Charge do dia
quinta-feira, 3 de junho de 2021
quarta-feira, 2 de junho de 2021
Sobre os Noturnos de Chopin
“E, porque estava quente, eu me encostara num local de sombra. Ouvi a música que acompanhava a entrada do par na igreja. E a melodia do órgão tinha algo de pungente, algo um tanto avesso àquele ritual, que deveria ser alegre. Contudo, não me emocionou.”
Marçal Aquino
O trecho acima faz parte do conto intitulado Num dia de casamento, de Marçal Aquino, publicado em Famílias terrivelmente felizes, na edição primorosa da Cosac Naify (2003). Me chamou atenção a última frase: “Faz muito tempo que uma música não me emociona de verdade.” Há três dias ela não me sai da cabeça.
A história parece singela: um homem sai de casa num sábado de nuvens pesadas, “calçando sandálias e um pouco magro”, para assistir de longe a um casamento. A música não o emociona. Na saída na igreja, um detalhe da noiva dá sentido ao episódio:
“Uma mecha de cabelo soltara-se do arranjo na cabeça e pendia em sua testa. Como um ponto de interrogação de cabeça para baixo. Talvez a mesma mecha que, alguns anos antes, eu vi balançando no vento que entrava pela janela do ônibus em que viajávamos, depois de deixar um hotel à beira da estrada.”
Ao voltar para casa o homem pensou em enviar um telegrama ao amigo analista: “MERDA VG MEU CARO PT”.
Voltemos à frase sobre a música que não emociona. Penso em duas possibilidades quando a música deixa de emocionar: ou o homem ouve música ruim, de um tipo que definitivamente não agrada, de mau gosto para aqueles ouvidos, ou o ouvinte está tomado por depressão. Não me refiro a episódio de tristeza, por mais intenso que seja; não, falo de depressão doença.
Quem está triste pode sentir algum alívio a ouvir uma música que o emocione. Os Noturnos, de Chopin, podem exercer tal efeito. Para quem sofre de depressão, qualquer música significa atordoamento, provoca confusão, chega a produzir dor psíquica, seja peça de um Bach, de um Mozart, de um Chopin.
Faz tempo que nosso homem que vai ao casamento não se emociona com a música. Ao final do conto ele pede socorro ao “amigo analista”, o que pode sugerir que esteja mesmo doente.
Quem estará doente? O protagonista do conto? (Se verdadeiro, o autor saberá disso?) O próprio autor do livro, cujo título exprime o oxímoro ‘felicidade terrível’? Ninguém está doente? A pergunta também poderá ser dirigida ao próprio leitor: por quê uma frase aparentemente simples de um conto despretensioso permanece três dias na mente do leitor, que chegou a interromper a leitura para pensar em possível significado oculto?
O leitor não sofre de depressão, porém utiliza-se de experiências anteriores, suas e de outrem, para pensar sobre o efeito dos Noturnos de Chopin em nosso espírito.
segunda-feira, 31 de maio de 2021
Quo Vadis, Aída?
Entre tantos propósitos, incluindo o entretenimento, o Cinema, como o livro, tem a capacidade de registrar fatos históricos para a posteridade. Evidente que o ponto de vista revelado no filme tem a marca do diretor; mas a História também não funciona assim?
Quo Vadis, Aida?, produção da Bósnia e Herzegovina, indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, retrata de forma poderosa um dos momentos mais horrorosos na história da humanidade, ao contar a história do massacre de Srebrenica, em 1995, quando mais de 8 mil bósnios muçulmanos foram assassinados por tropas sérvias.
Com roteiro e direção de Jasmila Žbanić, Quo Vadis, Aida? centra a narrativa na personagem ficcional Aída (Jasna Djuricic), que trabalha como tradutora da ONU em Srebrenica, quando o exército sérvio ocupa de forma violenta a cidade; seu marido e os dois filhos estão entre os milhares de cidadãos que procuram abrigo.
O desempenho da protagonista lembra O filho de Saul, cujo protagonista também corria desesperado de um lado para outro, sem saber para onde ir, em uma câmara de gás instalada pelos nazistas. Aída é intérprete, esposa, mãe, cuidadora, uma faz-tudo num ambiente non-sense, beco sem saída, situação de desespero crescente, a terminar na tragédia maior.
O filme tem início com a inacreditável negociação envolvendo a ONU, os bósnios e sérvios, cuja irresponsabilidade coloca em risco a vida de milhares de bósnios muçulmanos, verdadeiro caos a revelar a falência das instituições – especialmente da ONU.
Volto a destacar, o filme é necessário, a despeito de sentimentos como angústia, tristeza e indignação que gera no expectador. Muito de tais sentimentos são provocados pela atuação magistral da atriz principal, Jasna Djuricic.
Imperdível!
https://www.adorocinema.com/filmes/filme-285499/criticas-adorocinema/
domingo, 30 de maio de 2021
Surpresa
Acabara de cortar o pulso quando observou:
– Não imaginava que sangrasse tanto.
Em parceria com Marçal Aquino
In Famílias terrivelmente felizes
Cosac Naif, 2003
Pandemia
1. Prisão
– Essa merda não acaba nunca?
– Acaba.
– E se não acabar?
– Um dia acaba.
– Mas se não acabar...
– Imagine a cena, comum em filmes americanos: o sujeito é condenado a 20 anos de prisão, chega na cadeia e lhe tiram logo todos os pertences, roupas, documentos, relógio, aliança, celular, a fotografia da namorada, recebe as roupas de cor cinza-chumbo da instituição, às vezes com listras brancas, bem dobradas, acompanhadas de cobertor, e ele entra com aquela trouxa nos braços pelos corredores gelados escuros tenebrosos, atravessando portas de aço trancadas que se abrem sob comando central, barulhentas, observado pela turba curiosa de presidiários – colegas –, apupado por alguns, ouve os gritos de provocação atordoado, mariquinha bicha viado, chega na cela a ele destinada, cubículo com cama de concreto e colchonete, pia, vaso sanitário, pequena janela gradeada no alto por onde entra pouca luz, e então pensa, E agora? Isso é o fim do mundo? Pior, não é o fim do mundo, se dá conta, Mas um dia há de acabar, se eu me comportar bem e não for assassinado por algum facínora que não foi com minha cara.
– Ô cara, mas você sabe mesmo animar a gente!
2. Gente
– Vontade de ir a um supermercado.
– É perigoso.
– Muita gente.
– Vou de máscara.
– Perigoso mesmo assim, contaminação na certa.
– Preciso ver gente, esbarrar em gente, sentir cheiro de gente e a dor lancinante de um carrinho de supermercado chocando com meu tendão de Aquiles, só assim vou sentir que ainda estou vivo, porque quando acordo de madrugada, no silêncio escuro da noite, hora em que os cães não ladram nem os carros correm pelas pistas da cidade, me assalta a dúvida se permaneço vivo, o que piora quando ouço a sirene de uma ambulância cortando o ar parado e me assombra a ideia de que estou dentro dela sendo encaminhado ao hospital mais próximo, e é quando mais me falta o ar, sinto enorme dificuldade para respirar, estou exausto porque gasto o resto de minha energia para respirar, energia que pode se exaurir a qualquer instante, ainda bem que a caridosa enfermeira ajusta em meu rosto a máscara de oxigênio, mas de que adianta oxigênio se 80 por cento de meus pulmões estão comprometidos com o tal processo inflamatório, aprendi isso no noticiário da tevê que repete a expressão processo inflamatório durante 24 horas por dia, todos os dias, e de repente me sinto sonolento, confuso, é a energia que se esvai, penso, muito sono, muito sono... e então acordo assustado, o pijama ensopado de suor, que sonho, meu deus!
– Isso é pesadelo, cara!
– Vontade de ir a um bom restaurante.
– E tirar a máscara?
– Impossível comer com máscara.
– Perigoso, fique em casa.
– E o desejo?
– Dá e passa.
– Eu ia demorar com o cardápio na mão, ler reler treler o menu, chamar o maitre e pedir informações sobre esse ou aquele prato, como é preparado, se a carne está macia, se o molho pode vir a parte, O peixe e as ostras estão frescos?, demorar-me na escolha das entradas, porque haveria de ser pelo menos duas entradas a tender o jantar ao máximo, então faria a escolha do prato principal, magret de canard ao molho de laranja – é o que sempre pedia ao desembarcar em Paris –, e em seguida a Carta de Vinhos, nenhuma preocupação com os preços exorbitantes após tantos anos de abstinência, peço logo um Brunello, um Biondi Santi de boa safra, para espanto do sommelier, enquanto minha mulher faz o pedido dela – bisteca florentina, para acompanhar o vinho –, a conversa são amenidades em voz baixa para não estragar a refeição, até que chega o interessante momento de a-provar o vinho, Você prova, Não, você prova, Está perfeito, vamos deixá-lo respirar, peço que a garrafa permaneça na mesa, leio o rótulo com prazer, confiro a safra, o teor alcoólico, guardo a rolha de lembrança, Coisa mais cafona, me repreende minha mulher, não ligo, e chegamos às entradas, uma dúzia de ostras acompanhadas de uma taça de champanhe, depois sardinha escabeche e um cálice de Porto branco seco – enquanto o Brunello respira –, então o clímax, chegam o pato e a bisteca, estão perfeitos, mal passados como convém, e o vinho está maravilhoso, a conversa agora se resume aos elogios à comida e bebida, que não se pode falar de boca cheia, Hum!, Hum!, Hum!, tudo ótimo, até que o maitre pergunta se queremos sobremesa, Um pain perdu com peras para compartilhar e dois cálices de Sauterne, por fim dois expressos bem quentes.
– Ô cara, vocês bebem, heim!
sábado, 29 de maio de 2021
Baixo esplendor
A tradição começou em 1841, com a publicação do conto Assassinatos da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe, em um periódico da Filadélfia, o Graham's Magazine. O autor é considerado o precursor da literatura policial, para a qual muitos torcem o nariz, alegando que se trata de literatura de segunda categoria. Eu adoro!
Penso que há boa e má literatura, isso sim; um romance policial bem escrito é fonte de grande prazer para mim. E não tenho dúvida de que há bons romances policiais na literatura brasileira.
Luiz Alfredo Garcia-Roza é um bom exemplo, prolífico autor de títulos como O silêncio da chuva, Achados e perdidos, Vento sudoeste, Uma janela em Copacabana, Perseguido, Berenice procura, Espinosa sem saída, Na multidão, Céu de origamis, Fantasma, Um lugar perigoso, A última mulher.
Garcia-Roza foi professor de Psicologia e Psicanálise, tendo deixado importantíssima literatura sobre estas especialidades. Intelectual, humanista, aos 60 anos de idade resolveu escrever ficção, gesto de coragem, liberdade e independência de pensamento – a certa altura ele afirmou que se cansou da Academia –, fazendo enorme sucesso. O Silêncio da chuva, seu primeiro romance, ganhou o Jabuti.
Seus livros desencadearam grande popularidade do protagonista Espinosa, detetive culto, leitor compulsivo, metódico ao extremo – quem não se lembra dos livros empilhados na parede da sala? – sempre perambulando pelas ruas de Copacabana. Garcia-Roza morreu aos 84 anos, em abril de 2020, e deixou saudade.
Mais recentemente li e gostei muito de autores como Guillermo Martínez (Crimes imperceptíveis), Alberto Mussa (O senhor do lado esquerdo e A hipótese humana), Kucinski (Os visitantes); agora acabo de me deliciar com Baixo esplendor, de Marçal Aquino (Companhia das Letras, 2021).
Assim tem início a história:
“Numa das operações que atuou como infiltrado, o alvo era uma quadrilha de ladrões de carga que agia em diversos lugares do país. ... Ele levou quase três meses para conseguir entrar. Começou frequentando um salão de bilhar na parte velha da cidade, onde, de acordo com a dica de seu informante, integrantes do bando costumavam aparecer. Demorou, ele teve paciência, bebeu litros de rabo de galo, pagou inúmera rodadas de cerveja e houve tempo ainda para recuperar a velha forma no jogo de sinuca, paixão de juventude. Até a noite em que se viu compartilhando o feltro verde de uma mesa com dois desses homens, Ingo e Moraes. Usava nessa operação o codinome Miguel, homenagem a um amigo que ladrões tinham matado ao descobrir que assaltavam um policial.”
Marçal Aquino, paulista de Amparo, é jornalista, roteirista, com livros publicados na Alemanha, Espanha, França, México, Portugal, Suíça; após 16 anos retorna ao romance policial, em grande estilo. Baixo Esplendor é sensacional, para quem aprecia o gênero.







