quarta-feira, 12 de março de 2014

Melhores imagens de Ciência em 2014

A foto do dia.



Imagem de Anders Persson: bomba cardíaca mecânica dentro de um tórax. 


50 minutos


O velho fazia sua caminhada diária quando um carro parou junto ao meio fio e pediu informação – supõe-se, pois não houve testemunhas. O caminhante levou dois tiros no peito e morreu instantaneamente.
Um advogado amigo da família e com vocação detetivesca interessou-se pelo caso, já que a polícia fez pouco ou nenhum progresso nas investigações durante os seis meses subsequentes. Aparentemente o velho não tinha inimigos. Nos últimos dez anos sua convivência social reduziu-se a duas ou três pessoas, incluindo a própria mulher, de um segundo casamento, com quem estava casado há vinte e poucos anos. As aventuras amorosas haviam se perdido no tempo. Ele não devia dinheiro a ninguém, aliás, não devia nada a ninguém. E não dispunha de seguro de vida.
O advogado amigo da família, residente no bairro da vítima, passou a fazer a mesma caminhada, repetindo o trajeto e horário, diariamente. Observador por natureza, mantinha-se atento aos homens e mulheres com quem cruzava, quase todos acima dos cinquenta anos, contava os carros que rodavam pela rua àquela hora da manhã, anotava marcas, modelos e cores dos veículos, de um ou outro registrava o número da placa. Fez isso durante seis meses.
Do mesmo modo que a polícia, não pôde chegar a pista alguma. As marcas de sangue deixadas pelo morto na calçada estavam quase que completamente apagadas. Ninguém mais comentava sobre o crime. A esposa do velho, alguns anos mais nova, havia se casado de novo. O advogado recebeu ótima proposta de emprego numa grande firma de advocacia e mudou-se para São Paulo.
Ao chegar em casa depois de 50 minutos de caminhada, esta foi a história que o velho deixou registrada em seu computador, ele que pretendia publicar um livro de contos sobre crimes sem solução. Morreu de infarto alguns minutos depois.

terça-feira, 11 de março de 2014

Vidas invisíveis

Baseado em fatos reais.

Continuou vivendo por um mês, sem dar conta da morte do marido. Dois cães presos no quarto morreram de inanição. Os vizinhos nada notaram.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sobre dilemas morais


Por que não admitir? O Papa Francisco surpreendeu o mundo dias atrás, ao confessar publicamente que havia surrupiado o crucifixo que repousava sobre o corpo de um padre amigo, no momento em que o velório estava vazio, cruz que carrega até hoje (sem qualquer conotação metafórica...) e à qual apela nos momentos difíceis. Como tudo é mesmo relativo nessa vida, suponho que o Santo Padre só tenha granjeado louros e simpatias com este insólito gesto: um roubo.
A lembrança que me veio ao bestunto foi a de meu saudoso José Saramago, em seu belíssimo livro Viagem a Portugal. Ao passar por Carrazedo de Montenegro, o escritor foi “tentado pelo demónio”. Visitava uma igreja local quando deu com uma grande imagem de Nossa Senhora, com anjos dispostos aos pés, “mesmo à mão de apanhar”. Surge-lhe o tinhoso, provocador: “Vinha dizer-te que estes anjos estão seguros só por um espigão. Basta puxar e ficam-te nas mãos. A Virgem, não te aconselho. É pesada, grande, e viam-te à saída.”
Depois de um rápido bate-boca entre os dois, o viajante zangou-se e saiu da igreja. Descia já os degraus em frente à edificação quando resolveu voltar; tornou a entrar no coro deserto, postou-se frente à imagem, agarrou um anjo, puxou-o, e, de fato, como havia instruído o demônio, ficou com ele nas mãos. “Durante três segundos, céu e terra pararam para ver o que ia acontecer: perdia-se aquela alma, ou salvava-se”, escreve Saramago.
Recolocou o anjo aos pés da Virgem e partiu.
Pouco tempo depois da morte de Saramago, encontrava-me numa grande livraria do Rio de Janeiro, quando dei com uma linda fotografia do escritor, com seu nome, anos de nascimento (1922) e morte (2010), e as palavras Saudade não tem remédio. A foto, em papel brilhante de ótima qualidade, vinha colada a um cartão com dispositivo dobrável por detrás, de modo que permanecia de pé, chamando a atenção dos transeuntes. Desejei imediatamente aquela fotografia, que seria emoldurada e posta em meu consultório, em homenagem ao grande escritor! Procurei o gerente da livraria e pedi-a de presente. Ele negou. Implorei que ma vendesse. Ele negou mais uma vez, alegando que o “produto” precisava ser devolvido à editora, terminada a campanha publicitária. Só não lhe sugeri o que devia fazer com o tal produto, em virtude do retratado ser quem era.
Na semana seguinte, chegando a Brasília, ao entrar em outra grande livraria, dei de cara com a mesma fotografia! Freguês antigo que sou, pensei, Agora está no papo. Engano meu. Nem de presente, nem comprada. A gerente veio com o mesmo argumento, tinha que ser devolvida à editora, blá blá blá blá blá. Puta que pariu!
Passada a raiva inicial, resolvi arquitetar um plano mais ou menos complicado. A porta da livraria dispunha de alarme, qualquer livro que passasse sem ser desmagnetizado, era aquele escândalo. Examinei cuidadosamente o objeto e não encontrei sinal do dispositivo que faria soar o alarme. Mesmo assim, fingindo que falava ao telefone, “distraído” portanto, peguei a fotografia, passei pela porta e retornei imediatamente para o interior da livraria. Silêncio! Nada de alarme. Recoloqueia-a debaixo de uma pilha de livros, onde não seria encontrada por ninguém e fui almoçar com meus três amigos, que presenciavam estupefatos todas aquelas minhas estranhas manobras.
Não se tocou no assunto durante o almoço. Voltamos à livraria para o café. Depois do café, escolhi um livro de tamanho maior que a fotografia, paguei-o no caixa e coloquei-o numa sacola de plástico. Voltei à pilha de livros, coloquei o produto – agora a palavra aplica-se com perfeição – na sacola juntamente com o livro, deixei a livraria sem alarde.
Um dos amigos que me acompanhava exclamou:
– Mas isso é roubo!
– É, respondi.
Nada mais foi dito, nada foi perguntado.
Não há quem deixe de elogiar a fotografia belamente emoldurada, ao vê-la em minha casa. Não é para qualquer um que relato a origem da mesma, mas sempre há o pretexto para uma boa conversa sobre José Saramago.
Deixo por conta do leitor o possível julgamento do dilema moral vivido pelos três personagens desta história, se é que dilema houve no primeiro e terceiro exemplos. Parece que Saramago foi tentado pelo demônio interior que habita todos nós. Francisco e eu, suponho, consideramos as circunstâncias, certos de que daríamos – e demos – melhor destino aos dois objetos subtraídos, e trazemos a consciência tranquila – também suponho.
Tudo é mesmo muito relativo, quando se trata de ganhar ou perder as almas.