segunda-feira, 24 de maio de 2021

Fotografia brasileira em NY

 

O MoMA, em Nova Iorque, abrirá a primeira retrospectiva de fotografia modernista brasileira nos Estados Unidos: "Fotoclubismo: Fotografia Modernista Brasileira e o Foto-Cine Clube Bandeirantes, 1946-1964". Reportagem de Lúcia Guimarães (24 mai 2021) para a Folha de S. Paulo.

A mostra destaca a produção de German Lorca e Thomaz Farkas, expoentes do Foto Cine Clube Bandeirante. 

“Acompanhada de um catálogo com ensaio da curadora da mostra, Sarah Meister, "Fotoclubismo" apresenta o público do Hemisfério Norte ao primeiro agrupamento de artistas experimentais do meio no Brasil, com nomes como Thomaz Farkas, Geraldo de Barros e Gertrudes Altschul.”

“O Foto Cine Clube Bandeirante era formado na maioria por fotógrafos amadores que tinham outras profissões. Thomas Farkas, que precisou de autorização dos pais para se filiar, aos 15 anos, era uma exceção. O grupo era artisticamente ambicioso, realizava mensalmente concursos internos temáticos e seus membros receberam vários prêmios em salões internacionais.” 


 



‘Ministério da Educação’, fotografia de 

Thomaz Farkas tirada no Rio de Janeiro 

Thomaz Farkas/Reprodução



 



‘Circense’ , fotografia de Julio Agostinelli de 1951

Julio Agostinelli/Reprodução



 


 

Fotografia de German Lorca que estará exposta 

no Itaú Cultural/German Lorca

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/moma-abre-primeira-grande-retrospectiva-no-exterior-da-fotografia-moderna-do-brasil.shtml

 

domingo, 23 de maio de 2021

O peso do pássaro morto



 "

– eu soube que a menina que morreu era amiga sua.

– a carla.

– 

 

Sozinha.

 

quando ela volta, seu luís?

 

(ele tirou os óculos

de novo.

o olho de pedra

me assustou um pouco

menos)

 

– ela não volta.

quer dizer,

ela só volta dentro de nós toda vez que alguém pensar nela.

fora, nunca mais.”

 

 

            O fragmento acima pertence ao livro O peso do pássaro morto, de Aline Bei, Editora Nós, Edith, 2017. É o primeiro livro da autora, que com ele venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2018.

            A narradora, personagem quase que exclusiva do romance, distribui suas falas dos 8 aos 52 anos. Me impressionou muito o relato da menina de 8 anos, do qual extraí o trecho acima.

            A obra chama a atenção pela originalidade formal.

            Aline acaba de publicar o segundo romance, Pequena coreografia do adeus, agora pela Companhia das Letras (2021). Vamos conferir.


Amizades

 

Enfim K. aprendeu que há amigos para as horas difíceis, amigos para as horas fáceis, mas não há um amigo para todas as horas, nos momentos de verdadeira solidão.


sábado, 22 de maio de 2021

Ignorância

 



Colonizadores alemães com prisioneiros dos 

povos herero e nama, atual Namíbia, 1904 

Arquivo Nacional da Namíbia

Tomás descobriu depois de velho que tem ignorância ruim mas também tem ignorância boa. 

Foi quando ele leu a notícia no jornal, que entre 1904 e 1907 o então território da África do Sudoeste (atual Namíbia) foi palco do primeiro genocídio do século 20: os colonizadores alemães quase exterminaram os povos herero e nama, com 75 mil e 100 mil mortos, respectivamente 80% e 50% deles. A Namíbia hoje, país do tamanho do Mato Grosso, tem apenas 2,6 milhões de habitantes, ainda consequência da tragédia.

Pior de tudo, os crimes foram praticados pelo mesmo país que na década de 1930 levaria o nazismo ao poder. Quer dizer, pensou Tomás, que aquilo foi um ensaio para o Holocausto? 

Que bom que ele nunca soube desses terríveis acontecimentos, mas agora estava sabendo, e se tornou um homem mais triste por causa disso. Será que saber as coisas faz bem pra saúde? matutou Tomás.

Depois pensou: Que adianta não saber se as coisas já aconteceram mesmo. Solução não há? Tem que haver.

O jeito é virar passarinho.

 

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/05/alemanha-prepara-reconhecimento-de-genocidio-africano-que-foi-precursor-do-nazismo.shtml?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=comptw

 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Achados e perdidos


Quando a namorada encontrou no quarto dele uma meia estranha, a desculpa serviu. Mas quando ela encontrou uma cueca...


três sorrisos

Galeria de Família 


o pai,  filha e neta

em um domingo feliz

os sorrisos falam


Na estrada



 
Estrada

 

Esta estrada onde moro, entre duas voltas 

                                               [do caminho,

Interessa mais que uma avenida urbana.

Nas cidades todas as pessoas se parecem.

Todo o mundo é igual. Todo o mundo é toda 

                                               [a gente.

Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a 

                                               [sua alma.

Cada criatura é única.

Até os cães.

Estes cães da roça parecem homem 

                                                [de negócios:

Andam sempre preocupados.

E quanta gente vem e vai!

E tudo tem aquele caráter impressivo que 

                                                [faz meditar:

Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por 

                                   [um bodezinho manhoso.

Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, 

                                   [pela voz dos símbolos,

Que a vida passa! que a vida passa!

E que a mocidade vai acabar.

 

                                              Manuel Bandeira

                                  Petrópolis, 1921 (*)

 

 

Comentários

 

Aos 35 anos, Manuel Bandeira se encontra perdido na vida – “entre duas voltas do caminho” –, em plena estrada, em trânsito portanto. Ainda não encontrou seu lugar: na cidade, se dissolve na multidão, onde todas as pessoas são iguais; na roça, aí sim, pode preservar a própria identidade.

            Desconheço que algum dia Bandeira tenha morado na roça, de modo que a comparação que estabelece no poema entre pessoas da cidade e da roça deve ter outro significado: talvez, estando entre muita gente (na cidade), o poeta se sentisse excluído; ao sentir-se bem e só (na roça), podia ser quem realmente era. A doença de que foi portador, e que carregou por toda a vida, por si só, trazia a marca indelével da exclusão social.

            A diferença se estabelece também entre os cães, em imagem originalíssima: na roça, “andam sempre preocupados” como “homens de negócio”, cientes da própria responsabilidade canina perante a vida. Na roça tudo faz meditar, há solenidade em todas as coisas, seja em um “enterro a pé”, na singela “carrocinha de leite”, até nos cães. É possível que o poeta esteja falando das reminiscências da infância, vivida no Recife, onde nasceu e morou até os quatro anos de idade. 

            O leitor não se iluda, tudo são símbolos no poema, alerta Bandeira. A água do rio corre, corre. A vida passa, passa. A simples repetição de uma palavra imprime movimento de continuidade à frase no fluir do poema e da vida.

            O último verso revela a essência do poeta. Desde seu primeiro poema – Desencanto – escrito em Teresópolis (1912), ele “faz versos como quem morre”. O diagnóstico de tuberculose, ele o recebeu muito cedo como sentença definitiva de morte. Agora, com Estrada, aos 35 anos, ele permanece com a certeza de que a mocidade – ou a própria vida – vai terminar a qualquer momento.

            Ainda assim, o lirismo está mais presente do que nunca na poesia de Manuel Bandeira.

            (Bandeira faleceu no Rio de Janeiro no dia 13 de outubro de 1968, aos 82 anos.)

 

 

 (*) In: Manuel Bandeira – Poesia completa e prosa, Ed. Nova Aguilar, 1990.

domingo, 16 de maio de 2021

A curiosa profissão de Rafael de Assis


Rafael de Assis se orgulhava da profissão que escolhera, especialmente porque, dizia ele, era dos pouquíssimos no ramo em todo o mundo, e verdade seja dita, ele atingira mesmo fama internacional, requisitado por gentes das mais diversas línguas, sobretudo por países de alto nível em tecnologia. Basta dizer, os japoneses eram seu principal cliente.

Tudo começou quando Rafael ganhou do pai uma máquina fotográfica semiprofissional, de funcionamento bastante complicado para um menino de dez anos, e que despertou nele irrefreável fascínio: não pela máquina, mas pelo manual que a acompanhava. Escrito em inglês, o livreto, de formato pequeno, continha exatamente cento e cinquenta e nove folhas, repletas de detalhadíssimas ilustrações, cada número indicando a respectiva função de uma infinidade de botões, localizados na frente, atrás, embaixo, em cima daquela verdadeira obra de arte. Um mistério para o menino de dez anos, o artefato parecia impenetrável, guardado a mil chaves, todas contidas no precioso manual. Bastava decifrá-lo.

As duas únicas palavras do inglês que Rafael conhecia eram The End, porque apareciam sempre nos finais dos filmes de mocinho-e-bandido, O que quer dizer The End, mãe?, É o fim, meu filho, é o fim, respondia a mãe que não sabia muito mais que aquilo. Mas havia em casa um velho Michaelis inglês-português; foi o que bastou para que o obstinado menino – o Champollion do Vale – começasse a traduzir aquele emaranhado de informações. 

Os pais da criança olhavam o novo comportamento do único filho com certa desconfiança, pois até mesmo o futebol com os colegas do Ginásio Estadual Flamínio Lessa ele deixou de lado, debruçado no livrinho, assim que chegava da escola. Continuava a ser o menino cordial de sempre, com boas notas, comportado, respeitoso para com os mais velhos, apenas um pouco mais calado.

Depois de um ano, o trabalho estava concluído, o manual da máquina fotográfica inteiramente traduzido para um caderno de duzentas folhas. A expectativa de Seu Paulo, pai do menino, era que Rafael tivesse encontrado sua vocação, e com ela, uma profissão que lhe garantisse sustento para o resto da vida, quem sabe se tornando até mesmo um reconhecido artista da Fotografia. Ao contrário, Rafa, como era tratado pelos amiguinhos, nunca mais encostou na Minolta. Para surpresa de todos, pediu emprestado ao pai o manual do carro, escrito em francês: um Fiat V8, de 1958! 

            O trabalho recomeçou, nos moldes do primeiro; agora o dicionário era o Larousse. Em três meses o manual estava completamente decifrado. (Seu Paulo pensou consigo mesmo, apenas pensou: Ou é um gênio, ou será um esquizofrênico, Deus nos livre...) Seguiram-se os manuais da máquina de costura Singer, da mãe; da geladeira Frigidaire; do novíssimo eletrocardiógrafo do Dr. Rubinho, cardiologista da cidade, que a fama de Rafael já corria mundo.

            Rafael cresceu, concluiu o curso de Engenharia Mecânica, continuou a ser o rapaz educado de sempre, solícito, prestativo, inteligente, afetuoso com seus pais, grato pela educação que recebera. Casou-se com Beatriz, que conhecera na universidade, ela médica psiquiátrica. Eram felizes, ambos realizados profissionalmente; ela com seu consultório de grande reputação na região, Rafael dono de afamada firma especializada em Confecção de Manuais, com clientes, em sua maioria, do Japão.