhecimento da alma humana. A cada releitura um novo aspecto se revela. São eles Édipo Rei, de Sófocles, e Hamlet, de Shakespeare.
            Quando da publicação de Hamlet – poema ilimitado, de Harold Bloom (Objetiva, 2004), autor do Cânone Ocidental e especialista em Shakespeare, nasceu-me a esperança de que pudesse lançar alguma luz naquele que considero um dos trechos mais significativos e importantes da literatura universal:

Hamlet:
Ser ou não ser, essa é que é a questão:
         Será mais nobre suportar na mente
         As flechadas da trágica fortuna,
Ou tomar armas contra um mar de escolhos
E, enfrentando-os, vencer? Morrer – dormir,
Nada mais; e dizer que pelo sono
Findam-se as dores, como os mil abalos
Inerentes à carne – é a conclusão
Que devemos buscar. Morrer – dormir;
Dormir, talvez sonhar – eis o problema:
Pois os sonhos que vierem nesse sono
De morte, uma vez livres deste invólucro
Mortal, fazem cismar. Esse é o motivo
Que prolonga a desdita desta vida.
(Tradução de José Roberto O`Shea)

            Bloom pouco ou nada acrescenta sobre esta magnífica passagem: “Temos aqui duas grandes metáforas em conflito: a libertação com respeito ao corpo (invólucro mortal), tudo o que haveremos de perder, e o país ignorado, o reino da morte, de onde nunca ninguém voltou, mas de onde o espectro do Rei Hamlet escapa duas vezes durante a peça.”
            No entanto, o capítulo intitulado Com Shakespeare, escrito por J.-B. Pontalis, no livro Freud com os escritores, deste mesmo autor e Eduardo Gómez Mango (Três Estrelas, 2013), é riquíssimo em novas interpretações. O livro destaca a influência de autores como o próprio Shakespeare, Goethe, Schiller, Hoffmann, Heine, Dostoiévski, Schnitzler, Romain Rolland, Thomas Mann, Stefan Zweig, Émile Zola, sobre o pensamento freudiano.
            Voltemos a Hamlet, na interpretação de Pontalis, que afirma:

“Hamlet é um herói mais trágico do que Édipo (lembremos o título: A tragédia de Hamlet), pois a tragédia se consuma na cena interior: a discórdia, o dilaceramento, a incoerência,  tão manifestos em suas réplicas, estão dentro dele. Duas forças antagônicas de igual potência lutam sem trégua nesse palco interior: agir ou não agir, vingar o assassinato do pai, tornando-se por sua vez assassino, ou ele mesmo morrer, to be or not to be. Do início ao fim, da aparição do espectro até sua própria morte, ele é perseguido pelo sofrimento. Hamlet é o homem do sofrimento. Seu ato de vingança permanecerá, qual uma carta que não chega ao destinatário, sempre “a caminho””.

            E Pontalis arremata:

“Ora, o que caracteriza Hamlet é um conflito não resolvido que está na origem de sua inibição. Vejamos nele um neurótico que, como muitos de nós, não consegue se separar de seus primeiros objetos de amor e ódio. Ele, porém, desconhece o fato. Isso se chama recalcamento, e é uma tentativa vã, pois, felizmente, o recalcado retorna...”

            Em Freud com os escritores, Mango termina o excelente prefácio com uma observação importante: “Freud teve a coragem de introduzir no espaço do saber científico a figura do Dichter, do poeta, severamente apartado pela academia de sua época. Fez do poeta um dos interlocutores primordiais de sua obra. Reconhecia na Dichtung [criação literária] um acesso privilegiado à verdade psíquica”.
            É preciso mais para que nos dediquemos com afinco à Literatura?

Português de ontem e de hoje


Afirma Ruy Castro em sua crônica de hoje na Folha, Intimidade essencial, que “60,1% dos alunos de português da 5ª série da rede pública estão abaixo do nível de rendimento que se considera minimamente adequado. Aos 10 anos de idade, são incapazes de identificar o personagem principal de uma narrativa simples ou reconhecer o assunto de uma reportagem. E, aos 14 anos, 76,4% dos alunos da 9ª série não conseguem interpretar certas expressões ou analisar o que um cronista quis dizer com seu texto”.
            Todos os dias lemos nos jornais estas estatísticas macabras sobre o estado da educação no Brasil, todas elas apontando para um beco sem saída. Porém, Ruy Castro chama nossa atenção para um outro fato, pertencente ao passado, com o qual concordo plenamente, porque também fui vítima (ou beneficiário) dele:

“Minha geração sofreu com o gramatiquês obsessivo de muitos professores de português, mais preocupados com a "pureza" da língua do que com a discussão sobre os escritores que realmente diziam coisas. À falta desse estímulo, os próprios garotos se encarregavam – uns torciam por Jorge Amado, outros, por Graciliano Ramos; eu lia Nelson Rodrigues e achava muito melhor.”

            No ginásio e científico – estas as denominações da época – tive um excelente professor de português, Afonso o seu nome, conhecido como Seu Afonso, que marcou definitivamente minha adolescência e a de meu irmão Paulo (hoje um grande poeta). Acabei tornando-me professor universitário, também por influência dele.
            Éramos obrigados a decorar um poema toda semana, e ler um livro por mês; mas as escolhas necessitavam do aval do professor, sempre fiel aos clássicos. Nelson Rodrigues, por exemplo, era proibido, Isso é subliteratura!, exclamava feroz, Seu Afonso.
            O importante é que tomamos gosto pela leitura, e anos mais tarde pude devorar Nelson Rodrigues, fazendo meu próprio julgamento sobre o valor de sua literatura. O mesmo ocorreu com Jorge Amado e outros autores menos clássicos. (O que diria Seu Afonso, já falecido, da literatura brasileira contemporânea? Marcelo Mirisola, jamais!)
            O que Ruy Castro chamou de “gramatiquês obsessivo” também era uma das características de Seu Afonso. Lembro-me de um exemplo bem mundano enfatizado por ele, Digam uma colher das de sopa, e não uma colher de sopa! Fã dos programas de culinária da tv, nunca mais ouvi alguém referir-se a uma colher das de sopa.
            Pois até mesmo aquela obsessão, aquele rigor excessivo com os aspectos gramaticais da língua, não foram em vão, penso eu. Esforço-me até hoje, um amador que sou – simples escrevinhador –, por fazer jus ao Mestre.




terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O segundo gorilinha

A foto do dia.


Nasce o segundo gorilinha no zoológico de Belo Horizonte, em cativeiro, portanto.
A escolha do nome gera polêmica entre os politicamente corretos!

Foto: http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,concurso-para-nome-de-filhote-de-gorila-causa-polemica-em-bh,1608011

O diário de Boris Fausto




              O conceituadíssimo historiador e cientista político Boris Fausto, 84, autor da História do Brasil, acaba de publicar O brilho do bronze – um diário (Cosacnaify, 2014), uma escrita sobre o luto, após a morte da esposa Cynira em junho de 2010, com quem esteve casado por 40 anos.
            Como convém a um diário (a edição é simples, mas bem cuidada, sóbria, com a primeira orelha estendida, “fechando” o volume ao ser dobrada sobre a contracapa), os textos são curtos, datados, descrevendo o cotidiano solitário de um homem inteligente, culto, sensível, que procura preencher seus dias de aposentado e aplacar a dor da ausência da esposa tão querida.
            São conversas de taxi, viagens a cidades do interior, outras ao exterior, afetuosos encontros com os dois filhos, com raros amigos, com algumas mulheres bonitas, relatos de sonhos (o autor faz análise com a antiga terapeuta da esposa), observações bem humoradas sobre o cotidiano da cidade grande, comentários apaixonados sobre o Corinthians, e sobretudo visitas ao cemitério, muitas visitas. No cemitério do Morumbi estão enterrados o pai e a esposa, cujos nomes estão gravados numa lápide de bronze – daí o título do livro.
            A escrita é fluente, coloquial, elegante, intimista, de quem realmente deseja compartilhar sua dor com o leitor amigo. Leitura agradável, a despeito da melancolia presente na maioria dos textos.
            Voltemos, entretanto, a uma espécie de prólogo, onde Fausto explica a razão do diário: “Confesso que realizei um desejo inconsciente: redimir-me da culpa pelo desaparecimento do diário de um jovem quase menino com a publicação de outro, escrito por um senhor de idade”.
            Isso mesmo, ele decidiu escrever um diário aos 15 anos, e após alguns meses jogou-o no lixo (como faz a esmagadora maioria dos adolescentes que decidem escrever um diário). Sessenta anos depois, com a morte da esposa, resolve escrever um novo diário, e diz que foi por culpa, por ter desprezado os escritos do adolescente.
            Este ilustre senhor me perdoe (e também sua analista), mas esta é a justificativa mais inverossímil que ele poderia apresentar ao leitor.
            A certeza não posso ter, nem a desejo, por impossível, mas penso que Fausto decidiu escrever por dois motivos: primeiro, porque é um escritor; segundo, para ajudá-lo a vivenciar e superar o luto. Tão simples isso! Mas ele não faz uma referência sequer a esta possibilidade em todo o livro.
            Minha ideia baseia-se no fato de que o ato da escrita pode ser terapêutico, ainda mais nessas circunstâncias. E para Fausto,  a coisa ficaria mais fácil, porque ele sempre foi um escritor. Talvez por isso mesmo não tenha feito qualquer referência à função terapêutica da escrita em seu diário. O que é uma pena, penso eu.
            Mas há uma outra possibilidade: o autor, homem inteligente, culto, sensível, sabe disso, tem consciência disso, concorda com isso, mas preferiu não tornar pública esta ideia, valorizando a literatura do gênero memorialístico em si mesma. Por que ele faria isso, não posso imaginar; deve ter tido suas razões.