terça-feira, 4 de novembro de 2014
Céu de São Paulo
Céu de São Paulo, graças a deus!
(Clique para ampliar)
Foto: Paulo Laizo.
http://noticias.terra.com.br/brasil/cidades/chuva-deixa-sp-em-estado-de-atencao-para-alagamentos,465ba49953779410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html
Os passos em volta
Em
algum lugar, num tempo perdido, li o que alguém escreveu: Os passos em volta, de Herberto Helder, é o melhor livro de contos
da língua portuguesa. Não pude evitar, corri atrás.
Foi
assim com outro português, Miguel Torga, no dizer de alguém de peso na literatura,
que era um dos cinco maiores escritores da língua portuguesa de todos os
tempos. Essas coisas me impressionam, sabe! Corri atrás, li praticamente toda a
vastíssima obra de Torga, incluindo sua poesia, com destaque para os Diários, e
não me arrependo.
Não
foi fácil encontrar o livro de Herberto Helder, na bela edição da Assírio &
Alvim (11a edição, 2013; a primeira edição é de 1963), capa dura, folhas
de guarda de papel grosso, cabeceado, miolo de ótima qualidade. Nascido em
Funchal, Ilha da Madeira, Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira (1930) é
dono de vastíssima obra, pouco conhecida no Brasil. De fato, não tem uma
escrita fácil, o português.
Iniciei
a leitura há uns meses atrás e confesso aqui meu desapontamento. Acho que não
passei do terceiro conto, perdido em meio a uma escrita refinada, porém
dispersa, sem rumo, fluida, inalcançável para mim naquele momento.
Agora
volto ao livro e encontro uma pequena obra prima. Não é a primeira vez que isso
me acontece, defeito no aparelho de pensar.
O
primeiro conto intitula-se Estilo.
Assim tem início:
“–
Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi
muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes
já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num
quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo
levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um
volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira,
está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito
depressa. Há felizmente o estilo.”
E
por aí vai o autor, pregando a necessidade de se ter um estilo, para sobreviver sem enlouquecer.
Lembrei-me
de dois conceitos interessantíssimos em Winnicott, o de self verdadeiro e o de falso self.
Penso que o estilo de que trata Helder em seu conto (ficção?) tanto pode
referir-se ao verdadeiro como ao falso self.
Não
é fácil reconhecer nas pessoas com quem convivemos socialmente, quanto há de
falso self no comportamento delas, o que torna, às
vezes, impossível esta mesma convivência. Mas o falso self também se desenvolve
para que o sujeito não enlouqueça, desde a mais tenra infância, diante de
“agonias impensáveis” (Winnicott).
Ainda
não terminei Os passos em volta, mas
não pude deixar de registrar aqui a forte impressão que me causou dessa vez o
estilo do homem. Quem sabe ele ainda volta a este blog!
Até que enfim!
A foto do dia.
Vazão do Rio Piracicaba aumenta dez vezes com as últimas chuvas!
Foto:http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,vazao-do-rio-piracicaba-aumenta-dez-vezes-com-a-chuva-de-domingo,1587451
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Farta Brutos
O pernoite em Lisboa era
movido por obrigação e devoção. O voo oriundo da Itália chegava em Portugal à
tarde, e a partida para o Brasil ocorreria apenas na manhã do dia seguinte.
Esta, a obrigação em pernoitar. Comer um bom bacalhau, eis a devoção!
Nas últimas vezes que
estivemos em Lisboa não fomos felizes na escolha dos restaurantes. Agora,
precisávamos acertar.
A nossa “guia” encontrou na
Internet um certo restaurante que costumava ser frequentado por ninguém menos
que José Saramago. Bem, era a fome com a vontade de comer...
Nome do lugar e da rua
tipicamente portugueses: Farta Brutos, na Travessa da Espera, 20, no Bairro
Alto. Quando anunciamos o endereço ao motorista de taxi, ele incontinenti perguntou, E onde fica a Travessa da Espera? (Era a certeza de que estávamos mesmo em Portugal...)
(O restaurante fica na esquina,
mas a entrada é pela terceira porta à esquerda.)
Chegamos sem dificuldade,
faltavam 15 minutos para as 8 da noite e a casa ainda estava fechada. Olhamos
por uma portinha diminuta (casa de bonecas?), buscando sinal de vida, e uma
senhora respondeu lá de baixo, Abrimos em 10 minutos.
Entramos pela portinhola,
descemos uma pequena rampa e chegamos ao único salão, com poucas mesas. As
paredes revestidas de madeira, prateleiras repletas de vinhos, e muitas, muitas
fotografias de frequentadores ilustres, quase sempre ao lado do proprietário,
Seu Oliveira.
(A mesa de Saramago é a última à direita.)
O tratamento que recebemos
foi o mais afetuoso possível. Seu Oliveira falou-nos do hábito de Saramago em
visitar o estabelecimento, sempre que vinha a Lisboa, Sentava-se ele sempre à
mesma mesa, aquela que lá está, com a plaquinha com o nome dele, éramos amigos,
cheguei a visitá-lo em Lanzarote, agora Pilar continua a cá vir, muito
simpática, nossa amiga também. Seu Oliveira tinha muito o que contar, enumerava
os brasileiros ilustres que comeram no Farta Brutos, alguns nem tão queridos
assim dos viajantes, até ex-presidentes lá estiveram.
Quando lhe perguntei sobre a origem do nome do restaurante, Seu Oliveira fitou-me com leve ar de espanto, como se Farta Brutos fosse o nome mais óbvio e natural do mundo. Não soube me responder.
De entrada, experimentamos
os “peixinhos da horta”, mas saborosa mesmo era a história dos petiscos. Era
pobre a família de Seu Oliveira. O pai, já que não podia comprar carne, colhia
vagens, passava-as em ovos e farinha, e as fritava, que ficavam com o formato
que lembrava peixinhos fritos.
Dois peixinhos restaram na tigela, fartos que estávamos das entradas. Veio lá da cozinha a senhora que nos servia, despejou um em cada prato e disse, Isto não vai voltar! Fomos obrigados a comê-los...
Dois peixinhos restaram na tigela, fartos que estávamos das entradas. Veio lá da cozinha a senhora que nos servia, despejou um em cada prato e disse, Isto não vai voltar! Fomos obrigados a comê-los...
Até que chegou o bacalhau
com batatas! O vinho, português naturalmente.
Passando por Lisboa, não deixem de se fartar no Farta Brutos!
Fotos: A.Vianna, Lisboa, out. 2014.
Foto da fachada: http://www.portugalrestaurants.com/restaurantes/Farta-Brutos.html
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