sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Os dois significados de Saltimbanco

 


Família de saltimbancos, de Pablo Picasso


 

Curiosa a palavra saltimbanco. Segundo o Oxford Languages, ela tem dois significados bem distintos, correlatos porém distintos, e portanto se aplicam a diferentes circunstâncias.


1. integrante de um elenco de artistas populares itinerantes, que se exibem em circos, feiras e praças públicas do interior; pelotiqueiro.

 

2. indivíduo que exibe suas habilidades nas feiras ou na via pública, vendendo elixires reputados milagrosos, seduzindo o público com discursos e trejeitos espalhafatosos; farsante, charlatão.

 

Etimologia: do italiano “saltare in banco”, “pular sobre um banco”, o que muitos artistas de feira faziam em suas apresentações.

 

O primeiro significado nos remete à pintura acima, de Pablo Picasso. A Família de saltimbancos, do pintor espanhol, data de 1905 e é considerada uma obra prima; encontra-se exposta na National Gallery of Art, em Washington. Marca a transição entre as fases azul e rosa, anteriores ao cubismo. Suas telas adquirem um tom mais delicado, com predominância das cores rosa e vermelho; o artista costumava pintar figuras em pequenos grupos de saltimbancos, arlequins e bobos da corte. 

O ambiente parece triste e de introspecção, provavelmente inspirado no Circo Médrano localizado próximo a casa de Picasso, no bairro boêmio de Monmartre, em Paris. Chama atenção a imagem dos saltimbancos, comumente associados à alegria, e o deserto duro e desolado ao fundo. 

As figuras se mostram isoladas umas das outras, as bocas sem expressão, olham em diferentes direções, em aparente ausência de sentido. “A obra de Picasso, no entanto, concretiza o retrato dos apátridas, pessoas sem local. Esta questão liga-se ao silêncio estudado na obra de Hannah Arendt; segundo a filósofa alemã, não há situação mais degradante para o homem do que a perda irremediável de um lugar no mundo.” (https://pt.wikipedia.org/wiki/La_famille_de_saltimbanques)

A mulher à direita, de frente para o observador e apartada do grupo, está bem vestida e usa um chapéu enfeitado com flores. É mais um enigma nessa obra, que evoca sensação de mistério e desperta variadas interpretações.

 

            O segundo significado de saltimbanco sugere a existência de um farsante, de um charlatão. Sobram, no atual quadro político do país, figuras que bem se adaptam à denominação de saltimbancos – um verdadeiro e triste grupo de saltimbancos!

 

 

 

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Cenas parisienses

Galeria de Família



Às margens do Sena 



Louvre: sala de Rubens


Paula de diverte



Em Versalhes


Família de saltimbancos

Meus quadros favoritos 


Pablo Picasso

Fido Nesti


Ilustração de Fido sobre apoio de Bolsonaro 

às armas - Fido/Folhapress

 


A excelente crônica de Ruy Castro, hoje, para a Folha de S. Paulo traz a impressionante ilustração de Fido Nesti, ilustrador famoso.

“Fido Nesti nasceu em São Paulo em 1971. Trabalha com ilustração e quadrinhos há mais de trinta anos. Seus desenhos podem ser vistos no jornal Folha de S. Paulo e na revista The New Yorker, entre outras, assim como em capas e livros de várias editoras, incluindo a Companhia das Letras.”


 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2021/09/matar-ou-morrer-por-bolsonaro.shtml

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Fotoabstração N. 75

 Fotoabstração




Riso de bebês humanos é semelhante ao de chimpanzés


Foto: James Coupad


 

Riso de bebês humanos é semelhante ao de chimpanzés, aponta estudo, informa Megan Marples para a CNN (1 set 2021).

“O riso transcende todas as línguas – e agora os cientistas sabem que essa resposta espontânea é universal também em algumas espécies de primatas. O padrão de riso dos bebês humanos é igual ao dos grandes macacos, de acordo com um estudo publicado nesta terça-feira (31) na revista Biology Letters.”

“Os adultos humanos riem principalmente ao expirar, enquanto os bebês e os grandes símios riem durante a inspiração e a expiração, disse a autora do estudo Mariska Kret, professora associada de psicologia cognitiva da Universidade de Leiden, na Holanda.”

“O riso infantil não é necessariamente semelhante ao de todas as espécies de grandes macacos, apenas àqueles que são evolutivamente mais próximos dos humanos – como chimpanzés e bonobos, disse Marina Davila-Ross, da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, que não participou do estudo. “Essa descoberta parece refletir que o riso é, em certa medida, profundamente enraizado biologicamente”, diz ela.

“Davila-Ross disse que ficou surpresa ao ver que o fluxo de ar associado ao riso muda à medida que os bebês crescem. “Na verdade, seria muito interessante ver se essas mudanças também podem ser encontradas em outras vocalizações não-verbais de humanos”, acrescentou ela. Em pesquisas futuras, Kret disse que espera repetir sua experiência com outras vocalizações, como o choro. Atualmente, ela está realizando outros experimentos com o riso, incluindo um envolvendo orangotangos, gorilas e humanos, para ver se eles mudam o som de suas risadas de acordo com a risada daqueles ao seu redor.”

 

Para quem acredita firmemente na Evolução das Espécies, notícia como esta não causa qualquer espanto. É a ordem natural das coisas.

 

https://www.cnnbrasil.com.br/saude/riso-de-bebes-humanos-e-semelhante-ao-de-chimpanzes-aponta-estudo/?utm_source=social&utm_medium=twitter-feed&utm_campaign=saude--cnn-brasil&utm_content=link

 

Uma larga faca de açougueiro


 

4/5/13

 

“Sempre e de novo a imagem de uma larga faca de açougueiro que, a toda a pressa e com regularidade mecânica, penetra-me pelo lado e arranca fatias muito finas, as quais, dada a rapidez do trabalho, voam quase enroladas para longe.”

 

                        Franz Kafka - Diários

                        Ed. Todavia, 2021, p 294.

 

 

    O que talvez haja de mais perturbador nos escritos de Kafka são os detalhes que ele acrescenta em suas histórias. 

            A faca é de açougueiro.

            Ela penetra pelo lado.

            A faca trabalha com regularidade mecânica.

            As fatias arrancadas são muito finas.

            As fatias voam para longe “quase enroladas”.

 

    Esse pequeno texto dos Diários me fez lembrar a espantosa novela de Kafka intitulada Na colônia penal, na magnífica tradução de Modesto Carone (Companhia das Letras, 1998). (Há quem afirme que se trate do prenúncio do Holocausto.) Assim tem início o relato:

 

“– É um aparelho singular – disse o oficial ao explorador, percorrendo com um olhar até certo ponto de admiração o aparelho que ele no entanto conhecia bem.”

 

    Agora, o oficial, embora conheça bem o aparelho, olha-o com admiração, “até certo ponto”.

    Existe a Literatura antes e depois de Franz Kafka.

Involução da espécie

Charge do dia