quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Laerte

A foto do dia.


Laerte é o homenageado da 8a Balada Literária, em São Paulo, para discutir a questão do gênero, sob a ótica Do literário ao sexual.

Foto: Denise Andrade, Estadão.

O valor do silêncio


A respeito do mensaleiro fujão Henrique Pizzolato, que aparentemente se encontra na Itália, a imprensa traz hoje notícia interessantíssima, da qual podemos extrair grandes ensinamentos!
            O governo italiano estava ciente das manobras do fujão, tanto que providenciou segunda via de seu passaporte, o que lhe permitiu evadir-se. Agora, divulgado este fato, o mesmo governo recomendou a todos os ministérios que permaneçam em completo silêncio sobre o caso, para evitar uma crise diplomática.
            Eis a grande lição: quando não sabemos o que dizer, devemos permanecer calados. Parece muito simples, simplória até, a medida. Mas não é, pois a nossa tendência natural é “saber”, ou pensar que sabemos, e emitir opiniões diante de complicadas matérias sem pestanejar.
   Difícil é não saber. E, portanto, calar-se!
            E para não me comprometer ainda mais, contradizendo o que vai acima, encerro aqui esta curtíssima crônica.
            

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Liberdade

A foto do dia.


Ana Paula Maciel sai da prisão após pagar fiança, em São Petersburgo, Rússia.

Foto: Vladimir Baryshev/AFP/Getty Images

Esquizofrênicos somos todos nós!



O artigo de Eugênio Bucci, Se a palavra condena, a imagem consagra, de 19/11/2013, publicada no Observatório da Imprensa (1) trata de tema antigo, mas de forma tão elegante, que trago aqui para reflexões complementares. Vejamos o que diz parte do texto:
“Sim, o pêndulo entre imagem e palavra tende para o bem, mas, ao mesmo tempo, abre contradições que, para boa parte dos profissionais da imprensa, são simplesmente insolúveis. Um eloquente exemplo dessa esquizofrenia nós tivemos agora, de poucos meses para cá. De um lado, todos os editoriais de todos os veículos de comunicação do País registraram críticas mais ou menos agudas à agressividade violenta dos black blocs. Na outra ponta, as fotografias e as imagens de TV endeusavam a persona do black bloc, com suas máscaras de lã, suas botinas de pedra e suas garrafas flamejantes. Graças ao tratamento fotográfico que recebeu, essa persona foi investida de uma aura artificial de romantismo incendiário, de paixão, de coragem adolescente. Enquanto as palavras tentavam ser severas com os tais “vândalos” (entre aspas, pois a polícia também enveredou pelo vandalismo e, apesar disso, nunca mereceu esse adjetivo das coberturas dominantes), as fotografias produziam deles uma iconografia heroica e fetichista.”

            Bucci chama de esquizofrênica a contradição entre palavra e imagem no caso dos black blocs, atualíssimo fenômeno ainda por ser mais bem explicado pelos que estudam o assunto. Gostei da adjetivação esquizofrênica. É assim mesmo que funciona nossa cabeça, diante de uma aparente contradição: ocorre uma cisão da mente, entre razão e sentimentos.
            A palavra puxa pela razão. É com ela que organizamos nossos pensamentos, compostos de razão e emoções. A palavra nos ajuda a pensar, seja ela lida (o sujeito é o leitor), e com muito mais força, se for escrita (o sujeito é o autor do texto), e pensar significa considerar também as emoções, repito.
            A imagem puxa pelos sentimentos. Antes mesmo que surja um pensamento, alguma coisa já mudou em nosso cérebro, independentemente de nossa vontade consciente. É como segurar inadvertidamente o cabo quente de uma panela: quanto retiramos a mão, ela já está queimada.
            Não adianta lutar contra esta dicotomia esquizofrênica, pois ela é primitiva, ontogenética, animal, arraigada demais. Melhor reconhecê-la, admiti-la, pensar sobre ela, e só então ver o que é possível fazer. Pensar é sempre a melhor solução.
            O fenômeno black bloc ainda pode nos servir de exemplo. À medida que os acontecimentos foram se repetindo, o expectador teve tempo para pensar sobre eles, e o que encontrou foi tão somente violência, destruição, irracionalidade, falta de sentido. O glamour foi aos poucos desaparecendo. (Repetir à náusea a denominação de “vândalos”, como fizeram alguns meios de comunicação, em nada ajudou a compreensão do expectador. Ao contrário, a repetição raivosa dos repórteres era uma outra forma de não-pensar, por não compreender o fenômeno, muito mais próxima de uma imagem do que da palavra sã.)
            Por associação de ideias, este mesmo modo de pensar pode ser estendido às nossas relações interpessoais. Velho já, revejo minhas experiências ao longo da vida e constato quão inepto fui em fazer das pessoas que ia conhecendo algum juízo de valor (parece inevitável nossa tendência ao julgamento), quase sempre levado pelas primeiras impressões, as imagens, metaforicamente falando. A despeito da inutilidade de qualquer julgamento, hoje procuro prestar mais atenção às palavras, nem sempre com sucesso.
            Por fim, gostaria de tentar remover um pouco do preconceito que a palavra esquizofrenia carrega. O conceito de Psicose em psicanálise não é o mesmo da psiquiatria. Se Freud disse que somos todos neuróticos, Bion, à sua maneira, classificou-nos a todos nós de psicóticos. Ou pelo menos destacou a importância da "parte psicótica" da nossa personalidade. Não é um xingamento, é apenas o fruto de acurada observação, como esta apresentada por Eugênio Bucci, ao tratar da contradição entre imagem e palavra.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Último pedido


Diante da sentença definitiva, pediu à mulher que lhe preparasse dois ovos fritos. Comeu-os com gosto.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

de supetão


tive inveja
ora veja
autoanálise

e eu que tanto sonho
não ponho tino
no onírico?

pai, mãe, morte
insepultos todos
ensombrecendo a noite

o sonho: sobre o que versa?
e o que faz sentido?
apenas resulta

em mim ferido
a ausência
da mútua conversa


Aldo Pereira Neto

(Poema escrito "de supetão", segundo o autor, após a leitura de uma postagem deste blog (Esta noite sonhei com a Morte), http://loucoporcachorros.blogspot.com.br/2013/11/20-esta-noite-sonhei-com-morte.html).

Caninognição


Nina Simone

Ainda não li o livro de Brian Hare e Vanessa Woods, Seu Cachorro É um Gênio! (Ed. Zahar), mas não resisto, desde já, a tratar do assunto!

Começo por relatar o intrigante comportamento de um de meus cachorros, uma Yorkshire atualmente com 8 anos de idade, que atende pelo nome de Nina Simone, mas também responde pelas alcunhas de Nina, Nininha e Menina. Ela é filha de Camões e Lola, ambos adquiridos de bons criadores, mas Nina nasceu aqui em casa – eu e minha mulher fizemos o parto.
Dos três, é a única que sobe na mesa ao final das refeições, em busca de restos de comida. Ela não aprendeu isso com seus pais, que nunca o fizeram, porém, é interessante registrar, dois irmãos dela, vivendo em casas de amigos, também desenvolveram tal comportamento. Serão os tais genes recessivos?
Logo que percebemos esta característica pouco civilizada, tratamos de educá-la, reprimindo-a com energia. Em nossa frente, Nina Simone nunca mais cometeu tamanha deselegância. Ela espera que nos levantemos, deixemos o ambiente, para só então voltar a subir na mesa...
Nos fins de semana costumamos tomar o café da manhã na varanda. Ao terminá-lo, caminhamos até o jardim, quando somos acompanhados por Camões, Lola e Nina. Para nossa surpresa, vimos que Nina, a meio do caminho, dá meia volta e, sorrateiramente, retorna à varanda e sobe na mesa. Incrédulos, repetimos a experiência por três ou quatro vezes, fingindo não prestar atenção na Menina, e ela repetiu a artimanha de sempre. Inteligência não lhe falta, tivemos que admitir!
Hare, neurocientista fundador do Centro de Cognição Canina da Universidade Duke, nos EUA, e sua mulher Vanessa Woods, baseados em estudos sobre o assunto que chamaram de caninognição – a cognição dos cães – chegaram à conclusão de que o processo evolutivo que transformou lobos em cachorros domésticos fez com que os animais adquirissem um novo tipo de inteligência social, tornando-os o segundo mamífero mais bem sucedido no planeta, atrás apenas do homem.
A população de cães de estimação aumenta em praticamente todos os países, ao passo que o mesmo não ocorre com o nascimento de bebês, que cai progressivamente em alguns países mais civilizados.  É cada vez mais comum encontrar animais cercados de mimos, tratados como filhos por seus donos. O sucesso dos cachorros entre os humanos pode ser explicado pela genialidade canina. Os autores descrevem seis características principais do cão, que justificam a teoria.

1. Entende a linguagem corporal humana:

O cachorro compreende perfeitamente gestos e olhares de seu dono, habilidade extremamente rara entre os animais (nem mesmo os chimpanzés podem interpretar tão bem nossos gestos).

2 . Pode aprender palavras:

Os cães podem ser treinados para aprender um grande número de palavras e seus significados, com relativa facilidade.

3. Consegue se comunicar com as pessoas:

Os cães usam diferentes tipos de latidos, rosnados, gemidos, ganidos para se expressarem e serem compreendidos pelos humanos. E os donos muitas vezes conseguem compreender os significados desses diversos “ruídos” de seus animais.

4. Faz e valoriza amizades:

            As amizades estabelecidas pelos cães ocorrem primordialmente para com os donos, mas também para com os filhos dos donos, os amigos dos donos, e entre os outros animais da casa . (Isso sou eu quem diz, não deve estar escrito no livro...)

5. Sente empatia:

O sentimento de empatia manifesto pelo cão, ou seja, de se sentir mal ao ver alguém sofrendo, ou ficar feliz quando alguém sorri, pode ser facilmente percebido por seu dono, em inúmeras circunstâncias. Podemos afirmar que, às vezes, o cão chora conosco, ou ri conosco.

6. É capaz de enganar o dono:

Bem, aqui é preciso citar textualmente o artigo cuja referência está no final desta crônica (1):
“A inteligência dos cachorros também tem seu lado negativo. Um estudo realizado na Universidade de Viena, na Áustria, mostrou que os cães sabem quando estão ou não sendo observados pelo dono e se comportam de formas diferentes de acordo com isso. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que os animais desobedecem mais ordens quando os donos não estão no mesmo ambiente que eles ou estão distraídos por alguma outra atividade, como ler ou ver TV.” 
           
Discordo radicalmente de que esta seja uma característica “negativa” dos cachorros. Esta é uma visão moralista do comportamento animal. As crianças pequenas exibem com frequência este mesmo tipo de comportamento, narcisista e de autopreservação. Os preceitos morais, o chamado processo civilizatório, vêm depois, para os humanos! Não para os cães.
            Nina Simone sabe quando está ou não está sendo observada, e decide qual atitude tomar, em função desta variável. O mais notável é que ela é capaz de conter o forte impulso instintivo de ir em busca de comida, ao saber que está sendo vigiada, pois já aprendeu que esta não é uma atitude permitida, civilizada portanto. Contudo, se reconhece que não está sendo observada, o instinto fala mais alto. Nina Simone não faz julgamentos morais.
            Nós, humanos, somos muito diferentes disso?

(1) http://veja.abril.com.br/noticia/saude/seu-cachorro-e-um-genio-saiba-o-porque?utm_source=redesabril_veja&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabril_veja&utm_content=feed&
Foto: A.Vianna, Brasília, 2009.