domingo, 29 de dezembro de 2013
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Inacreditável
A foto do dia.
Estátua de
Drummond, na Praia de Copacabana, é pichada na noite de Natal. Não eram bêbados
ou drogados, pareciam muito “lúcidos” os jovens pichadores.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
sobre dois versos de ana cristina cesar
ana sabiamente
diz que
“é sempre
mais difícil
ancorar um
navio no espaço”
no poema intitulado
“recuperação
da adolescência”
com a
chegada da velhice
é possível
sentir o poema
de um outro
modo
o
desfazimento do corpo
o lóbulo da
orelha esquerda
ameaça
desprender-se da face
o coração
titubeia
com os
entupimentos
a memória se
esvai
água de torneira
escancarada
os músculos
cansados
uma certa
falta de ar
os olhos
baços
corpo
evanescente
com isso
surge a leveza
as coisas já
não têm importância
tempo de
doar os livros
doar as
roupas
nada de
pedidos ou exigências
o tempo não
importa mais
ler somente
livros pequenos
conversar
mais com os cães
escrever quando
dá vontade
sem
perguntar por quê
nem para
quem
algo a ver
com imortalidade?
talvez
talvez talvez
agora é
tempo de dúvida
nada é certo
nada é
eterno
nada é
confiável
nem mesmo o
amor?
muito menos
o amor
que nunca
foi eterno
muito menos
confiável
com o
desfazimento lento
inexorável
do corpo
o que resta?
o Nada
seu grito
silencioso
e por isso
tão leve
que torna
bem mais fácil
ancorar o
navio no espaço
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
O cão é fiel.
A foto do dia.
Cego e cão guia caem nos trilhos e são atingidos por metrô em Nova Iorque.
Futebol, culpa e circunstâncias
A crônica do Hélio Schwartsman no
Estadão de hoje, Limites do legalismo
(1), está primorosa a tal ponto que não
resisto ao desejo de pensar um pouco mais sobre o assunto neste blog. Tudo
começou com o rebaixamento da Portuguesa para a série B do Brasileirão (depois
dizem que futebol não é coisa séria...), pela aplicação pura e simples do regulamento.
Schwartsman pergunta: “Cumprir
a lei em todas as ocasiões nos levaria a um mundo melhor?” E responde: “Tanto
por razões teóricas como práticas, o legalismo estrito é uma posição
incoerente. ...É impossível traduzir para um conjunto finito de regras
discretas (as leis) a totalidade dos comportamentos que desejamos promover.”
Em outras palavras, é
preciso sempre levar em conta as circunstâncias.
Deixo por instantes o
futebol de lado (embora, no caso em questão, continue torcendo pela Lusa) para
aplicar este conceito a um dos sentimentos humanos mais comuns, o sentimento de
culpa.
A culpa parece algo
maior, universal mesmo. A Igreja Católica, espertamente, aproveitou-se dela
para criar dois poderosos mecanismos de controle sobre seus fieis. O primeiro é
o pecado original – você é culpado por ter nascido – e só poderá ficar livre
deste pecado através da Igreja. O segundo é o eficientíssimo sistema da
confissão: você peca, eu perdoo, você fica autorizado a pecar novamente, mas
agora está nas minhas mãos.
Mas voltemos à culpa
que não leva em conta as circunstâncias. Um certo pai de família, homem honrado
e ainda jovem, ofereceu aos amigos uma festa de aniversário em sua própria
casa. Por isso, seu cão permaneceu preso durante todo o dia, para não incomodar
os convidados. À noite, terminada a festa, com pena do pobre animal, embora
cansado pela trabalheira do aniversário, resolveu levá-lo para um passeio. O
animalzinho saiu latindo e pulando de alegria. Pelas tantas, num grande terreno
baldio, o dono soltou o cão da coleira, para que ele pudesse exercitar-se,
depois do longo dia de cativeiro. O animal disparou em direção à pista, e ao
tentar atravessá-la, foi atropelado e morreu. O homem passou longo tempo
remoendo torturante sentimento de culpa, Por que fui soltá-lo, Porque fui
soltá-lo?, repetia sem poder pensar em outra coisa.
Em nenhum momento o
homem levou em consideração as razões pelas quais levou o cão para passear,
embora cansado da festa; não pensou na necessidade do animal em distender os
músculos; na felicidade de poder correr num terreno baldio, depois de um dia de
prisão; no próprio amor que nutria pelo animal de estimação. Não havia espaço em
sua mente para pensar as circunstâncias, completamente tomada pelo sentimento
de culpa.
Em lugar de absolvição,
precisamos mesmo é de aprender a analisar o mundo em que vivemos, reconhecer
nossas limitações, levar em conta as circunstâncias que nos rodeiam, a cada
passo que damos nessa vida.
Schwartsman, com a lucidez costumeira,
termina sua crônica reafirmando que, “Gostemos ou não, definir as situações em
que devemos ignorar leis é tão importante quanto aplicá-las. Se não fosse
assim, poderíamos substituir os juízes por iPads com um software que decidiria
a pena a partir de uma descrição do caso. Poucos gostariam de ser julgados
dessa forma.”
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Dinheiro jogado fora
A foto do dia.
Até que enfim: cientistas anunciam que suplementos vitamínicos são dinheiro jogado fora, quando não, prejudiciais à saúde.
Referência: http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2013/dec/17/vitamin-supplements-waste-money-scientists
Palavras cruzadas
As palavras cruzadas completam 100 anos no próximo 21 de
dezembro. O primeiro jogo de palavras cruzadas foi publicado no The New York
World em 21 de dezembro de 1913, e seu inventor foi Arthur Wynne.
Segundo Will
Shortz, editor do New York Times, o
sucesso foi enorme entre os leitores,
porém, como não foi registrada a patente, Wynne nunca auferiu qualquer
benefício com seu invento. (1)
No jornal O Estado
de São Paulo, a seção de palavras cruzadas estreou em 2 de abril de 1950, e é publicada
até hoje no Caderno 2.
Ao final
dos anos 50 e início dos 60, meu pai era assinante e leitor assíduo deste
jornal, diariamente entregue em nossa casa, no interior de São Paulo. O
objeto era tratado como algo sagrado! Ai de quem ousasse tocá-lo – folhear o
jornal então, nem pensar –, incluindo os filhos e até nossa mãe, antes que o
pai o lesse.
A leitura
constituía-se de verdadeiro ritual. Realizava-se sobre a mesa da sala, onde o
jornal era cuidadosamente aberto página a página, as folhas mantidas bem
arrumadas em seus respectivos cadernos, de modo que, ao final da leitura, a
impressão que tínhamos era a de que o jornal ainda não havia sido folheado. Aí sim, só então podíamos abri-lo, quase sempre em busca das tirinhas ou do Suplemento Infantil.
Até me
interessei pelas palavras cruzadas. Para a minha idade e vocabulário, eram
dificílimas! Mas não desisti, sempre com a ajuda do pai, que de certa forma me
incentivava. Tornou-se motivo de piada na família quando certa vez lhe
perguntei, Pai, o que é fluxo e refluxo das águas do mar? A graça estava no
fato de que pronunciei as palavras fluxo e refluxo com som de ch, como em
“luxo”. O pai soltou gostosa gargalhada, corrigiu minha pronúncia e respondeu,
Maré. Lembro-me muito bem de que não me senti nem um pouco ofendido com as
risadas; era mesmo engraçada a minha ignorância infantil, eu podia perceber
isso, além do que acabara de aprender mais uma palavra, com a ajuda do pai.
Um pouco
mais crescidinho, resolvi eu mesmo construir um jogo de palavras cruzadas e
enviá-lo ao jornal. Tomei como modelo um quadriculado semelhante ao que era
publicado e passei dias e dias, talvez semanas, na árdua tarefa de cruzar as
palavras em um quebra-cabeças. Depois de pronto, remeti-o ao Estadão, pelos
Correios, naturalmente.
Desde
então, tinha a consciência de que jamais veria minha obra publicada, e isso não
me incomodava. Bastava o feito em si, do qual muito me orgulhava: eu havia
enviado minhas palavras cruzadas para o jornal!
Poucos
anos depois nos mudamos para o Rio de Janeiro, e meu pai deixou de ler o
Estadão. Após 10 anos, ao voltar a passeio a Guaratinguetá, encontrei-me com um
ex-colega de ginásio que veio logo me dizendo, André, sabe que vi no Estadão
uma palavra cruzada com seu nome como autor?! Era você mesmo?, perguntou
incrédulo.
Era eu.
Assinar:
Postagens (Atom)


