Pensou em se aposentar, mas teve medo. Consultou amigos: 4 a
favor, 4 contra. Continuou trabalhando. Morreu 15 dias depois.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
a metafísica perdida
às 6 da
tarde, invariavelmente
o rádio
tocava a Ave Maria de Schubert
o menino
ouvia da mãe
esta é uma
hora sagrada, meu filho
em que os
anjos veem à Terra
para nos
proteger do Mal
e o menino, crédulo,
contrito
escutava a belíssima
música
no Dia das
Mães, invariavelmente
o menino
ouvia da mãe
este é um
dia sagrado, meu filho
em que os
anjos veem à Terra
para
proteger as mães e seus filhos
para que as
famílias vivam em paz
e o menino
ouvia, crédulo, contido
as sábias palavras
da mãe
no Dia de Natal,
invariavelmente
o menino
ouvia da mãe
não há dia
mais sagrado, meu filho
Jesus veio à
Terra para nossa redenção
para perdoar
nossos pecados
à medida que
perdoamos nossos devedores
e o menino
ouvia, crédulo, a mãe
protetora a que
tudo sabia
o menino
cresceu, inevitavelmente
e descobriu
que o vespertino ângelus
variava
segundo o fuso horário
o dia das
mães não era o mesmo em cada país
muito menos
o Natal, inexistente para tantos
e à medida
que foi descobrindo o ledo engano
em que a mãe
vivia, não deixou de amá-la
nem tentou
dissuadi-la dos enganos
deixou de
ser menino, finalmente
trocou o
conforto das ilusões
pela crua
realidade do mundo
descobriu
que não ganhava com a troca
porém, fazer
o quê, se as fantasias
já não lhe
alimentavam a alma
e que o
sentido da vida era apenas
tão somente a
falta de sentido da vida
John Field, criador dos Noturnos
Antes de mais nada, convido o leitor a ouvir John Field:
http://www.youtube.com/watch?v=JxzJrjH7MEs
Confesso que sou fanático pelos noturnos de Chopin (Zelazowa Wola, Polônia, 1810 – Paris, 1849). Para alguns, são peças ditas menores; para mim, que não me considero um expert, primam antes de tudo pela originalidade. Ou primavam.
Até que descobri John Field (Dublin, 26 de
julho de 1782 —Moscou, 23 de janeiro de 1837), o
irlandês que será sempre lembrado pelos seus 18 Noturnos, composições para
piano que provavelmente exerceram influência sobre Frédéric Chopin...
Criado em família protestante e tendo casamento católico,
surgiram dúvidas quanto a sua fé. Reza a lenda que, em seu leito de morte, ao
ser questionado por um padre sobre sua religião, respondeu: "Je suis
claveciste".
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
instalação
há coisas
que a gente vê
(em
companhia do irmão)
não
registra o nome
nem o
autor
e nunca
mais se esquece
as
pequenas vasilhas brancas
de
diferentes tamanhos
boiando
num céu azul
estão
cheias dágua
quando se
tocam
produzem
tinidos
de
diferentes alturas
poesia na
dureza
dos
tijolos aparentes
da Pinacoteca
do Estado
Três gatos encaixotados
O mesmo Baltazar, um persa completamente negro, ladeado por suas filhas Blimunda e Albiera, também pretas.
Foto: A. Vianna, Brasília, 2008.
Eros e Psique
Esta escultura é uma cópia romana de original grego do século II AC, e encontra-se no Palazzo Nuovo, na Praça do Campidoglio, em Roma.
O mito de Eros e Psique tem sido expresso nas mais variadas formas de arte, inclusive, é óbvio, na Literatura.
Mas não deve haver história mais bem contada, baseada no original de Apuleio, que esta contida em Mar de Histórias, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai, da Ed. Nova Fronteira. Disponho da terceira edição, de 1980, mas sei de reedição recente (quarta edição, 1999) desta magnífica coleção em 10 volumes.
O conto intitulado Amor e Psique encontra-se no primeiro volume, Das origens à Idade Média. Assim ele tem início:
"Havia em certa cidade um rei e uma rainha que tinham três filhas de conspícua beleza. As duas mais velhas, embora de lindíssimo aspecto, podiam ser condignamente celebradas por louvores humanos, ao passo que a humana linguagem se mostrava incapaz de descrever, ou mesmo de suficientemente exaltar, a extraordinária formosura da mais jovem. Muitos concidadãos de menina, e bem assim grande número de curiosos forasteiros, atraídos da fama de tão singular espetáculo, pasmavam ante aquela inexcesível beleza e reverenciavam-na com religiosa adoração, levando a mão direita à boca e apertando o índice de encontro ao polegar, tal como se venera a deusa Vênus." (pág.73).
Fotos: A. Vianna, Roma, 2011.
des-memória
o choro sentido
da primeira infância
ainda bem que a gente esquece
Foto: Gabriela com 1 ano e meio. A.Vianna, Brasília, 2012.
domingo, 23 de dezembro de 2012
Homenagem a Lêdo Ivo
Soneto da porta
Quem bate à minha porta não me busca.
Procura sempre aquele que não sou
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto.
Que saiba quem me busca e não me encontra:
sou aquele que está além de mim,
sombra que bebe o sol, angra e laguna
unidos na quimera do horizonte.
Sempre andei me buscando e não me achei:
E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda
da luz perdida de uma estrela morta,
sinto saudades do que nunca fui,
do que deixei de ser, do que sonhei
e se escondeu de mim atrás da porta.
Lêdo Ivo
Foto: A.Vianna, Sevilha, 2008.
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