Como o
jazigo da família tinha todos os lugares ocupados, julgava-se imortal. Morreu
de uma queda da própria altura.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
diário caminhar
Ao meu amigo Sergio Pripas
à luz da
manhã
cada nova
caminhada
flores e
perfumes
Foto: A.Vianna, Brasília, fev.2014.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Carta ao Dr. Alberto, junho de 2009.
A Carta ao Dr. Alberto,
Brasília, junho de 2009.
Prezado Dr.
Alberto,
tomo a
liberdade de lhe escrever, primeiro para agradecer a acolhida em sua Oficina de
Escrita, o Sr. não faz ideia de quanto isso tem sido importante para mim, ainda
me sinto intimidada diante dos outros participantes, mas acho que, com o tempo,
vou ganhando confiança, espero, e aprendo a escrever melhor, com sua prestimosa
ajuda, é claro. O segundo motivo desta carta é justamente a ESCRITA.
Tenho algumas ideias sobre o assunto
e gostaria de reparti-las com o Sr., mas surge sempre um pensamento automático
que se intromete por entre outros pensamentos meus, o de que uma reles
cabeleireira não deve estar a falar destas coisas... Ao vencer esta barreira,
então posso pensar melhor sobre o que tenho a dizer. Será que isso também
acontece com outras pessoas, independentemente da profissão e da importância
delas?
O que tenho a dizer começa pela ideia de que é de tanto ler que surge a
vontade de escrever. Quando a gente lê, nossa cabeça se enche de ideias dos
outros, de quem escreveu aquilo que lemos, e estas ideias vão se acumulando,
vão se misturando umas às outras em nossa mente, até que, a partir daí, começam
a brotar nossas próprias ideias. E são essas que aparecem quando a gente pega
papel, lápis e borracha e começa a escrever. É por isso que ouvi na Oficina que
é preciso ler para escrever. Concordo, Dr. Alberto.
Fiquei pensando no que disse uma moça que também frequenta a Oficina,
quando conversávamos sobre esse processo que se chama Escrita. Parece que ela
se assustou com essas ideias e de repente falou Mas assim eu vou me revelar!
Foi aquele silêncio, todos pegos de surpresa, de início ninguém entendeu muito
bem o significado daquelas palavras, O que seria “revelar-se”.
Mas é isso mesmo que acontece quando a gente escreve, Dr. Alberto.
Muitas vezes nos revelamos a nós mesmos! Se a gente guarda um escrito na gaveta
e o lê tempos depois, pode acontecer da gente se perguntar Foi eu mesma quem
escreveu isso? Estava em mim e eu não sabia. Uma revelação!
(Ninguém soube o porquê, mas depois daquela descoberta, a tal moça não
voltou mais à Oficina. Fiquei pensando, Do que será que ela tinha tanto medo? O
que havia dentro dela que jamais poderia ser revelado? Posso perguntar, Que
crime ela havia cometido? Tem muita gente assim no mundo, Dr. Alberto,
carregando o sofrimento de crimes que pensa ter cometido. Acho que o nome disso
é CULPA, o Sr. o que pensa? Um moço também lá da Oficina, psicanalista e muito
bonito, escreveu que culpa tem a ver com o Complexo de Édipo e outros
sentimentos enraizados em nosso Inconsciente, mas eu não entendo nada disso,
Dr. Alberto, me desculpe. Mas vou estudar sobre o assunto, prometo.)
Tenho aprendido muito nessa vida, lendo, escrevendo e cortando cabelo
de homem. O Sr. sabe que a gente aprende muito ao escrever? Começo a escrever
uma história, não faço ideia de onde ela vai parar, nem desconfio do final, vou
escrevendo, escrevendo, e de repente a história toma um certo rumo que não
depende da minha vontade, o Sr. acredita? Aí eu aprendo comigo mesmo, porque as
ideias só podem ter vindo da minha pobre cachola, o Sr. desculpe a palavra
tola, mas comigo é assim, acho que é o resultado de tudo que vivi e li e
escrevi até agora, uma salada mista.
Se o Sr. tiver paciência comigo, vou continuar aprendendo em sua
Oficina e, quem sabe, um dia viro escritora.
Com admiração e amizade, da sua aluna
Suzete.
Arte grega
A foto do dia.
Bronze do deus grego Apolo, esculpido entre o quinto e o primeiro séculos AC, é encontrado na Faixa de Gaza.
Tolerância
A crônica de hoje do Hélio Schwartsman
na Folha de S. Paulo, intitulada Tolerar a intolerância (1), é de arrepiar! Curta, limpa, clara,
objetiva, inteligente, bem escrita, mostrando o quanto é importante saber
pensar. Não resisto à tentação de comentá-la neste pobre blog.
Transcrevo
o trecho que mais me impressionou e que desejo repensar:
“...a democracia, ao contrário do que se apregoa, deve, sim,
admitir pregações nazistas, racistas e antidemocráticas. No instante em que o
sujeito tenta colocar essas ideias em prática, aí é hora de chamar a polícia.
Existe, afinal, uma fronteira mais ou menos natural entre o discurso e a
prática. É melhor aproveitá-la do que atribuir a alguém o poder de arbitrar
entre o que é ou não uma declaração aceitável.”
O
articulista chama nossa atenção para o limite entre o discurso e a prática,
limite este que nem sempre é claro e pode confundir homens e nações. As
invasões dos países vizinhos pelos nazistas, sem uma resposta a altura dos
demais, constitui prova cabal deste fato.
Parodiando André Green, psicanalista
francês (de origem egípcia, nascido no Cairo) recém falecido, o limite entre
discurso e ação não é uma linha fácil de ser identificada; antes, trata-se de
uma zona de fronteira, uma faixa de extensão variável, mais ou menos larga e
capaz de confundir os habitantes de cada lado.
Quando pensamos de modo diverso de
nosso interlocutor, e com frequência nos colocamos em lados opostos, tentamos
invadir o território alheio com nossas convicções.
Bem, aí é que o Schwartsman faz a
diferença: chega um momento em que é preciso chamar a polícia! Enquanto
discurso, podemos ouvir tudo, cobras e lagartos, delírios, ilusões,
ignorâncias, bobagens e bobagens e bobagens. Diante de uma ação, é preciso
reagir.
As implicações políticas e sociais
deste conceito são amplas e clamam por atitudes tanto individuais quanto da
sociedade.
E Schwartsman arremata:
“A liberdade de expressão, ao assegurar que todos os temas
possam ser debatidos sob todos os ângulos, catalisa a necessária reciclagem dos
consensos sociais. Num passado não muito remoto, queimar infiéis, prender
adúlteros e manter escravos eram ideias respeitáveis que tinham o amparo da
opinião pública.”
Ou
seja, conversar é preciso. E penso que a tolerância começa por saber ouvir.
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