terça-feira, 5 de março de 2013
Esperança vã
O que ele gostaria, nunca aconteceu: que a filha lhe pedisse livros. Ela só pedia dinheiro.
segunda-feira, 4 de março de 2013
domingo, 3 de março de 2013
2084
Desde que ela se entendia por gente era a mesma
rotina noturna. Ao deitar-se, o pai, cientista de renome internacional,
aplicava-lhe nas têmporas dois eletrodos, conectados ao computador assentado na
mesinha de cabeceira.
Nunca
perguntou a razão daquele procedimento; pensava que era dali que vinha o sono,
uma boa e repousante noite de sono.
Quando completou 18 anos, o pai lhe deu
de presente uma coleção de DVDs contendo todos os seus sonhos.
Aos
25 anos iniciou uma análise. Levou os DVDs ao seu analista, mas ele já não
soube o que fazer com eles.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Guilherme de Almeida e o Haicai
Em homenagem ao meu pai.
Por influência
paterna, provavelmente, sempre admirei Guilherme de Almeida, em especial por
seus haicais. Guilherme de Andrade de Almeida nasceu em Campinas
em 24 de julho de 1890, e faleceu em São Paulo
em 11 de julho de 1969. Foi advogado, jornalista, crítico de
cinema, poeta,
ensaísta e tradutor. Participou da
Semana de 22, exercendo influente papel na poesia modernista brasileira.
Considerado
um dos incentivadores do desenvolvimento do haicai brasileiro, criou modelo
próprio para este tipo de poesia, de origem japonesa, basicamente composta de
um terceto, com 5 sílabas tônicas no primeiro verso, 7 no segundo e 5 no
terceiro. Guilherme de Almeida acrescentou as rimas entre o primeiro e terceiro
versos, e rimas internas entre a segunda e a última sílabas tônicas do segundo
verso. O modelo torna-se facilmente compreensível quando representado pelo
esquema:
____________
x
__ o
______________ o
_____________
x
Tal
modelo, por sua rigidez de forma, a exigir rigorosa disciplina do poeta, foi
rejeitado por muitos, sob a alegação de que não era este o espírito do haicai
japonês. Por outros foi enaltecido e ganhou fama. Porém, quem há de discordar
da beleza poética contida nos seguintes versos?
O haicai
Lava,
escorre, agita
a areia. E
enfim, na bateia,
fica uma
pepita.
Ou nesses outros:
O pensamento
O ar. A
folha. A fuga.
No lago, um
círculo vago.
No rosto,
uma ruga.
Ou ainda:
Infância
Um gosto de
amora
comida com
sol. A vida
chamava-se
“Agora”.
Tamanho
o entusiasmo de Guilherme de Almeida por esta nova forma poética, que ele acaba
por registrar em Os meus haicais, uma
verdadeira declaração de amor ao gênero: “Vinte
anos de poesia – uns 30 livros de versos escritos e uns 20 publicados –
levam-me hoje à conclusão calma (que não é uma negação à minha nem um sarcasmo
à obra dos outros) de que não há ideia poética, por mais complexa, que, despida
de roupagens atrapalhantes, lavada de toda excrescência, expurgada de qualquer
impureza, não caiba escrita e suficientemente, em última análise, nas 17
sílabas de um haicai.”
Outra novidade
atribuída a Guilherme de Almeida foi a introdução de um título para o haicai. E
chego então à razão desta crônica.
Isso que se
convencionou chamar de abrasileiramento do haicai teve, e continua tendo, suas
consequências. No primeiro exemplo intitulado O haicai, a palavra pepita que serve de fecho ao poemeto cai como
uma pérola, como que ofertando ao leitor belíssima definição de haicai: pequeno
e precioso como uma pepita de ouro! Mas só é possível associar o terceto à arte
do haicai se o leitor considerar o título. No segundo haicai, O pensamento, o título nada acrescenta,
é dispensável, e se é dispensável é porque está sobrando. No terceiro, Infância, ele acrescenta o elemento
temporal, que empresta particular sentido ao terceto.
Nem sempre isso funciona
assim tão bem... Tomo como exemplo o seguinte poema:
Desfolha-se a rosa:
parece até que floresce
o chão cor-de-rosa.
Almeida capta lindamente o fugaz momento
de transformação, no qual a rosa perde seu encanto, pois que este é transferido
para o chão, no mais puro espírito do haicai. Não há qualquer dicotomia
moralista do tipo certo-errado, o poeta tão somente coloca o leitor diante de
uma manifestação da Natureza.
Eis
que o autor resolve dar-lhe um título, e o faz com extrema infelicidade: Caridade. E no afã de explicar o poema
(o inexplicável) aos “não familiarizados
com o espírito e a forma da exígua novidade”, segundo suas próprias
palavras, acrescenta: “A flor, que se
desfolha, é bem uma lição moral de alta caridade: dir-se-ia que ela se despe do
que é seu, que ela toda se dá à terra humilde, para que o pobre chão, a seus
pés, pense que também é capaz de florir.” (Haicais completos, Aliança
Brasil-Japão, 1996.) Penso que o título não ajuda, muito menos os comentários.
O haicai, com aquele título, foi transformado em sermão moralista, piegas,
antinatural, pois não há lição de moral na Natureza, muito menos caridade. A
terra não é humilde ou arrogante, pois estas são qualidades humanas. Diz-se que
um chão é pobre quando não contém os nutrientes necessários a uma determinada
cultura, e assim mesmo, boas uvas crescem de parreiras plantadas no duro cascalho
arenoso. O chão não pensa, é chão apenas.
Não é disso que se
alimenta a poesia.
Paulo
Franchetti, poeta e pesquisador do haicai, afirma categoricamente que “o título empobrece os textos, pois determina
a direção da leitura ou força uma decifração metafórica do terceto que nomeia.”
(Haicais completos, Aliança Brasil-Japão, 1996). De fato, isso pode ocorrer.
Mas na composição intitulada Velhice,
do mesmo Guilherme de Almeida, penso que o título acrescenta, ou clareia uma ideia,
sem qualquer perda do efeito poético, embora não seja absolutamente
indispensável:
Uma folha
morta.
Um galho no
céu grisalho.
Fecho a
minha porta.
Meu
ponto de vista, portanto, é que o título pode ajudar, atrapalhar, pode ser
indiferente, bem como essencial, a depender do engenho e arte do poeta. Até
mesmo para o grande Guilherme de Almeida, cognominado Príncipe dos Poetas
Brasileiros, com todo o meu respeito e admiração.
Cultivemos, pois, o
haicai!
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Mistério em Ipanema
Quando Ondina se mudou com a família para
a Rua Montenegro, hoje Vinícius de Moraes, em pleno coração de Ipanema, fez questão de imprimir uma nova
marca a sua vida. O apartamento, um por andar – como se costumava dizer – e com ar refrigerado central, elevava o nível
social da família a alturas nunca dantes imaginadas.
Antes
de mais nada é preciso dizer que Ondina nasceu em Floriano, obscuro povoado do
interior do Estado do Rio, cortado ao meio por monstruoso aterro sobre o qual
passa a estrada de ferro que liga o Rio a São Paulo. E que a mãe dela, Dona
Josefina, também havia nascido em Floriano. Já a avó, viera de Marselha, na
França, e sabe deus como veio parar naquelas bandas, mas esta é uma outra
história.
Menina
ainda, foi estudar em Guaratinguetá, onde fez o curso Normal, formando-se
professora. Trabalhou por uns tempos em Volta Redonda, na Companhia Siderúrgica
Nacional. Casou-se. Morou um ano em São Paulo, depois Taubaté, novamente Guará,
e em cada um desses lugares nasceu um filho seu. Até que por fim chegou ao Rio
de Janeiro, a realização de um grande sonho, minuciosamente arquitetado ao
longo de muitos anos.
Morou
na Tijuca, de aluguel, num pequeno sobrado, até que a família se assentasse.
Logo mudou-se para um bom apartamento em Laranjeiras, onde viveu por dois ou
três anos. Enfim, chegou a Ipanema!
Decorou
o apartamento de ampla sala com discreto bom gosto. Certo dia, para a surpresa
da família, chegou em casa com dois quadros, óleos sobre tela, de tamanho
médio, moldura bem simples. Um deles, uma marinha, pouca tinta sobre a tela,
uma rede apenas insinuada, um pescador, uma cesta de peixes, muito azul. O
outro, o que parecia ser o fundo de uma igreja, uma árvore densa em primeiro
plano, folhagens espessas.
Nada
se falou sobre eles. Nenhum comentário do marido ou dos filhos, nenhuma explicação
por parte da compradora. Onde adquirira os quadros? Recebera alguma orientação
de especialista em arte na escolha dos mesmos? Haveria consultado algum
catálogo de arte? Ou apenas seguira seu próprio gosto e intuição? Ninguém
perguntou e nada foi dito a respeito do custo daquelas obras. Embora moradores
de Ipanema, sobrava pouquíssimo dinheiro no bolso dos membros da família. Quanto
custaram? Se havia pouco dinheiro, pagou-se pouco pelos quadros, e por consequência,
deveriam valer pouco, artisticamente falando. Este era um raciocínio
inevitável. Bem, simplesmente foram pendurados na sala, como se sempre tivessem
estado naquelas paredes, um verdadeiro mistério.
Nunca se soube que
Ondina manifestasse gosto pela pintura. Pela música sim, que considerava
Beethoven um deus! Apreciava os clássicos, numa faixa de cronologia que ia de
Bach a Brahms; gostava das Bachianas de Villa Lobos, mas era só; os modernos,
nem pensar. A pintura não fazia parte das conversas familiares.
A
interrogação a respeito do real valor artístico dos dois quadros adquiridos por
Ondina permaneceu portanto no limbo. Pensava-se sobre o assunto, não se falava
dele. Nunca se falou dele até hoje, vários anos após a morte de Ondina.
Uma
das pinturas veio parar em minhas mãos, como herança, pelos préstimos de meu
irmão. A outra parece que pertence a uma sobrinha, nem mesmo sei o nome do
pintor. A que me coube, mandei-a restaurar e encontra-se hoje em minha sala.
Não foi difícil identificar a assinatura do pintor, e mais fácil ainda foi pesquisar
seu nome na Internet. Eis o quadro, e um resumo da vida e obra do pintor:
“Armínio de Moura Pascual (Rio de Janeiro, 4 de abril de 1920 — Petrópolis, 31 de agosto de 2006) foi um pintor do Brasil, discípulo de Armando Viana e de Gerson de Azeredo Coutinho. Foi professor da Sociedade Brasileira de Belas Artes e figurou em diversas
coletivas no país e no exterior (Europa). Recebeu diversos prêmios. No Salão Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro,
conquistou medalhas de bronze, prata, ouro, e o prêmio de viagem ao
estrangeiro. Expôs sua excelente pintura em várias cidades do mundo em mostras
individuais. Tem trabalhos em vários museus, dentre eles no Museu Nacional de Belas Artes. Foi principalmente um paisagista.
A
seu respeito escreveu Pietro Maria Bardi: “A excelência da paisagem coloca-o
entre os melhores pintores contemporâneos do gênero. Paralelamente à paisagem,
fixa cenas com melindrosas e ambiências das décadas de 20 e 30, repositórios da
memória de infância. Mas no momento universal de uma paisagem que se
essencializa, no ritmo das massas cromáticas que com sabedoria estruturam as
composições, é que evidencia a mão do mestre.”
Armínio Pascual recebeu o prêmio de viagem ao exterior no Salão Nacional de Belas Artes em 1971.
Dez anos depois realizou uma individual na qual prestava contas da
responsabilidade da láurea e de um tempo de ofício resultante do contato com os
ambientes artísticos europeus. Surgia então um novo pintor, facilmente situado
ao lado de um Sílvio Pinto, de um Bustamante Sá, todos principalmente paisagistas.”
Ondina continua a nos surpreender!
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