"Foi saquear. Levou a mercadoria. E deixou o bebê."
Este perfeito microconto é de autoria de Ariel Palacios, correspondente do Estadão em Buenos Aires, encontrado em seu blog http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/foi-saquear-levou-a-mercadoria-e-deixou-o-bebe/ , e aqui reproduzido no Louco por cachorros, pois encaixa-se perfeitamente na série Baseado em fatos reais.
Ilustra o caos argentino, com a greve de policiais e os saques que se multiplicam pelo país.
Um certo casal conduzia o carrinho do bebê quando resolveu saquear a loja. Com a chegada da polícia, levou o produto do saque e esqueceu o bebê!
Ficção e realidade se confundem! Ou, contando ninguém acredita!
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
A lição da ouvinte
Dona Ondina
gostava de dizer – eu nunca soube se ela própria era a autora da teoria ou se a
ouviu em algum lugar: Música clássica a gente primeiro começa gostando das
sinfonias, aquela festa, orquestras enormes, cordas, metais, madeiras,
percussão, aquilo tudo emociona a gente, bate aqui dentro do peito e ressoa,
impressiona; depois a gente passa a gostar dos concertos para orquestra e
instrumento solista, piano, violino, violoncelo, oboé, fagote, clarineta, mais
raramente um contrabaixo, ou uma viola; ainda ouvimos o som da orquestra, que
de repente dá vez a um único instrumento, que brilha sozinho e nos comove; por
fim, o que nos impressiona mesmo é a música de câmera, os duos, trios, especialmente
os quartetos de cordas, que reproduzem com dois violinos, uma viola e um cello todos os matizes da orquestra; há
também os quintetos, os que incluem o piano são belíssimos, os sextetos, e por
aí afora.
Hoje, concordo com ela, ouvinte
amadora de música erudita, mulher observadora, sagaz e de bom gosto. Porque
conservadora ao extremo, suas escolhas terminavam em Brahms; começavam com Bach
e Mozart; chegavam ao ápice com Ele, Beethoven; terminavam em Johannes Brahms.
Nada de Béla Bartók, Stravinsky, nem mesmo os magistrais quartetos para cordas
do nosso Villa-Lobos escapavam. Muito barulho, muito barulho, atordoa a gente,
dizia ela.
É possível que o conselho de Dona Ondina
tenha alguma serventia para os iniciantes. Embora nunca tenha tido qualquer
aprendizado formal em música, considero-me assíduo ouvinte de música erudita
nos últimos 40 anos. Pois não é que recentemente me surpreendi ao voltar a
ouvir os quartetos para cordas de Mozart! São mágicos! O quarteto em dó maior no
19, K 465, apelidado Dissonante, concluído em janeiro de 1785, continua sendo
meu preferido, particularmente pelo seu início, onde as dissonâncias são mais
evidentes. O adágio que serve de introdução a este primeiro movimento está
séculos à frente de seu tempo; quem nunca o escutou jamais o identifica como
sendo Mozart; quem já o ouviu, nunca esquece. Penso que nem mesmo o compositor
aguentou tamanha inovação, e logo volta ao seu estilo clássico inconfundível,
ainda no Allegro do primeiro
movimento. (Se o leitor dispuser de tempo, ele pode ter agora mesmo uma pequena
amostra com o Gewandhaus Quartet: http://www.youtube.com/watch?v=6Zcy-zs9jmw&list=RD7n8BZT_1H8M
, com mais de 56.000 acessos pela Internet.)
O ouvinte que se interessar pelo
quarteto de cordas terá um mundo inesgotável pela frente, incontáveis os
compositores que experimentaram este formato musical. Quando ele chegar aos
últimos quartetos de Beethoven (Dona Ondina, minha mãe, não chegou a apreciá-los, embora
fossem Dele), passando por Bartók e Villa-Lobos, poderá voltar a Haydn e Mozart,
e começar tudo de novo. Tarefa para uma vida inteira!
Laranja mecânica
O pai foi
amante incondicional de Beethoven. A filha, por tudo que sofreu na infância, nutre profundo ódio por Beethoven.
ciclos
finda a primavera
mosquitos alvoroçados
o verão chegando
Foto: A.Vianna, fundo de quintal, dez. 2013.
Diálogo de segunda-feira
...
– pela cara, você é vascaíno...
– pela cara, você é vascaíno...
– e você
torce pelo Fluminense.
– acertou.
– e você,
como adivinhou?
– tá na
cara.
– é mesmo.
– que merda,
não?
–
merdíssima.
– como foi
acontecer?
– jogamos
mal.
– culpa dos
técnicos ou dos jogadores?
– de ambos.
– no último
jogo, que lambança vocês fizeram!
– foi mesmo,
coisa feia, estamos sendo chamados de vândalos.
– liga não,
esta palavra agora serve pra tudo que não se explica.
– e você,
por acaso sabe a explicação?
– coisa de
gente, desde sempre.
...
...
Gesto histórico
A foto do dia.
Obama aperta mão de Raúl Castro no funeral de Mandela.
Foto: Getty Images
Carta de Natal às filhas
Queridas
filhas,
não haverá de me causar
surpresa se ocorrer algum estranhamento, produzido por uma carta de Natal
dirigida a vocês, que bem conhecem minha descrença na religião, ou nas
religiões melhor dizendo, incluindo o tal “espírito do Natal”. (Feliz Rainer
Maria Rilke, homem religioso e grande poeta que, durante 25 anos consecutivos,
de 1900 a 1925, enviou uma carta de Natal à sua mãe.) Portanto, não me peçam
explicações ou justificativas, muito menos coerência; nem da arte de Rilke
posso dispor. Apenas, aproveito o momento para senti-las mais próximas, enquanto
escrevo a vocês, neste fim do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de
2013.
Os dias em
que nasceram as minhas filhas estão entre os que considero os mais felizes de
minha vida. A nossa convivência ao longo desses anos foi o que de melhor obtive
nesta vida. Meu pai, por razões religiosas, dizia que este é um mundo de
expiação e provas. Concordo com ele quanto ao efeito, mas por causas bem
diversas, penso que se trata de um mundo onde predominam as frustrações, e não
busco qualquer sentido que possa explicar tal afirmação. A não ser a falta de
sentido mesma.
Pois a presença de vocês empresta sentido à minha vida.
Como em todas as relações humanas, ou entre humanos para
ser bem preciso, há momentos de dificuldade também entre pais e filhos. Não
poderia ser diferente, mesmo considerando o especialíssimo fato de que se trata
de filhos e seus pais, todos humanos, consequentemente imperfeitos na origem.
Borges afirma: “Uns quinhentos anos antes da era cristã
aconteceu na Magna Grécia a melhor coisa registrada na história universal: a
descoberta do diálogo”. Se tal descoberta é tão antiga, por que ainda é tão
raro que seja praticada, tão difícil de se realizar? Por que os homens têm
tanta dificuldade para aprender a conversar? Isso também se aplica a pais e
filhos, e me incluo de corpo e alma em ambas as categorias, filho e pai.
Há razões particulares para que pais e filhos, em
determinadas circunstâncias, tenham dificuldade para estabelecer o diálogo.
Isso pode parecer paradoxal: o amor não seria então suficiente para garantir o
permanente diálogo entre eles? Não é suficiente. Onde há muito amor também há
ódio, isso é humano e inevitável, mesmo em se tratando de gente do mesmo
sangue.
Admitir sentimentos menos virtuosos em nós mesmos, até
com relação aos que mais amamos, pode nos facilitar o retorno ao diálogo, com a
vantagem de nos propiciar algum aprendizado a partir desta experiência. Sem
moralismos. Triste é quando nada aprendemos.
A palavra perdão está gasta, pelo que costumo chamar de
“sentimento religioso”. Prefiro a expressão “retorno ao diálogo”. Nisso o amor
pode ajudar! O amor é um sentimento facilitador para a aproximação das pessoas.
O ódio afasta, o amor aproxima. A oscilação entre estes dois sentimentos
básicos do ser humano não deve ser vista como um problema, mas como
oportunidade para aprender, enquanto estivermos vivos.
Meu desejo é que tal oscilação incline-se cada vez mais
para os sentimentos amorosos entre nós, o que há de preservar a concórdia, a paz
e a tranquilidade para nossas vidas.
Do pai que as ama muitíssimo, com renovado carinho,
andré.
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