segunda-feira, 26 de abril de 2021

Poesia ou prosa?



 

Quem lê prosa sabe que está lendo prosa; aquele que lê poesia, sabe que está a ler poesia; no entanto, nem sempre sabe o que diferencia uma coisa da outra. Chega a sentir – o que é muito importante –, mas não sabe.  

É disso que trata a belíssima introdução de Noemi Jaffe, em artigo publicado na Revista Serrote, do Instituto Moreira Salles, n. 32, julho de 2019, sob o título Rosa, substantivo, substância. Ela pergunta:

            – A escrita de Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, é prosa ou poesia?

            Quantos de nós, embora tenhamos tido contato vezes sem conta com ambos os gêneros, já nos perguntamos, de fato, qual a diferença entre poesia e prosa? Nada menos que brilhante, a conceituação exposta por Jaffe:

 

“Uma das mais importantes diferenças entre prosa e poesia – junto à ideia de que a poesia retorna (por isso o verso) e a prosa continua – é o fato de que, na primeira, as frases se unem mais por subordinação e, na segunda, por coordenação. Na prosa, a importância de uma trama já explica, pelo próprio nome, a imbricação de histórias, hierarquias, caminhos e descaminhos, conflitos, tensões e distensões. E isso é fato tanto na prosa clássica como na contemporânea, mesmo que haja ausência do fator causa-consequência ou mesmo das formas tradicionais de abordagem do tempo, espaço, personagem e enredo. Ora, é o verbo que catalisa a ordenação da frase, para que possam ocorrer as conjunções subordinativas – embora, apesar, contanto, se, que, a não ser que, como etc. O verbo é o núcleo das orações, seu organizador temporal, pessoal e numeral. O verbo temporaliza o espaço, ou, dizendo com outras palavras, o verbo é o condutor das histórias.

            Já na poesia, que talvez se possa definir por uma espacialização do tempo, o verbo não exerce o mesmo papel – quem ocupa esse lugar são os substantivos. Coisas surgindo como palavras, palavras surgindo como coisas, mais autônomas, menos dependentes de um núcleo centrífugo ou centrípeto. Cada artigo, pronome, preposição, num poema, tem valor também por si, independentemente da sua subordinação a uma hierarquia morfológica ou sintática. Dessa forma, pode-se exagerar e dizer que quase todas as classes de palavras, num poema, são espécies de substantivos, em função de sua autonomia semântica ou sintática.

            Esse efeito, de maior subordinação na prosa e maior coordenação na poesia, faz com que, entre outras coisas, a prosa gere mais sensação temporal, e a poesia, por sua vez, mais sensação espacial. Na poesia, a linguagem quer coincidir com seu objeto, quer suprimir, ao máximo possível, a arbitrariedade do significante – e por isso ressalta íntegra, quase como coisa. Prosa e poesia: dinâmica e estática; dependência e autonomia lexical; tempo no espaço e espaço no tempo; trama na linguagem e linguagem em trama.”

 

            Tudo isso, para Jaffe dar embasamento a uma única pergunta, sobre a escrita de Guimarães Rosa, e a partir daí desenvolver sua tese:

            – “Diz-se que ele escreve prosa. Será?”

            Com um ou outro laivo de erudição linguística exagerada, para alguns, penso que o texto de Jaffe é bastante claro e elucidativo; registro-o aqui com o pensamento em meu irmão Paulo, poeta de primeira grandeza, que, mesmo sabendo disso tudo, não precisou de conceitos e teorias linguísticas para compor o Esmo, um grande livro de poesia.

 

sábado, 24 de abril de 2021

De pequenino que se torce o pepino

 

K. nasceu em berço de ouro. Nunca fez refeições em casa, sempre em restaurantes, acompanhado dos pais. Cedo aprendeu a bajular garçons.


sexta-feira, 23 de abril de 2021

Dia Mundial do Livro 2

 

Bernardo Carvalho escreveu hoje (23 abr 2021) para a Folha: “Literatura não é manual nem modelo de comportamento”.

Nabokov observou sobre suas aulas na Universidade Cornell: “Tentei tornar os alunos bons leitores, que leem livros não pelo motivo infantil de se identificar com os personagens, nem pelo propósito adolescente de aprender a viver ou pelo projeto acadêmico de fazer generalizações”. (O grifo é meu.)

            Afirma Carvalho: “Nabokov combatia, já naquela época, uma leitura convencional e conservadora, que hoje se impõe como novidade e às vezes até como revolução. ...a literatura inversamente não pode ser atrelada à simples evocação de uma questão moral. Literatura não é manual nem modelo de comportamento. Ela não tem de seguir diretrizes, requisitos e restrições impostas à liberdade de explorar tudo o que é humano. Literatura não é um problema de caráter.”

Bernardo Carvalho conclui: “Fazer a literatura corresponder à representação de um modelo moral serve de ilusão paliativa, é o correlato natural e desesperado da nossa impotência diante da indecência da realidade, diante do mal. Mas também é desistir da charada que não conseguimos resolver. É jogar a toalha antes mesmo do início da partida.”

            Acrescento eu, despretensiosamente: Literatura é Liberdade.

            (Não posso esconder: tenho batido numa mesma tecla neste blog, a de que em Literatura é preciso cuidar da forma, às vezes mais que do conteúdo. Isso seria uma limitação à liberdade; de fato, não o é. Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, publicado em 1960, é um bom exemplo de que a liberdade de expressão acaba por vencer:  Carolina deixou a forma de lado e fez prevalecer as circunstâncias. Estrondoso sucesso, revivido recentemente com nova edição do livro.)

            Reitero: Literatura é liberdade de pensar, tanto por parte de quem escreve, e mais ainda por parte de quem lê. Mas que o leitor não se iluda: “Literatura não é manual nem modelo de comportamento”, como afirma Carvalho. 

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-carvalho/2021/04/literatura-nao-e-manual-nem-modelo-de-comportamento.shtml

 

Dia Mundial do Livro

 



“Taxar livros é novo obstáculo para reduzir imenso 
e perverso fosso social.”

 

                                                           Galeno Amorim

 

 

 

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/04/robin-hood-as-avessas.shtml

 

Paula continua brilhando

A foto do dia 


Paula Vianna, Búzios, RJ

domingo, 18 de abril de 2021

Tragédia de longa duração



 

"Uma única morte é uma tragédia; um milhão de mortes é uma estatística". Assim Hélio Schwartsman inicia sua crônica Vivendo com a tragédia nesse domingo, no Estadão (18 abr 2021).

Segundo ele, a frase teria sido proferida por Stálin, sem que haja comprovação disso. De qualquer modo, o fenômeno existe e é chamado de habituação: “uma forma de aprendizado caracterizada pela diminuição da intensidade com que respondemos a um estímulo à medida que a exposição se repete ou se prolonga”. 

Minha casa fica próxima a uma via de grande movimento, que liga o centro a uma certa periferia de Brasília, de alta densidade populacional e acentuada pobreza socioeconômica. Desde o início desta pandemia, e isso já vai para mais de ano, ouço a macabra sirene das ambulâncias que vão e vêm, buscando pacientes acometidos da Covid-19 e transportando-os para hospitais distribuídos pela cidade, incontáveis vezes ao dia. 

Durante os primeiros meses o som das ambulâncias produzia em mim forte comoção – não exagero –, por duas razões bem claras. A primeira era a dor da tragédia em si, o sofrimento das gentes mais necessitadas expostas à infecção, principalmente no precário transporte coletivo da Capital do país, de que são todos dependentes. Como não aglomerar, se vão trabalhar em ônibus lotados? 

O segundo motivo do abalo emocional era tão evidente e talvez até mais insuportável que o primeiro: a ameaça da morte, de minha própria morte. Aprendi a diferenciar o som das ambulâncias daquele dos carros da polícia; é incrível, mas a sirene da polícia oferecia um certo alívio.

É aí que entra a habituação de que fala Schwartsman: ela permite espécie de adaptação a dura realidade, questão de sobrevivência emocional, um certo tipo de aprendizado, porque a vida segue. Uma reação bastante humana.

Prossegue Schwartsman: “O lado menos brilhante da habituação é que ela normaliza aquilo que, no plano moral, não deveria ser normalizado. É o que está acontecendo agora no Brasil com a epidemia de Covid-19. Estamos há tanto tempo lendo sobre o aumento de mortes e vendo imagens dos congestionamentos de caixões que a carnificina por que estamos passando já não desencadeia em nós a reação adequada, que seria a de exigir dos governantes medidas efetivas e imediatas para minorar a crise.”

É por isso que o brilhante articulista afirma que “No plano valorativo, a habituação é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição.”

      Enquanto isso, as sirenes continuam a soar.


 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2021/04/vivendo-com-a-tragedia.shtml