terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A mulher que inventava pecados

 

Não havia nesse mundo alguém com a pureza de Beatriz. 

            Na flor de seus vinte anos, era considerada pela vizinhança e por toda a pequena cidade do interior, uma santa, fama que transbordava para além das fronteiras do estado. Não que fizesse milagres, coisa que o povo adora, nada disso; ela não apreciava qualquer forma de ostentação. A aura de santidade emanava mesmo era de sua bondade natural, expressa no olhar, à flor da pele, nos gestos mais simples. 

            Caridosa ao extremo, fazer o bem sem olhar a quem era seu lema, propósito de vida, mesmo que tal ideia nunca lhe tivesse ocorrido de forma clara, consciente, com as palavras Sou caridosa, ou, Preciso ser caridosa. Beatriz nunca pensou sobre esta qualidade, era assim e pronto, nasceu assim, aquilo não lhe fora ensinado: a mãe tivera doze filhos, ela foi a sétima a vir ao mundo, de modo que recebeu pouquíssima atenção dos pais durante a infância e adolescência. O pai, sempre presente, carinhoso com a mulher e filhos, dava duro para sustentar a prole; a mãe cuidava daquele batalhão de crianças, da alimentação da família, da arrumação da casa, não tinha tempo para si mesma. Em meio a tantos irmãos, Beatriz cresceu na solidão.

            Concluiu o ensino fundamental com grande esforço, pois a maior parte de seu tempo era gasta em casa, com os irmãos, ajudando a mãe. Mesmo assim, sem formação adequada, trabalhava à noite no asilo para idosos da cidade, a desempenhar papel de auxiliar de enfermagem com extrema dedicação, a troco de irrisório pagamento. Ela trabalhava pelo gosto de ajudar. Ao menos, era o  que pensava.

            Beatriz não era pessoa religiosa. Não frequentava as missas domingueiras como todo mundo, motivo de reprovação geral. No entanto, deixava todos intrigados com o hábito infalível de se confessar com Padre Benedito, todas as segundas-feiras ao final da tarde, na Igreja de São Francisco, de quem era devota. Devoção à sua maneira, bem entendido, sem qualquer laivo de fanatismo, do fundamentalismo religioso tão comum na região. Era mais uma admiração infinita pela vida de Francisco, em particular pelo amor dele aos animais, sentimento igualmente forte em Beatriz. Ela não podia ver um gatinho esfomeado miando escondido em qualquer terreno baldio que o levava para casa e lhe devolvia a vida.

            Tão bondosa, tão caridosa, que tanto Beatriz necessitava de confessar? Mistério a ocupar a mente de gente desocupada. Perguntada sobre as razões daquele comportamento, Beatriz desconversava, Sou pecadora como qualquer um.

            O próprio Padre Benedito percebia a estranheza daquilo que mais parecia mania, doença mesmo. Beatriz entrava no confessionário pontualmente às 5 horas da tarde, não fazia o sinal da cruz nem dava Glória a Deus, ia logo dizendo, Padre eu pequei, não fui à missa ontem. Está perdoada, repetia com certo enfado Pe. Benedito; sabedor da bondade da moça, praticamente uma santa, havia já abandonado a ideia de tentar convencê-la que um bom católico deve comparecer à missa aos domingos. Ele não via naquilo pecado que requeresse perdão. Mesmo assim repetia, Está perdoada, cansado daquela ladainha semanal.

            Pequei também porque perdi a paciência com José, acrescentou Beatriz; Ele deu um pontapé em João, ambos meus irmãos menores, E onde está o pecado nisso?, Botei os dois de castigo, E isso é pecado?, É, eu podia ter conversado com eles, Está perdoada. Repetiam-se nesse teor as confissões de Beatriz, sem que Pe. Benedito pudesse ver qualquer indício de desvio moral nas atitudes da moça. Já que não pecava por atos, palavras ou omissões, certa feita o padre lhe perguntou se pecava por intenções, mas Beatriz nem chegou a compreender a extensão da pergunta, Intenção de quê, padre?, De namorar, por exemplo, Nem pensar, padre, tenho mais o que fazer!

            Depois de ano naquela litania, Padre pequei, Está perdoada, foi Benedito quem perdeu a paciência e proferiu ríspido, Beatriz, não me apareça por aqui durante um mês, está bem! Com pecados ou sem pecados, suma por trinta dias, entendido? Beatriz arregalou os olhos, paralisada, duas lágrimas a lhe escorrerem pela face pálida, deixou a igreja em estado de torpor, seguiu direto para casa, se trancou no quarto e chorou por longo tempo. Acalmou-se quando Brasinha, seu cão predileto, veio lhe lamber o rosto, ao perceber o sofrimento da dona. 

      Ela tinha uma semana para pensar no que fazer. Cumpriu com alegria as tarefas de sempre, o sorriso de santa estampado no rosto. Na segunda-feira seguinte, no início da tarde, tomou o ônibus para a cidadezinha mais próxima, entrou na primeira igreja que encontrou, Padre, eu preciso confessar!

            Transcorridos três meses, Padre Eustáquio, o novo confessor, já não aguentava mais ouvir os mesmos não-pecados. Padre pequei, Está perdoada, Padre pequei, Está perdoada, Beatriz, vamos parar com isso, por que razão você deseja me convencer que é uma pecadora contumaz, já lhe disse que não há necessidade de continuar me contando essas histórias, sabe Beatriz, acho que você precisa de um psiquiatra, talvez um psicanalista, embora eu mesmo nunca tenha sido adepto do tal Dr. Freud, homem desnaturado que não acreditava na pureza das criancinhas, mas confesso – agora sou eu quem confessa! –, não aguento mais ouvir você dizer que não foi à missa no último domingo. Pronto, falei! E Padre Eustáquio despachou Beatriz. 

            Dois dias após ouvir aquele sermão, Beatriz teve um sonho do qual despertou gelada, a cama encharcada de suor, tremendo de susto. Ela sabia que o sonho era longo, cheio de detalhes reveladores, dos quais se lembrava apenas de uma cena: vestida de noiva, entrava em uma igreja de braços dados com sua mãe, e no altar, o noivo – seu próprio pai –, esperava por ela.

            Beatriz não era pessoa religiosa. Também nunca tinha ouvido falar em psicanálise. Mas burra ela não era. Anotou cuidadosamente a história de seu périplo pelos confessionários da vida, registrou o que podia lembrar do sonho em seu caderno escolar, guardou apenas para si aquele segredo.

      Não voltou mais à igreja, cortou o cabelo, arranjou namorado, rapaz vistoso que trabalhava na padaria onde ela comprava o pão de cada dia, pediu aumento no asilo onde ajudava no cuidado dos velhinhos, perdeu aquele ar de santidade ao encurtar a barra dos vestidos. Tornou-se motivo de escárnio em toda a cidade. 

      Beatriz se casou com André, que acabou por comprar a padaria – fazia o melhor pão da cidade. O casal teve dois filhos, a família se mudou para a capital. Pedro, o filho mais velho, estudava Medicina quando certo dia deparou com um velho caderno escolar, escondido numa gaveta de pertences antigos de sua mãe. Devorou com avidez aqueles escritos de Beatriz, pensou até em publicá-los. Formou-se médico, depois psicanalista, muito conceituado na cidade grande. Jonas, o filho mais moço, se formou em Arquitetura.

            

 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Escuridão

Charge do dia

Nando Motta

O canto livre de Nara Leão

 


 

O canto livre de Nara Leão é uma série documental recém produzida pela Original GloboPlay, de qualidade excepcional, que não pode deixar de ser vista por todos que viveram o início da Bossa Nova, e pelos que não viveram mas desejam conhecer aquele período fundamental da música popular brasileira. A magistral direção é de Renato Terra.

Os cinco episódios da série oferecem uma imagem quase completa de quem foi a mulher e a cantora Nara Leão (19 de janeiro de 1942 – 7 de junho de 1989), aquela que “não se deixava conduzir por nada nem ninguém”, nas palavras de Chico Buarque, compositor de destaque e amigo pessoal.

Dona de temperamento forte, a despeito da aparência (e da voz) frágil e timidez acentuada, ela tinha posições muito bem definidas tanto naquilo que desejava fazer como artista, quanto na participação da vida política do país. Nara enfrentou a ditadura militar como poucos, com desabrida coragem. Ela e os artistas da época acreditavam que podiam mudar o Brasil... e o mundo (!), através de suas participações culturais, em especial na música popular e no teatro.

Os cinco episódios da série se desenvolvem num ritmo quase lento, sem pressa, 

com fotos raras da adolescência de Nara, com o áudio da primeira apresentação em público da cantora, em 13 de novembro de 1959, na Escola Naval, no Rio de Janeiro. 

      A sequência de pessoas entrevistadas transmite com extrema fidelidade o clima reinante no início do movimento mais importante da música brasileira, a Bossa Nova, do qual Nara foi considerada a musa. Tais entrevistas aconteceram com Chico Buarque, Edu Lobo, Fagner, Maria Bethânia, Marieta Severo, Nelson Motta, Paulinho da Viola, testemunhas da personalidade marcante de Nara Leão. 

       Depois veio o rompimento com a Bossa Nova, desencadeada pela desilusão amorosa com o então namorado Ronaldo Bôscoli. Em seguida veio o estrondoso sucesso de A banda, que Nara cantou em companhia do Chico no festival de 1966. Interessante a participação de Fagner, Dominguinhos (1941 – 2013), Sidney Miller (1945 – 1980) e Nelson Motta.

Quero que vá tudo para o inferno é o título do quarto episódio de série, quando Nara resolve gravar músicas de Roberto Carlos e Erasmo Carlos e provoca irada reação dos puristas defensores da chamada MPB. Há quem defenda a ideia de que a MPB teria começado com o primeiro LP da cantora, em 1964, com músicas de Baden Powell (1937 – 2000), Cartola (1908 – 1980), Nelson Cavaquinho (1911 – 1986) e Zé Kétti (1921 – 1999). Importante depoimento de Maria Bethânia revela a participação de Nara junto à Tropicália. 

Fiz a cama na varanda é o quinto e sensacional episódio, quando os filhos de Nara – Isabel Diegues é consultora da série –, falam da mãe que recusava shows e entrevistas para ficar em casa em companhia dos filhos. Cacá Diegues, em depoimento emocionado, lembra que foi Nara quem o pediu em casamento e que decidiu ter filhos. 

Os depoimentos de Roberto Menescal, presente em toda a série e com participação decisiva na vida e música de Nara Leão, e dos filhos Isabel e José Bial, que Nara teve com Cacá Diegues, encerram o documentário de forma extremamente emocional. 

       Só resta dizer que Nara não morreu! E que O Canto Livre de Nara Leão é imperdível!


 

https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2022/01/08/nara-leao-ressurge-docil-e-indomada-em-serie-documental-sobre-a-vida-livre-da-cantora.ghtml

 

Moreia

 A foto do dia



Paula afirma: "Acho a moreia um dos animais marinhos mais graciosos, a forma que ela se move, em zigue-zague, a maneira que abre e fecha a boca para respirar, eis mais um animal mal compreendido. Quem mergulha sabe. E você, gosta? 

        Venha mergulhar com a @buziosdivers na ilha de Âncora e conhecer as belezas do fundo do mar." 

 

domingo, 9 de janeiro de 2022

Autobiografia por J. L. Peixoto

 100 anos de Saramago



O texto acima é a epígrafe do romance de José Luís Peixoto intitulado autobiografia, recém editado pela Companhia das Letras, 2021. Foi publicado pela primeira vez em Cadernos de Lanzarote, 1997.


Autobiografia

100 anos de Saramago 

 

“Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa. Meus pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registo Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago… Não foi este, porém, o único problema de identidade com que fui fadado no berço. Embora tivesse vindo ao mundo no dia 16 de Novembro de 1922, os meus documentos oficiais referem que nasci dois dias depois, a 18: foi graças a esta pequena fraude que a família escapou ao pagamento da multa por falta de declaração do nascimento no prazo legal.”


            O trecho acima encontra-se no excelente site https://www.josesaramago.org, da Fundação José Saramago. Em 16 de novembro do corrente ano haveremos todos de celebrar os 100 anos de nascimento de Saramago. 

            As comemorações, no entanto, já começaram. Por isso passo a publicar neste blog matérias sobre o nosso Nobel de Literatura, a começar pela Autobiografia.

 

 

https://www.josesaramago.org/biografia/

 

Na entrevista

 

– O senhor acha que a psicanálise pode me enlouquecer?

– Não se preocupe, louca a senhora já está. Pode ser que melhore.


sábado, 8 de janeiro de 2022

Duas galáxias se fundem

Fotografia 




Astronomiaum @Astronomiaum no Twitter

 

Essa foi a primeira imagem do telescópio espacial Hubble registrada em 2022. A imagem mostra duas galáxias se fundindo no espaço profundo, que fica a cerca de 215 milhões de anos-luz de distância. Perfeitas!  NASA/ESA


Para o leigo, dá para entender isso, a fusão de duas galáxias? É mais que o fim do mundo! É o fim do Universo!


Bicho-papão!

Charge do dia 


Jean Galvão