quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O compromisso


            
                Entrou no botequim porque pre-ci-sa-va de um trago – um único trago –, que tinha compromisso com hora marcada, não podia perder a hora, coisa de grande importância para seu próprio futuro.
            O inesperado foi encontrar Alcides, amigo de infância que não via há anos, sentado numa mesa no fundo do bar, tomando calmamente sua cervejinha. O segundo trago foi em comemoração àquele encontro feliz, saudado por ambos com entusiasmo.
– Lembra, Alcides, de Dona Clementina, professora de música do ginásio?
– Claro que me lembro, Adalberto, dela e seus terríveis exercícios de solfejo, cobrados na prova oral de fim de ano. A turma toda ficava trancada numa sala e os alunos eram chamados de cinco em cinco, em frente da professora, para um determinado solfejo, sorteado no início da prova, e que seria repetido para toda a turma.
Então combinamos com o Aldo, do primeiro grupo, assim que terminasse a prova, soltaria o número de foguetes correspondentes ao número do solfejo sorteado, para que tomássemos conhecimento do ponto escolhido.
E assim foi feito. Logo ouviram-se seis tiros, que evidentemente indicavam o solfejo número seis. Todos abriram seus cadernos na página correspondente, preparando-se para a temida arguição.
De repente, mais dois tiros! É o número oito, exclamaram todos.
Não se passaram três minutos e pipocaram mais três foguetes.
– Puta que pariu, é o número onze, gritou Roberval, agitadíssimo com aquela incerteza toda.
Mais quatro estampidos ... e agora ninguém acreditava mais na porra do Aldo. O foguetório continuou até o final da prova, sem que se soubesse afinal o número do solfejo sorteado.
– Pura sacanagem. Não é uma história deliciosa, Adalberto? Por fim, fomos todos aprovados.
Iam já pelo décimo trago, Êta pinguinha boa, sô!
– Alcides, você se lembra daquele jogo de futebol de salão – o nome futsal é coisa recente – em que você marcou oito gols? Oito gols num único jogo!
– Claro, foi meu dia de glória.
– Durante uma semana só se falou disso na escola – Alcides, a revelação! Você estava possuído, Alcides?
– Sei lá, mas durou pouco minha fama de artilheiro, no jogo seguinte voltei para a lateral esquerda...
            Abriram a terceira garrafa, em comemoração àquelas lembranças formidáveis.
            – Adalberto, lembra-se das aulas de Religião? Todos queriam matar a aula, menos você, que era um ateu convicto e queria peitar o padre. Sua argumentação era tão convincente que arrastava o restante da turma, todos contra o padre. Na terceira aula o padreco desistiu, Vão todos para o inferno, exclamou raivoso, talvez, ele sim, possuído.
            As histórias se sucediam. Os copos também. Quem os visse de longe naquela mesa de bar diria que eram os homens mais felizes do mundo, ou melhor, dois meninos falando alto, soltando sonoras gargalhadas em meio às recordações da infância. A noite há muito havia caído sobre o boteco.
            Até que chegaram as putas. Sóbrias, não foi difícil arrastarem os dois amigos para um programa.
            Acordaram num quarto barato de hotel, com uma dor de cabeça cavalar, o sol alto no céu azul de Paraíso. Foram depenados.
            Foi quando Adalberto lembrou-se do compromisso com hora marcada, coisa de grande importância para seu futuro – o próprio casamento. Mas ele precisava de um trago...

Chariot, de Alberto Giacometti



Acaba de ser leiloada por 101 milhões de dólares a escultura em bronze e madeira, feita entre os anos 50 e 52, pelo suíço Alberto Giacometti (1901-1966).

http://veja.abril.com.br/noticia/entretenimento/giacometti-e-recorde-em-leilao-us-100-mi-por-escultura

Bons tempos

A foto do dia.



Sophia Loren, 1955.

Do site History in Pictures, no Twitter.

https://twitter.com/HistoryInPics/status/529832016490266624/photo/1


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Céu de São Paulo


Céu de São Paulo, graças a deus!

(Clique para ampliar)

Foto: Paulo Laizo.

http://noticias.terra.com.br/brasil/cidades/chuva-deixa-sp-em-estado-de-atencao-para-alagamentos,465ba49953779410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html

Os passos em volta





            Em algum lugar, num tempo perdido, li o que alguém escreveu: Os passos em volta, de Herberto Helder, é o melhor livro de contos da língua portuguesa. Não pude evitar, corri atrás.
            Foi assim com outro português, Miguel Torga, no dizer de alguém de peso na literatura, que era um dos cinco maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos. Essas coisas me impressionam, sabe! Corri atrás, li praticamente toda a vastíssima obra de Torga, incluindo sua poesia, com destaque para os Diários, e não me arrependo.
            Não foi fácil encontrar o livro de Herberto Helder, na bela edição da Assírio & Alvim (11a edição, 2013; a primeira edição é de 1963), capa dura, folhas de guarda de papel grosso, cabeceado, miolo de ótima qualidade. Nascido em Funchal, Ilha da Madeira, Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira (1930) é dono de vastíssima obra, pouco conhecida no Brasil. De fato, não tem uma escrita fácil, o português.
            Iniciei a leitura há uns meses atrás e confesso aqui meu desapontamento. Acho que não passei do terceiro conto, perdido em meio a uma escrita refinada, porém dispersa, sem rumo, fluida, inalcançável para mim naquele momento.
            Agora volto ao livro e encontro uma pequena obra prima. Não é a primeira vez que isso me acontece, defeito no aparelho de pensar.
            O primeiro conto intitula-se Estilo. Assim tem início:

“– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo.”

            E por aí vai o autor, pregando a necessidade de se ter um estilo, para sobreviver sem enlouquecer.
            Lembrei-me de dois conceitos interessantíssimos em Winnicott, o de self verdadeiro e o de falso self. Penso que o estilo de que trata Helder em seu conto (ficção?) tanto pode referir-se ao verdadeiro como ao falso self.
            Não é fácil reconhecer nas pessoas com quem convivemos socialmente, quanto há de falso self  no comportamento delas, o que torna, às vezes, impossível esta mesma convivência. Mas o falso self  também se desenvolve para que o sujeito não enlouqueça, desde a mais tenra infância, diante de “agonias impensáveis” (Winnicott).
            Ainda não terminei Os passos em volta, mas não pude deixar de registrar aqui a forte impressão que me causou dessa vez o estilo do homem. Quem sabe ele ainda volta a este blog!

Até que enfim!

A foto do dia.



Vazão do Rio Piracicaba aumenta dez vezes com as últimas chuvas!

Foto:http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,vazao-do-rio-piracicaba-aumenta-dez-vezes-com-a-chuva-de-domingo,1587451

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Farta Brutos



          O pernoite em Lisboa era movido por obrigação e devoção. O voo oriundo da Itália chegava em Portugal à tarde, e a partida para o Brasil ocorreria apenas na manhã do dia seguinte. Esta, a obrigação em pernoitar. Comer um bom bacalhau, eis a devoção!
Nas últimas vezes que estivemos em Lisboa não fomos felizes na escolha dos restaurantes. Agora, precisávamos acertar.
A nossa “guia” encontrou na Internet um certo restaurante que costumava ser frequentado por ninguém menos que José Saramago. Bem, era a fome com a vontade de comer...
           Nome do lugar e da rua tipicamente portugueses: Farta Brutos, na Travessa da Espera, 20, no Bairro Alto. Quando anunciamos o endereço ao motorista de taxi, ele incontinenti perguntou, E onde fica a Travessa da Espera? (Era a certeza de que estávamos mesmo em Portugal...)



(O restaurante fica na esquina, 
mas a entrada é pela terceira porta à esquerda.)


          Chegamos sem dificuldade, faltavam 15 minutos para as 8 da noite e a casa ainda estava fechada. Olhamos por uma portinha diminuta (casa de bonecas?), buscando sinal de vida, e uma senhora respondeu lá de baixo, Abrimos em 10 minutos.
Entramos pela portinhola, descemos uma pequena rampa e chegamos ao único salão, com poucas mesas. As paredes revestidas de madeira, prateleiras repletas de vinhos, e muitas, muitas fotografias de frequentadores ilustres, quase sempre ao lado do proprietário, Seu Oliveira.




(A mesa de Saramago é a última à direita.)


          O tratamento que recebemos foi o mais afetuoso possível. Seu Oliveira falou-nos do hábito de Saramago em visitar o estabelecimento, sempre que vinha a Lisboa, Sentava-se ele sempre à mesma mesa, aquela que lá está, com a plaquinha com o nome dele, éramos amigos, cheguei a visitá-lo em Lanzarote, agora Pilar continua a cá vir, muito simpática, nossa amiga também. Seu Oliveira tinha muito o que contar, enumerava os brasileiros ilustres que comeram no Farta Brutos, alguns nem tão queridos assim dos viajantes, até ex-presidentes lá estiveram.
          Quando lhe perguntei sobre a origem do nome do restaurante, Seu Oliveira fitou-me com leve ar de espanto, como se Farta Brutos fosse o nome mais óbvio e natural do mundo. Não soube me responder. 




          De entrada, experimentamos os “peixinhos da horta”, mas saborosa mesmo era a história dos petiscos. Era pobre a família de Seu Oliveira. O pai, já que não podia comprar carne, colhia vagens, passava-as em ovos e farinha, e as fritava, que ficavam com o formato que lembrava peixinhos fritos.
          Dois peixinhos restaram na tigela, fartos que estávamos das entradas. Veio lá da cozinha a senhora que nos servia, despejou um em cada prato e disse, Isto não vai voltar! Fomos obrigados a comê-los...
          Até que chegou o bacalhau com batatas! O vinho, português naturalmente.




             Passando por Lisboa, não deixem de se fartar no Farta Brutos!


Fotos: A.Vianna, Lisboa, out. 2014.