quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

sobre dois versos de ana cristina cesar


ana sabiamente diz que
“é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço”
no poema intitulado
“recuperação da adolescência”

com a chegada da velhice
é possível sentir o poema
de um outro modo

o desfazimento do corpo
o lóbulo da orelha esquerda
ameaça desprender-se da face
o coração titubeia
com os entupimentos
a memória se esvai
água de torneira escancarada
os músculos cansados
uma certa falta de ar
os olhos baços

corpo evanescente
com isso surge a leveza
as coisas já não têm importância
tempo de doar os livros
doar as roupas
nada de pedidos ou exigências

o tempo não importa mais
ler somente livros pequenos
conversar mais com os cães
escrever quando dá vontade
sem perguntar por quê
nem para quem

algo a ver com imortalidade?
talvez talvez talvez
agora é tempo de dúvida
nada é certo
nada é eterno
nada é confiável

nem mesmo o amor?
muito menos o amor
que nunca foi eterno
muito menos confiável

com o desfazimento lento
inexorável do corpo
o que resta?
o Nada
seu grito silencioso
e por isso tão leve
que torna bem mais fácil
ancorar o navio no espaço

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O cão é fiel.

A foto do dia.


Cego e cão guia caem nos trilhos e são atingidos por metrô em Nova Iorque.

Futebol, culpa e circunstâncias


A crônica do Hélio Schwartsman no Estadão de hoje, Limites do legalismo (1), está primorosa a tal ponto que não resisto ao desejo de pensar um pouco mais sobre o assunto neste blog. Tudo começou com o rebaixamento da Portuguesa para a série B do Brasileirão (depois dizem que futebol não é coisa séria...), pela aplicação pura e simples do regulamento.
            Schwartsman pergunta: “Cumprir a lei em todas as ocasiões nos levaria a um mundo melhor?” E responde: “Tanto por razões teóricas como práticas, o legalismo estrito é uma posição incoerente. ...É impossível traduzir para um conjunto finito de regras discretas (as leis) a totalidade dos comportamentos que desejamos promover.”
            Em outras palavras, é preciso sempre levar em conta as circunstâncias.
            Deixo por instantes o futebol de lado (embora, no caso em questão, continue torcendo pela Lusa) para aplicar este conceito a um dos sentimentos humanos mais comuns, o sentimento de culpa.
            A culpa parece algo maior, universal mesmo. A Igreja Católica, espertamente, aproveitou-se dela para criar dois poderosos mecanismos de controle sobre seus fieis. O primeiro é o pecado original – você é culpado por ter nascido – e só poderá ficar livre deste pecado através da Igreja. O segundo é o eficientíssimo sistema da confissão: você peca, eu perdoo, você fica autorizado a pecar novamente, mas agora está nas minhas mãos.
            Mas voltemos à culpa que não leva em conta as circunstâncias. Um certo pai de família, homem honrado e ainda jovem, ofereceu aos amigos uma festa de aniversário em sua própria casa. Por isso, seu cão permaneceu preso durante todo o dia, para não incomodar os convidados. À noite, terminada a festa, com pena do pobre animal, embora cansado pela trabalheira do aniversário, resolveu levá-lo para um passeio. O animalzinho saiu latindo e pulando de alegria. Pelas tantas, num grande terreno baldio, o dono soltou o cão da coleira, para que ele pudesse exercitar-se, depois do longo dia de cativeiro. O animal disparou em direção à pista, e ao tentar atravessá-la, foi atropelado e morreu. O homem passou longo tempo remoendo torturante sentimento de culpa, Por que fui soltá-lo, Porque fui soltá-lo?, repetia sem poder pensar em outra coisa.
            Em nenhum momento o homem levou em consideração as razões pelas quais levou o cão para passear, embora cansado da festa; não pensou na necessidade do animal em distender os músculos; na felicidade de poder correr num terreno baldio, depois de um dia de prisão; no próprio amor que nutria pelo animal de estimação. Não havia espaço em sua mente para pensar as circunstâncias, completamente tomada pelo sentimento de culpa.
            Em lugar de absolvição, precisamos mesmo é de aprender a analisar o mundo em que vivemos, reconhecer nossas limitações, levar em conta as circunstâncias que nos rodeiam, a cada passo que damos nessa vida.
Schwartsman, com a lucidez costumeira, termina sua crônica reafirmando que, “Gostemos ou não, definir as situações em que devemos ignorar leis é tão importante quanto aplicá-las. Se não fosse assim, poderíamos substituir os juízes por iPads com um software que decidiria a pena a partir de uma descrição do caso. Poucos gostariam de ser julgados dessa forma.”

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Dinheiro jogado fora

A foto do dia.


Até que enfim: cientistas anunciam que suplementos vitamínicos são dinheiro jogado fora, quando não, prejudiciais à saúde.

Referência: http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2013/dec/17/vitamin-supplements-waste-money-scientists

Palavras cruzadas


As palavras cruzadas completam 100 anos no próximo 21 de dezembro. O primeiro jogo de palavras cruzadas foi publicado no The New York World em 21 de dezembro de 1913, e seu inventor foi Arthur Wynne.

 Segundo Will Shortz, editor do New York Times, o
 sucesso foi enorme entre os leitores, porém, como não foi registrada a patente, Wynne nunca auferiu qualquer benefício com seu invento. (1)
            No jornal O Estado de São Paulo, a seção de palavras cruzadas estreou em 2 de abril de 1950, e é publicada até hoje no Caderno 2.
            Ao final dos anos 50 e início dos 60, meu pai era assinante e leitor assíduo deste jornal, diariamente entregue em nossa casa, no interior de São Paulo. O objeto era tratado como algo sagrado! Ai de quem ousasse tocá-lo – folhear o jornal então, nem pensar –, incluindo os filhos e até nossa mãe, antes que o pai o lesse.
            A leitura constituía-se de verdadeiro ritual. Realizava-se sobre a mesa da sala, onde o jornal era cuidadosamente aberto página a página, as folhas mantidas bem arrumadas em seus respectivos cadernos, de modo que, ao final da leitura, a impressão que tínhamos era a de que o jornal ainda não havia sido folheado. Aí sim, só então podíamos abri-lo, quase sempre em busca das tirinhas ou do Suplemento Infantil.
            Até me interessei pelas palavras cruzadas. Para a minha idade e vocabulário, eram dificílimas! Mas não desisti, sempre com a ajuda do pai, que de certa forma me incentivava. Tornou-se motivo de piada na família quando certa vez lhe perguntei, Pai, o que é fluxo e refluxo das águas do mar? A graça estava no fato de que pronunciei as palavras fluxo e refluxo com som de ch, como em “luxo”. O pai soltou gostosa gargalhada, corrigiu minha pronúncia e respondeu, Maré. Lembro-me muito bem de que não me senti nem um pouco ofendido com as risadas; era mesmo engraçada a minha ignorância infantil, eu podia perceber isso, além do que acabara de aprender mais uma palavra, com a ajuda do pai.
            Um pouco mais crescidinho, resolvi eu mesmo construir um jogo de palavras cruzadas e enviá-lo ao jornal. Tomei como modelo um quadriculado semelhante ao que era publicado e passei dias e dias, talvez semanas, na árdua tarefa de cruzar as palavras em um quebra-cabeças. Depois de pronto, remeti-o ao Estadão, pelos Correios, naturalmente.
            Desde então, tinha a consciência de que jamais veria minha obra publicada, e isso não me incomodava. Bastava o feito em si, do qual muito me orgulhava: eu havia enviado minhas palavras cruzadas para o jornal!
            Poucos anos depois nos mudamos para o Rio de Janeiro, e meu pai deixou de ler o Estadão. Após 10 anos, ao voltar a passeio a Guaratinguetá, encontrei-me com um ex-colega de ginásio que veio logo me dizendo, André, sabe que vi no Estadão uma palavra cruzada com seu nome como autor?! Era você mesmo?, perguntou incrédulo.
Era eu.