terça-feira, 18 de novembro de 2014

Salve-se quem puder 2


1=  Desmatamento da Amazônia, nos últimos 3 meses, equivale à extensão da cidade do Rio de Janeiro: mais de 1.000 Km2.

2=  A Presidente da República propõe diálogo com o Estado Islâmico. Quem irá lá conversar?

3=  O mensalão não impediu a ocorrência do petrolão. Não aprenderam nada.

4=  A USP gasta 105% de seu orçamento com pagamento de pessoal.

5=  Pizzolato declara: “Meu único desejo é fazer a vontade de Deus”.

6=  Mesmo com as chuvas, o nível do Cantareira continua caindo.

7=  Saudita pede divórcio após ver cara da noiva.

8=  Petrobras cria uma diretoria para cumprir as leis. As demais podem continuar roubando.

9=  Empreiteiros dormem em colchões no chão e comem de marmita. Será verdade?

10= Atum azul do Pacífico ameaçado de extinção. E o sushi?

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

pobre homenagem a manoel de barros


manoel só podia mesmo escrever
a lápis
em caderninhos costurados
à mão
(papel de pão)

porque computador não aceita
certas palavras
lesma               estandarte        árvore
passarinho       sapo                água
rio                    inseto              besouro

ou expressões
detritos semoventes    chevrolé gosmento
coisa ordinária             louco de água
alicate cremoso            lodo das estrelas
terreno baldio               algibe entupido de silêncio

especialmente a palavra borboleta
que logo voa da tela
para o teclado
querendo escrever também
poesia borboletante

manoel só podia mesmo
escrever à mão
(e a lápis)
em dignos caderninhos
de insignificâncias

cada palavra
qualquer que seja
tem seu valor
(como os homens)
e serve para a poesia

por exemplo – lobisomem
serve demais
para a poesia
depois da descoberta que
“ovo de lobisomem não tem gema”

pode-se até imaginar
o poeta perdido no pantanal
(da infinita imaginação dele)
à procura de ovos de lobisomem
achou um, quebrou na pedra

gema não havia
é de lobisomem!
exclamou manoel
a lápis, em seu caderninho
costurado à mão



namorados



plena luz do dia
as maritacas namoram
alheias aos homens


Fotos: A.Vianna, Coromandel, nov. 2014.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Pré-coisas, de Manoel de Barros


Do LIVRO DE PRÉ-COISAS,

de Manoel de Barros.


Vaga-lumes driblam a treva.

Pois o que disse Joyce foi que o arame farpado quem inventou foi uma freira, para amarrar na cintura dela quando viesse a tentação.

Bicho acostumado na toca encega com estrela.

Ovo de lobisomem não tem gema.

Marandovás me ensinam, com seu corpo de sanfona, a andar em telhas.

Homenagem a Manoel de Barros




Morreu hoje Manoel de Barros, poeta mato-grossense, aos 97 anos de idade.
Praticamente um menino!
Ao perder um menino-poeta o mundo fica mais triste.
Dele, meu poema favorito é Matéria de Poesia.


MATÉRIA DE POESIA

1.

Todas as coisas cujos valores podem ser

disputados no cuspe à distância

servem para a poesia

O homem que possui um pente

e uma árvore

serve para poesia

Terreno de 10×20, sujo de mato – os que

nele gorjeiam: detritos semoventes, latas

servem para poesia

Um chevrolé gosmento

Coleção de besouros abstêmios

O bule de Braque sem boca

são bons para poesia

As coisas que não levam a nada

têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo

tem seu lugar

na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:

caco de vidro, garampos,

retratos de formatura,

servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como

por exemplo: pedras que cheiram

água, homens

que atravessam períodos de árvore,

se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma

e que você não pode vender no mercado

como, por exemplo, o coração verde

dos pássaros,

serve para poesia

As coisas que os líquenes comem

-       sapatos, adjetivos -

têm muita importância para os pulmões

da poesia

Tudo aquilo que a nossa

civilização rejeita, pisa e mija em cima,

serve para poesia

Os loucos de água e estandarte

servem demais

O traste é ótimo

O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique

o alicate cremoso

e o lodo das estrelas

serve demais da conta


Pessoas desimportantes

dão para poesia

qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique

a lagartixa de esteira

e a laminação de sabiás

é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;

a palavra repositório eu conheço bem:

tem muitas repercussões

como um algibe entupido de silêncio

sabe a destroços

As coisas jogadas fora

têm grande importância

-       como um homem jogado fora


Aliás, é também objeto de poesia 
saber
 qual o período médio
que um homem jogado fora

pode permanecer na Terra
 sem nascerem
em sua boca
 as raízes da escória

As coisas sem importância
 são bens de poesia


Pois é assim
 que um chevrolé gosmento
 chega
ao poema,
 e as andorinhas de junho.


Foto: http://g1.globo.com/mato-grosso-do-sul/noticia/2014/11/morre-aos-97-anos-o-poeta-manoel-de-barros