quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Calvário
Só e mal-amada, abandonada pela família, não encontrava razão para continuar vivendo. Resolveu implicar-se com o vizinho.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Não-saber
O não saber incomoda tanto o ser humano que, desde a
infância, ele inventa, cria teorias (a origem da Fantasia), a partir da
onisciência e onipotência infantis, e inicia assim o processo de aprendizado do
pensar.
Só
então ele aprende a formular perguntas (a fase dos porquês), para continuar aprimorando
o funcionamento do denominado “aparelho de pensar” (W. R. Bion).
Como
as respostas pouco ensinam (porque sempre incompletas), pode-se continuar
perguntando vida afora, e consequentemente, aprendendo.
Ou
então pode-se concluir que já se sabe (uma Ilusão) e com isso interromper o
processo de aprendizado do pensar, às vezes para o resto da vida. (É possível
que os chamados livros de autoajuda, que apresentam soluções prontas e acabadas
para o sofrimento psíquico do ser humano, colaborem fortemente para a Ilusão do
saber.)
A
enorme dificuldade de se conviver com o não saber deve-se à perseverança da
onisciência infantil na vida adulta, e tal desconforto (o não saber) gera agora
(e cristaliza) verdades definitivas, aparentemente confortáveis (Eu Sei, Tenho
Certeza!), mas que emperram o funcionamento do “aparelho de pensar”
(provavelmente uma das causas do fundamentalismo religioso, em oposição ao progresso
da Ciência, ancorado no contínuo e disciplinado desejo de saber).
O
processo analítico pode nos ensinar a tolerar o não saber e, mais que isso,
propiciar verdadeiro conforto psíquico diante do Não Sei!, preservando assim o
saudável e permanente processo de aprendizado do pensar e a consequente
expansão psíquica.
Observação
Ao perceber que as trepadeiras subiam céleres pela cerca do jardim, ela resolveu fazer o mesmo. O marido pegou-a em flagrante.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
instantâneo
se não posso reviver
o passado, e o futuro
está por vir, o que resta
(sei que isso não é pouco)
é o presente, a fração
diminuta desta vida
que dura apenas o tempo
da escrita de um poema
o passado, e o futuro
está por vir, o que resta
(sei que isso não é pouco)
é o presente, a fração
diminuta desta vida
que dura apenas o tempo
da escrita de um poema
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Efeito tardio
O trauma psíquico assemelha-se à mina
terrestre, que depois de plantada tem seu potencial explosivo mantido por longo tempo.
Até ser desativada.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Escolhas
Desde criança, era louco por carros. Mas nunca gostou de estudar. Foi ser manobrista de estacionamento.
Só de raiva!
Depois de ver seu bar assaltado 18 vezes, tomou providência definitiva:
- A bebida agora é de graça!
- A bebida agora é de graça!
O louco da aldeia
O que mais surpreendia o menino era a atitude do pai,
homem conhecido por sua rigidez, pelos julgamentos rigorosos, e que abria a
porta de casa e recebia, até com certa gentileza, Heitor, o louco da aldeia. O
pai não abria a porta da casa para qualquer um. Para ser mais preciso, o pai
rarissimamente abria a porta da casa para alguém. Fazia-o, às vezes, por
obrigação, nunca por gosto, pressionado pela mulher, Deixa de ser bicho do
mato, homem. Se não frequentava a casa dos pouquíssimos amigos que tinha, se é
que podia chamá-los amigos, colegas talvez, com que direito pensavam eles que
podiam importuná-lo em seu próprio lar? Boa romaria faz quem em sua casa fica
em paz, não cansava de repetir.
Mas não era um bronco, o pai. Aquela mania de utilizar-se
de ditados, provérbios, adágios, anexins e afins, adquiriu-a com a leitura
atenta de Cervantes, da admiração profunda pelo Dom Quixote e seu escudeiro
fiel. Possuía edição riquíssima do Engenhoso Fidalgo, em quatro volumes
encadernados em couro, gravados com letras douradas e ilustrações de Gustave
Doré, um verdadeiro tesouro, o orgulho de sua biblioteca. A torto e direito,
sem quê nem porquê, lá vinha o pai com Tantas vezes vai o pote à fonte que um
dia ele se quebra, Falar é prata, calar é ouro, Mais vale um pássaro na mão...
Tampouco era ingênuo, o pai. Extremamente religioso, a tal rigidez e o
isolamento social eram provenientes muito mais de uma austera retidão moral, Este
é um mundo de expiações e provas!, resumia.
O menino não dispunha de palavras precisas, sutis, sofisticadas
para analisar o pai e definir-lhe a personalidade, mas era dotado de agudo
senso de observação, além de um genuíno e precoce poder de reflexão sobre a
natureza humana. Intrigava-o, portanto, aquela relação do pai com Heitor, o
louco da aldeia. O homem assustava até pelo porte físico, enorme, mais de 140
Kg de peso, pletórico, atarracado, ao andar adernava com pernas e braços abertos,
buscando o difícil ponto de equilíbrio, a cabeça enterrada no tronco sem
pescoço, o que talvez explicasse a voz cavernosa saída diretamente dos pulmões
para a boca e a respiração ofegante e ruidosa a sugerir alguma obstrução
respiratória, o cabelo cortado rente à escovinha ressaltando a cabeçorra
redonda como uma bola de futebol. Impressionava mais que tudo a cor dos olhos,
sempre arregalados, de um azul-água quase transparente. Eram doces os olhos de
Heitor.
A fala era rápida, entrecortada por soluços e engasgos,
as palavras saiam comidas pela metade, Trouxe uns diamantes da minha fazenda
para o senhor, disse Heitor assim que entrou na pequena varanda. O pai
agradeceu amável, Muito obrigado, Heitor, são lindos!, e recolheu as quatro
pedras roliças, lisas, dessas que se encontram no leito dos rios, cada uma
pesando cerca de meio quilo, Vou guardar os diamantes com carinho, São da minha
fazenda na Mantiqueira, Ah!, você tem uma fazenda na serra?, Tenho cinco mil e quinhentos
alqueires de terra muito boa, tudo plantado de café, estou exportando café, Que
interessante!, café plantado nas alturas dizem que é do bom, Além da mina de
diamantes, foi de lá que tirei esses aí, Ah!... A exclamação do pai deixava
transparecer a maior sinceridade possível.
E a conversa prosseguia animada, o menino assustado
entreolhando pela fresta da porta, tão perplexo com as pedras quanto com a
solicitude e a aparente credulidade do pai. Serão mesmo diamantes?, chegou a
pensar, E se os diamantes estiverem no miolo das pedras, que precisam ser
quebradas para revelar o tesouro? O menino começou a duvidar de tudo, de todos,
dele próprio, e delirou diante daquela estranha e incompreensível realidade.
Heitor despediu-se, o pai entrou carregando as pedras,
sorridente, bem humorado, e percebeu o ar interrogativo do filho, ar de aflição
mesmo, e tranquilizou-o, É o Heitor Louco, meu filho, mês que vem ele volta com
mais diamantes, e jogou as pedras no fundo do quintal. Mais não disse, nem lhe
foi perguntado.
Muitos anos se passaram, o menino tornou-se homem, e
aprendeu que não se desmente uma alucinação, pois para quem alucina, aquela é uma
verdade inquestionável. O pai, de alguma forma, intuíra o conceito de realidade
psíquica, algo que embora não seja concreto, nem por isso deixa de ser real.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Extravagância
Íntegro, conservador, muito religioso, frente a uma insinuação maldosa perdeu a cabeça e soltou um palavrão: Ora bolas!
cheiro de infância
este maldito cheiro
de doce de banana
a inundar a casa
na manhã de sábado
é o cheiro que não passa
da minha infância
pois é doce o cheiro
- hoje sei e sinto -
da minha infância
que não deixo passar
de doce de banana
a inundar a casa
na manhã de sábado
é o cheiro que não passa
da minha infância
pois é doce o cheiro
- hoje sei e sinto -
da minha infância
que não deixo passar
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